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4. Edith Piaf - sucesso e amor
"La Môme Piaf", o nome artístico, foi abandonado em 1937 quando ela passou a se apresentar como Edith Piaf. Mais gravações, mais sucessos ! No Le Bobino, famosa casa parisiense, ela se apresentou como estrela do espetáculo, ao lado de Jean Granier. Piaf conquistara a Rive Gauche e iria conquistar muito mais! Sua meta agora era o ABC, o music hall parisiense de maior prestígio e ela conseguiu atingir esse objetivo, graças a Raymond Asso. O sucesso aumentou a venda de seus discos e diversificou sua agenda: gravações, apresentações nos palcos parisienses, participações em programas de rádio, turnês pelo interior e pela Bélgica, além do cinema, onde apareceu em "La garçonne". Mas, era preciso manter o andamento. Naquela época, discos e apresentações em rádio não eram o suficiente. Era no palco, cantando sem microfone, que se ganhava e conservava a aprovação do público.
Asso continuava na guerra e Edith se instalou, com Meurisse, no número 10 da Rua Anatole de la Forge, seu primeiro apartamento, pois, até agora, morara em hotéis.
O grupo era contratado da Pathé, que resolveu investir nele e ao mesmo tempo relançar a carreira de Edith, naquele momento em declínio. Juntos gravaram "Dans les prisons de Nantes", "Le roi a fait battre tambour" e "Le trois cloches", que fez sucesso em toda a França, vendendo milhares de discos. Ela então convidou os "Compagnons" para acompanhá-la em sua primeira turnê americana, no ano seguinte. Em outubro de 1946 Edith gravou, pela Pathé, "Je m'en fous pas mal", "Mariage", "Un refrain courait dans la rue" e um dos seus maiores sucessos mundiais, a inesquecível "La vie en rose", assinada por ela e Louiguy. Marianne Michel fora a primeira a interpretar a canção, que se tornou um sucesso retumbante, na voz de Piaf. A turnê pelos EUA não foi bem-sucedida. Sucesso na França, o estilo melodramático de Piaf não agradou aos americanos que não prestigiaram suas primeiras apresentações, no cabaré PlayHouse, em NY. Desanimada, ela chegou a pensar em retornar à Europa, mas, mudou de idéia, quando um importante jornal novaiorquino fez referências altamente elogiosas ao seu desempenho. Além do mais, sua derrota, nos EUA, seria considerada uma derrota também da França. Edith decidiu ficar, disposta a conquistar a simpatia da platéia americana. Contratada por uma semana pelo Versailles, um cabaré elegante de Manhattan, ela finalmente conseguiu a rendição do público ao interpretar "Milord", "à l'américaine", como dizia. Celebridades foram assisti-la: Jean Sablon, Marlene Dietrich, Charles Boyer, Henry Fonda, Orson Welles, Judy Garland, Bette Davis, Barbara Stanwick... uma lista infindável. Sua temporada no Versailles foi prolongada: de uma semana, para quatro meses. Edith Piaf acabara de realizar um sonho: tornar-se uma estrela reconhecida e aplaudida dos dois lados do Atlântico! Ela voltou muitas vezes aos EUA para outros concertos de sucesso. Foi em New York que Piaf conheceu Marlene Dietrich, uma amizade que durou toda a sua vida, e Marcel Cerdan, o pugilista, por quem se apaixonou. Perante o público, ela procurava manter o romance apenas na esfera da "grande amizade".
Para Antoine, Edith roubava Marcel do convívio da família, residente em Casablanca, África. As desavenças logo seriam exploradas pelo sensacionalista "France-Dimanche": "Piaf dá azar a Cerdan", numa referência a uma derrota sofrida por Cerdan e à constante presença da cantora na vida do lutador. Mas, "a profissão e a paixão pela canção faziam valer seus direitos e o escândalo não alterou o crescente brilho daquela que Jean Cocteau chamava de Madame Piaf. Pelo contrário. Todo o público tinha para Edith os olhos de Marcel. Ele a achava formidável. O público achava ambos formidáveis: o gentil e soberbo campeão, arrancado pela glória do seu Marrocos natal e a alegre e comovente cantora, tirada da rua pelo milagre de sua voz incomparável. O que sua relação tinha de ilegal, o fervor popular legitimou."(5) Marcel era um homem de maneiras simples, mas, emocionalmente estável e proporcionava a Edith uma segurança que ela jamais encontrara. Em 14 de outubro de 1948, pela primeira vez, uma canção de Piaf estava nas paradas de sucesso da Inglaterra: era "Take to your heart again", adaptação de Frank Eyton para "La vie en rose". Ela parecia afinal ter encontrado a felicidade! A Marcel Cerdan dedicou um de seus mais belos clássicos: "L'hynne à l'amour", canção escrita em parceria com a compositora francesa Marguerite Monnot. Apresentada pela primeira vez no Versailles, "Hino ao amor" possui algo de premonitório: " Si un jour, la vie t'arrache à moi, Si tu meurs, que tu sois loin de moi Peu m'importe, si tu m'aimes, Car moi, je mourrai aussi...."
"Se um dia, a vida te arrancar de mim, Se morreres, se ficares longe de mim Que me importa, se me amas, Porque eu morrerei também."...
O infortúnio acompanhava Piaf... e na vida, aconteceu diferente do final da canção: "Deus reúne aqueles que se amam"... Em outubro de 1949, ela estava em New York. Marcel iria encontrá-la, após um série de lutas em benefício de pugilistas inválidos. Sozinha e saudosa, ela pediu que ele tomasse um avião, em vez de um navio que demoraria uma semana. Marcel argumentou...ela insistiu... Esta foi a última vez que se falaram. O avião, um Constellation, caiu nos Açores. Edith recebeu a notícia poucas horas antes de uma apresentação, no Versailles. Subindo ao palco, ela calou os aplausos com um gesto e repetiu para a platéia o que já dissera aos amigos: "Hoje à noite, canto para Marcel Cerdan, em sua memória, unicamente para ele". Ao final da quinta música, Piaf desmaiou. Os jornais do dia seguinte trouxeram de volta a dor da realidade: "Eu o matei", repetia ela... Edith Piaf não pôde comparecer nem no dia seguinte, nem nos três dias posteriores ao palco do Versailles. À insuportável dor da perda, juntou-se uma intensa dor física, provocada pelo reumatismo, que se manifestava pela primeira vez, e exacerbada por uma reação orgânica à brutalidade do choque que sofrera. Incapacitados de remover a causa, aos médicos restou a alternativa de combater os efeitos. Prescreveram morfina, o mais poderoso calmante disponível na época. "É mister sobretudo lembramos que, se a lenda de uma Piaf drogada e parecida com um camafeu encontra aqui a sua origem, isso se deu a princípio por confusão entre toxicomania e prescrição médica. Depois, por ignorância: com a repetição dos sintomas, o uso medicamentoso transformar-se-ia em abuso." (6) Piaf nunca se recuperou dessa perda. Cerdan foi seu grande amor... Durante algum tempo refugiou-se na esperança de conseguir fazer contato com Marcel - participava de sessões espíritas, ficando à mercê de pessoas inescrupulosas que queriam explorá-la financeiramente. Atitudes intempestivas, por vezes radicais, revelavam o turbilhão que lhe ia na alma.
(4) (5) (6) "Piaf Biografia" - Pierre Duclos e Georges Marin – Ed. Civilização Brasileira |
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Música: "Hymne à l'amour" (M.Monnot e E.Piaf)
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