Grande sucesso da
temporada de 2007, com 40 000 espectadores nas suas
primeiras 100 apresentações, a peça Às Favas com os
Escrúpulos é uma catarse, da qual o público
participa intensamente, vingando-se da nossa
desmoralizada classe política conforme o velho
princípio do teatro de Molière, "castigat ridendo
mores" (castiga os costumes rindo). Na linha de
Caixa Dois, outro sucesso de Juca de Oliveira, autor
da peça e intérprete do senador adúltero e
inescrupuloso de Às Favas, a obra fez brilhar Bibi
Ferreira no papel da mulher traída por um marido de
quem todos gostariam de vingar-se. Diva do teatro
brasileiro em plena forma, aos 86 anos, Bibi extraiu
o melhor da fórmula do sucesso, na qual uma grande
atriz encontra um papel catalisador dos sentimentos
do grande público a respeito de um poderoso tema do
momento."O
meu papel é o do povo sob todos os pontos de vista,
emocionais e políticos", acredita ela. "Sou traída
em todos os sentidos. As pessoas se identificam com
a personagem e riem muito." Bibi adora a
participação do público, que aplaude no meio da
peça, interfere com comentários e chega a dar
sugestões no curso da apresentação, em geral no
sentido de aperfeiçoar a vingança. "Tenho de prestar
muita atenção, senão me perco", conta ela. "Há uma
cena em que começo a beber e vou do zero ao máximo
da bebedeira. Por causa das intervenções, quando
volto ao texto às vezes não sei em que ponto do
pifão estou, é complicado."
Atriz desde o
primeiro mês de idade, substituindo uma boneca numa
das peças de seu pai, o lendário ator Procópio
Ferreira (1898-1979), Bibi se tornou mais conhecida
pelos musicais, nos quais investiu por mais de
quatro décadas. Protagonizou clássicos como A Gota
d’ Água e Piaf, o primeiro espetáculo a alcançar no
Brasil mais de 1 milhão de espectadores. Porém,
considera ter estreado "profissionalmente" aos 17
anos de idade, levada ao palco por Procópio,
justamente nas comédias. "Fiz muitas, papai quase só
tinha repertório para rir", diz ela. Quando eles
saíam dessa linha, o público estranhava. "Houve uma
peça em que éramos amantes", relembra. "Como a
platéia sabia que se tratava de pai e filha na vida
real, e eram os anos 40, foi uma tragédia. As
pessoas iam saindo aos bocadinhos e depois de quatro
dias papai tirou a peça de cartaz."
Foi naquela época
que ela passou a ter sua própria companhia teatral,
aberta por decisão do pai, como uma "filial". Sempre
foi nômade, levando a arte aonde a platéia está. É
dona de um apartamento na Avenida Rui Barbosa, no
Rio de Janeiro, diante do Pão de Açúcar, mas na
prática mora em hotéis, desde o tempo em que ficava
em pensões pulgueirinhas com banheiros coletivos,
nos quais tomava banho de tamancos, "para manter
distância daquilo que estava no chão". Por conta de
Às Favas, sua casa hoje é um quarto no Maksoud
Plaza, onde sobre a mesa se amontoam DVDs, maquiagem
e uma bandeira do Brasil, que ela comprou para a
centésima apresentação da peça. Em uma carreira que
se confunde com a da história da dramaturgia no
Brasil, Bibi achava que ficaria mais conhecida pelos
musicais. De volta aos braços da comédia, só tem a
comemorar. "Digo ao Juca que Às Favas é um marco em
nossas carreiras", afirma ela. Prova de que sempre é
tempo para surpresas e momentos extraordinários.