Composição de fotos do Carnaval de 2001-2002 - by angela

A VIRADOURO CANTA

E CONTA BIBI

 

 UMA HOMENAGEM AO

TEATRO BRASILEIRO

"O que eu gosto muito num palco é que eu estou inatingível. Quando estou num palco ninguém me toca. É um momento só meu. Um momento em que não vou ser interrompida. Estou ali só para dar. O que eu puder dar, eu dou. É o momento da criação. Da comunhão. É muito bonita esta comunhão palco e platéia É o momento em que, através de vocês, eu me encontro com Deus."
                                                                                                              Bibi Ferreira

A Unidos do Viradouro honrosamente ergue seu pavilhão vermelho e branco, abre suas cortinas e traz para a Marquês de Sapucaí a grande Bibi Ferreira.

Estrela de primeira grandeza, habituada aos grandes palcos do mundo, desta vez ela interpretará um personagem diferente: será a Prima Dona da ópera do povo, a protagonista do maior espetáculo da Terra, contada e cantada em cores, formas, versos e movimentos, ao som de uma orquestra de pandeiros, surdos, tamborins e repeniques entoando em forma de samba um "Bravo, Bibi"!

 

ABERTURA - NASCIDA EM BERÇO ESPLÊNDIDO: A ORIGEM DE UMA DIVA

"Minha Babá era o Camarim"

Houve um dia em que um ator de pequena estatura e grande talento chamado Procópio se encantou com as graças de uma bela e virtuosa bailarina espanhola, vinda de uma família de artistas ligados ao mundo do circo e da ópera. Ela era Aída, como a heroína de Verdi. Do encontro, veio ao mundo a pequena Abigail Izquierdo Ferreira, ou simplesmente Bibi. Não nasceu em berço de ouro, mas num celeiro de astros destinados a levar o riso e a lágrima a um Brasil que ainda buscava uma identidade própria nas artes cênicas.

Com apenas 24 dias de vida, a pequena Bibi entrou no palco pela primeira vez, substituindo uma boneca que sumira na confusão dos bastidores da peça "Uma Manhã de Sol". Com a separação dos pais, seguiu com a mãe na Companhia Velasco, um grupo de teatro de revista espanhol que apresentou à precoce Bibi as primeiras notas musicais e, inspirada pelos passos da vibrante dança flamenca, pisou firme os palcos de toda a América Latina.

Sua estréia profissional nos palcos aconteceu aos dezessete anos de idade. Na comédia "La Locandiera", encenada pela companhia do próprio pai, Bibi agigantou-se em cena no papel de Mirandolina e ganhou do público o grande presente que a acompanharia sempre: o aplauso.

E não é que a menina tomou gosto pela coisa? Levou a sério a arte de representar e, com os atributos herdados da experiência nos palcos, aliada a boas doses de disciplina, tornou-se uma das artistas mais completas do cenário teatral brasileiro, onde atuou, também como cantora, música, diretora, arranjadora, poeta, bailarina, comunicadora e dramaturga, pondo tudo de si em cada expressão, cada acorde, cada gesto.

Nesta época, Bibi passou também a dirigir e escrever textos, como "Bendito Entre As Mulheres". O teatro de revista também não escapou do toque de Midas da nossa Prima Dona. Já com a sua própria companhia, montou o supermusical "Escândalos 1950", no Teatro Carlos Gomes.

Nada passava despercebido ao olhar curioso de Bibi, que investia sempre com ousadia em novas experiências.

 

1º ATO - A ARTE DE REPRESENTAR NAS TELAS DO BRASIL E DO MUNDO

"Não acho a mínima graça em fazer algo que vou superar com facilidade"

Mas não foi só através dos palcos que Bibi surgiu para o mundo. Ela participou do elenco do filme inglês "O Fim do Rio", onde, além de interpretar, mostrou seu talento como cantora e violonista. Foi com esse espírito que Bibi abraçou o desafio de fazer televisão, tornando-se uma das comunicadoras mais populares do país na década de 60.

Comandou programas que chegaram a ter 8 horas de duração! Outro importante trabalho de Bibi na TV foi a apresentação do programa "Curso de Alfabetização para Adultos", que lhe rendeu vários prêmios. Fez também importantes entrevistas com famosos astros ingleses como Omar Sharif, George Sanders e Julie Christie, além de participar da primeira transmissão via satélite da TV brasileira, a cerimônia de entrega do Oscar, em 1972.

Mas a Ribalta a arrebatara definitivamente e dela fez seu mundo, ofício e vocação. A era dos grandes sucessos, das superproduções e do reconhecimento definitivo marcou a carreira de Bibi e inaugurou um capítulo à parte na história do teatro brasileiro.

Agora sim, temos uma identidade teatral. Agora sim, temos uma diva.

 

2º ATO - A DIVA DOS GRANDES MUSICAIS

"A minha grande vaidade é representar cada vez melhor"

Só mesmo uma diva para interpretar a personagem principal da obra de Alan Jay Lerner, uma das mais populares histórias encenadas nos palcos de todo o mundo. "Minha Querida Lady" conta o pitoresco episódio em que o excêntrico Henry aposta com um amigo que conseguiria transformar a pobre e ignorante florista Eliza numa verdadeira dama. O resultado é surpreendente e todos passam a se encantar com a bela e refinada Eliza.

Bibi construiu uma personagem usando todo o seu carisma e lirismo. A mudança de Eliza da absoluta pobreza para modos refinados foi pontuada por momentos de grande inspiração da atriz, numa superprodução digna dos grandes musicais da Broadway. Nessa mesma linha, Bibi montou em 1965, outro espetáculo com a marca da grandiosidade: Alô, Dolly, com cenários imponentes, figurinos muito bem cuidados e um elenco de mais de 120 artistas.

Mais uma vez pioneira, Bibi foi responsável pela introdução do teatro musical no país, com montagens inesquecíveis e produções que levaram ao público brasileiro a magia dos grandes espetáculos.

3º ATO - O HOMEM DE LA MANCHA

"É um hino à vida, à grandeza humana" (Sérgio Britto, sobre o "Homem de La Mancha)

O clássico de Miguel de Cervantes inspirou o musical "O Homem de La Mancha", de Dale Wasserman, cujas versões das canções foram feitas pelos notáveis Chico Buarque e Ruy Guerra. O espetáculo, encenado pela primeira vez em 1972, trouxe no elenco, ao lado de Bibi Ferreira – que representou Dulcinéia - Paulo Autran e Grande Otelo.

O "Homem de La Mancha" apresenta-se como uma celebração aos ideais, à crença em valores humanos, ao apresentar a figura de Dom Quixote em seus questionamentos e anseios.

Como o herói de Cervantes, Bibi também enfrentou dificuldades próprias de quem lida com a arte. Mas a busca dos ideais em nome da primazia cênica sempre justificou os sus projetos. Para ela, cada espetáculo era um desafio quixotesco, uma luta a favor do puro ato de despertar na platéia as mais diversas emoções.

4º ATO - BIBI ENCENA "GOTA D’ÁGUA"

"Gota D’Água tem o maior trabalho de diálogo do teatro nacional"

O ano é 1975. Só mesmo uma artista com o quilate dramático de Bibi Ferreira para dar vida a uma das mais complexas heroínas da história do teatro. "Gota D’Água" é uma tragédia urbana escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes a partir de um projeto de Oduvaldo Viana Filho, que já havia feito uma adaptação do clássico "Medéia", de Eurípedes, para a TV.

O espetáculo tem como pano de fundo os dissabores vividos pelos moradores de um conjunto habitacional e traz no centro da trama a relação entre o casal Joana e Jasão. A Joana criada por Bibi fez saltar de forma arrebatadora a veia dramática da atriz, numa interpretação comovente, permeada de fortes expressões.

Para Bibi, "Gota D’Água" é a obra mais importante do teatro brasileiro, um divisor de águas. Ela acreditava que, uma vez atuando nesse espetáculo, não era preciso fazer mais nada no teatro, pois ali estava o melhor trabalho de diálogo do teatro nacional.

Mas havia a certeza de que existiam muitos personagens fascinantes em busca da sua interpretação.

5º ATO- PIAF: UM HINO AO AMOR

"Ela é a única intérprete capaz de reviver a emoção dramática de Piaf" (Hughes Vassal, fotógrafo francês que registrou a última fase da vida de Piaf)

Bibi é assim. Várias mulheres numa só e uma mulher única. Dona de um potencial vocal invejável, não foi difícil imaginá-la incorporando uma das mais importantes intérpretes da música mundial: a emblemática Edith Piaf, cantora francesa cuja voz serviu de alento aos soldados durante a Segunda Guerra Mundial. A vida conturbada de Piaf rendeu um dramático e comovente musical, "Piaf, A Vida de Uma Estrela da Canção", um marco na carreira da nossa diva.

A perfeita interpretação de Bibi rendeu uma nova edição do espetáculo, com o título "Bibi Canta e Conta Piaf", onde a atriz brindou o público com os principais momentos da vida da cantora, ao som de músicas que revelaram ao mundo a voz emotiva de Piaf. O espetáculo rendeu quatro anos consecutivos em cartaz e excursões por todo o Brasil, além de ser encenado no famoso Cassino Estoril, em Portugal, e na França.

Mas Piaf não foi a única diva representada por Bibi Ferreira. Quando muitos ainda estavam extasiados com sua homenagem à cantora francesa, eis que surge no palco, ao som de fados, outra intérprete ímpar na música mundial.

 

6º - NOS PALCOS COM AMÁLIA

"É muito difícil trabalhar a prosódia portuguesa, é sílaba por sílaba. (...) É um trabalho de artesão."

Com a familiaridade habitual com o palco, Bibi trouxe ao público brasileiro uma homenagem à cantora Amália Rodrigues, grande expoente da música portuguesa e dona de uma qualidade vocal irretocável. O musical "Bibi Vive Amália" proporcionou mais uma interpretação comovente de Bibi, então comemorando seus 60 anos de carreira. Em mais este desafio, ela mergulhou fundo na alma e na interpretação da fadista, numa primorosa recriação do timbre tão especial da voz de Amália Rodrigues.

O público agradece, ora, pois, pois, e aplaude de pé mais esta atuação de Bibi. É hora de comemorar seus oitenta anos de vida, trazendo para a avenida um convidado muito especial.

 

7º ATO - UM GRAN FINALE - O LEGADO DO GRANDE PROCÓPIO FERREIRA

"Através de você, viverei duas vezes"

(Procópio Ferreira, sobre Bibi)

A Viradouro traz para os braços do povo a arte de Bibi Ferreira, herdeira do talento de um dos maiores atores do nosso país, o grande Procópio Ferreira. O legado deixado pelo ator, reverenciado e aclamado até hoje, revive em Bibi.

O pai, que previu o seu talento logo nos primeiros dias de vida, surge para participar da festa em homenagem à ilustre filha, orgulho de um país inteiro, senhora de muitas artes, aclamada nos palcos mundo afora! Procópio e Bibi são símbolos da criatividade e do talento do nosso povo em reafirmar seu valor.

Talento esse que ganha a avenida todos os anos e transforma milhares de anônimos em  astros e estrelas na grande festa popular brasileira. Cada componente, cada espectador vai prestar sua homenagem aos 80 anos de Bibi Ferreira, numa comunhão única com o público que o só o carnaval pode proporcionar, eternizando sua história em vermelho e branco.

É com muita honra que a Viradouro, escola de tantas glórias e conquistas, torna-se veículo desta celebração, em mais um ato dos muitos que ainda virão no decorrer da vitoriosa trajetória desta diva.

A partir desta homenagem, o carnaval passa a contar com mais uma personalidade a pertencer à seleta constelação de artistas consagrados na maior festa popular do mundo.

Receba, Bibi, esta emocionada homenagem da Unidos do Viradouro em nome de todo o povo brasileiro. Um bravo a você!

Mauro Quintaes

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