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"O
que eu gosto muito num palco é que eu estou
inatingível. Quando estou num palco ninguém me toca.
É um momento só meu. Um momento em que não vou ser
interrompida. Estou ali só para dar. O que eu puder
dar, eu dou. É o momento da criação. Da comunhão.
É muito bonita esta comunhão palco e platéia É o
momento em que, através de vocês, eu me encontro com
Deus."
Bibi Ferreira |
A
Unidos do Viradouro honrosamente ergue seu pavilhão vermelho
e branco, abre suas cortinas e traz para a Marquês de
Sapucaí a grande Bibi Ferreira.
Estrela
de primeira grandeza, habituada aos grandes palcos do mundo,
desta vez ela interpretará um personagem diferente: será a Prima
Dona da ópera do povo, a protagonista do maior espetáculo
da Terra, contada e cantada em cores, formas, versos e
movimentos, ao som de uma orquestra de pandeiros, surdos,
tamborins e repeniques entoando em forma de samba um "Bravo,
Bibi"!
ABERTURA
- NASCIDA EM BERÇO ESPLÊNDIDO: A ORIGEM DE UMA DIVA
"Minha
Babá era o Camarim"
Houve
um dia em que um ator de pequena estatura e grande talento
chamado Procópio se encantou com as graças de uma bela e
virtuosa bailarina espanhola, vinda de uma família de
artistas ligados ao mundo do circo e da ópera. Ela era Aída,
como a heroína de Verdi. Do encontro, veio ao mundo a pequena
Abigail Izquierdo Ferreira, ou simplesmente Bibi. Não nasceu
em berço de ouro, mas num celeiro de astros destinados a
levar o riso e a lágrima a um Brasil que ainda buscava uma
identidade própria nas artes cênicas.
Com
apenas 24 dias de vida, a pequena Bibi entrou no palco pela
primeira vez, substituindo uma boneca que sumira na confusão
dos bastidores da peça "Uma Manhã de Sol". Com a
separação dos pais, seguiu com a mãe na Companhia Velasco,
um grupo de teatro de revista espanhol que apresentou à
precoce Bibi as primeiras notas musicais e, inspirada pelos passos da
vibrante dança flamenca, pisou firme os palcos de toda a América
Latina.
Sua
estréia profissional nos palcos aconteceu aos dezessete anos
de idade. Na comédia "La Locandiera", encenada pela
companhia do próprio pai, Bibi agigantou-se em cena no papel
de Mirandolina e ganhou do público o grande presente que a
acompanharia sempre: o aplauso.
E
não é que a menina tomou gosto pela coisa? Levou a sério a
arte de representar e, com os atributos herdados da experiência
nos palcos, aliada a boas doses de disciplina, tornou-se uma
das artistas mais completas do cenário teatral brasileiro,
onde atuou, também como cantora, música, diretora,
arranjadora, poeta, bailarina, comunicadora e dramaturga,
pondo tudo de si em cada expressão, cada acorde, cada gesto.
Nesta
época, Bibi passou também a dirigir e escrever textos, como
"Bendito Entre As Mulheres". O teatro de revista
também não escapou do toque de Midas da nossa Prima Dona. Já
com a sua própria companhia, montou o supermusical "Escândalos
1950", no Teatro Carlos Gomes.
Nada
passava despercebido ao olhar curioso de Bibi, que investia
sempre com ousadia em novas experiências.
1º
ATO - A ARTE DE REPRESENTAR NAS TELAS DO BRASIL E DO MUNDO
"Não
acho a mínima graça em fazer algo que vou superar com
facilidade"
Mas
não foi só através dos palcos que Bibi surgiu para o mundo.
Ela participou do elenco do filme inglês "O Fim do
Rio", onde, além de interpretar, mostrou seu talento
como cantora e violonista. Foi com esse espírito que Bibi
abraçou o desafio de fazer televisão, tornando-se uma das
comunicadoras mais populares do país na década de 60.
Comandou
programas que chegaram a ter 8 horas de duração! Outro
importante trabalho de Bibi na TV foi a apresentação do
programa "Curso de Alfabetização para Adultos",
que lhe rendeu vários prêmios. Fez também importantes
entrevistas com famosos astros ingleses como Omar Sharif,
George Sanders e Julie Christie, além de participar da
primeira transmissão via satélite da TV brasileira, a cerimônia
de entrega do Oscar, em 1972.
Mas
a Ribalta a arrebatara definitivamente e dela fez seu mundo,
ofício e vocação. A era dos grandes sucessos, das superproduções e do reconhecimento definitivo marcou a carreira
de Bibi e inaugurou um capítulo à parte na história do
teatro brasileiro.
Agora
sim, temos uma identidade teatral. Agora sim, temos uma diva.
2º
ATO - A DIVA DOS GRANDES MUSICAIS
"A
minha grande vaidade é representar cada vez melhor"
Só
mesmo uma diva para interpretar a personagem principal da obra
de Alan Jay Lerner, uma das mais populares histórias
encenadas nos palcos de todo o mundo. "Minha Querida
Lady" conta o pitoresco episódio em que o excêntrico
Henry aposta com um amigo que conseguiria transformar a pobre
e ignorante florista Eliza numa verdadeira dama. O resultado
é surpreendente e todos passam a se encantar com a bela e
refinada Eliza.
Bibi
construiu uma personagem usando todo o seu carisma e lirismo.
A mudança de Eliza da absoluta pobreza para modos refinados
foi pontuada por momentos de grande inspiração da atriz,
numa superprodução digna dos grandes musicais da Broadway.
Nessa mesma linha, Bibi montou em 1965, outro espetáculo com
a marca da grandiosidade: Alô, Dolly, com cenários
imponentes, figurinos muito bem cuidados e um elenco de mais
de 120 artistas.
Mais
uma vez pioneira, Bibi foi responsável pela introdução do
teatro musical no país, com montagens inesquecíveis e produções
que levaram ao público brasileiro a magia dos grandes espetáculos.
3º
ATO - O HOMEM DE LA MANCHA
"É
um hino à vida, à grandeza humana" (Sérgio
Britto, sobre o "Homem de La Mancha)
O
clássico de Miguel de Cervantes inspirou o musical "O
Homem de La Mancha", de Dale Wasserman, cujas versões
das canções foram feitas pelos notáveis Chico Buarque e Ruy
Guerra. O espetáculo, encenado pela primeira vez em 1972,
trouxe no elenco, ao lado de Bibi Ferreira – que representou
Dulcinéia - Paulo Autran e Grande Otelo.
O
"Homem de La Mancha" apresenta-se como uma celebração
aos ideais, à crença em valores humanos, ao apresentar a
figura de Dom Quixote em seus questionamentos e anseios.
Como
o herói de Cervantes, Bibi também enfrentou dificuldades próprias
de quem lida com a arte. Mas a busca dos ideais em nome da
primazia cênica sempre justificou os sus projetos. Para ela,
cada espetáculo era um desafio quixotesco, uma luta a favor
do puro ato de despertar na platéia as mais diversas emoções.
4º
ATO - BIBI ENCENA "GOTA D’ÁGUA"
"Gota
D’Água tem o maior trabalho de diálogo do teatro
nacional"
O
ano é 1975. Só mesmo uma artista com o quilate dramático de
Bibi Ferreira para dar vida a uma das mais complexas heroínas
da história do teatro. "Gota D’Água" é uma
tragédia urbana escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes a
partir de um projeto de Oduvaldo Viana Filho, que já havia
feito uma adaptação do clássico "Medéia", de
Eurípedes, para a TV.
O
espetáculo tem como pano de fundo os dissabores vividos pelos
moradores de um conjunto habitacional e traz no centro da
trama a relação entre o casal Joana e Jasão. A Joana criada
por Bibi fez saltar de forma arrebatadora a veia dramática da
atriz, numa interpretação comovente, permeada de fortes
expressões.
Para
Bibi, "Gota D’Água" é a obra mais importante do
teatro brasileiro, um divisor de águas. Ela acreditava que,
uma vez atuando nesse espetáculo, não era preciso fazer mais
nada no teatro, pois ali estava o melhor trabalho de diálogo
do teatro nacional.
Mas
havia a certeza de que existiam muitos personagens fascinantes
em busca da sua interpretação.
5º
ATO- PIAF: UM HINO AO AMOR
"Ela
é a única intérprete capaz de reviver a emoção dramática
de Piaf" (Hughes Vassal, fotógrafo francês
que registrou a última fase da vida de Piaf)
Bibi
é assim. Várias mulheres numa só e uma mulher única. Dona
de um potencial vocal invejável, não foi difícil imaginá-la
incorporando uma das mais importantes intérpretes da música
mundial: a emblemática Edith Piaf, cantora francesa cuja voz
serviu de alento aos soldados durante a Segunda Guerra
Mundial. A vida conturbada de Piaf rendeu um dramático e
comovente musical, "Piaf, A Vida de Uma Estrela da Canção",
um marco na carreira da nossa diva.
A
perfeita interpretação de Bibi rendeu uma nova edição do
espetáculo, com o título "Bibi Canta e Conta
Piaf", onde a atriz brindou o público com os principais
momentos da vida da cantora, ao som de músicas que revelaram
ao mundo a voz emotiva de Piaf. O espetáculo rendeu quatro
anos consecutivos em cartaz e excursões por todo o Brasil, além
de ser encenado no famoso Cassino Estoril, em Portugal, e na
França.
Mas
Piaf não foi a única diva representada por Bibi Ferreira.
Quando muitos ainda estavam extasiados com sua homenagem à
cantora francesa, eis que surge no palco, ao som de fados,
outra intérprete ímpar na música mundial.
6º
- NOS PALCOS COM AMÁLIA
"É
muito difícil trabalhar a prosódia portuguesa, é sílaba
por sílaba. (...) É um trabalho de artesão."
Com
a familiaridade habitual com o palco, Bibi trouxe ao público
brasileiro uma homenagem à cantora Amália Rodrigues, grande
expoente da música portuguesa e dona de uma qualidade vocal
irretocável. O musical "Bibi Vive Amália"
proporcionou mais uma interpretação comovente de Bibi, então
comemorando seus 60 anos de carreira. Em mais este desafio,
ela mergulhou fundo na alma e na interpretação da fadista,
numa primorosa recriação do timbre tão especial da voz de
Amália Rodrigues.
O
público agradece, ora, pois, pois, e aplaude de pé mais esta
atuação de Bibi. É hora de comemorar seus oitenta anos de
vida, trazendo para a avenida um convidado muito especial.
7º
ATO - UM GRAN FINALE - O LEGADO DO GRANDE PROCÓPIO
FERREIRA
"Através
de você, viverei duas vezes"
(Procópio
Ferreira, sobre Bibi)
A
Viradouro traz para os braços do povo a arte de Bibi
Ferreira, herdeira do talento de um dos maiores atores do
nosso país, o grande Procópio Ferreira. O legado deixado
pelo ator, reverenciado e aclamado até hoje, revive em Bibi.
O
pai, que previu o seu talento logo nos primeiros dias de vida,
surge para participar da festa em homenagem à ilustre filha,
orgulho de um país inteiro, senhora de muitas artes, aclamada
nos palcos mundo afora! Procópio e Bibi são símbolos da
criatividade e do talento do nosso povo em reafirmar seu
valor.
Talento
esse que ganha a avenida todos os anos e transforma milhares de anônimos
em astros e estrelas na grande festa popular brasileira. Cada
componente, cada espectador vai prestar sua homenagem aos 80
anos de Bibi Ferreira, numa comunhão única com o público
que o só o carnaval pode proporcionar, eternizando sua história
em vermelho e branco.
É
com muita honra que a Viradouro, escola de tantas glórias e
conquistas, torna-se veículo desta celebração, em mais um
ato dos muitos que ainda virão no decorrer da vitoriosa
trajetória desta diva.
A
partir desta homenagem, o carnaval passa a contar com mais uma
personalidade a pertencer à seleta constelação de artistas
consagrados na maior festa popular do mundo.
Receba,
Bibi, esta emocionada homenagem da Unidos do Viradouro em nome
de todo o povo brasileiro. Um bravo a você!
Mauro
Quintaes