Bibi  Ferreira no Parque Mayer

 

De 1956 a 1960, Bibi Ferreira esteve cerca de 5 anos a representar e a encenar em Portugal, nos teatros do Parque Mayer, em Lisboa.    

     Como actriz estreou-se no Teatro Variedades na revista “Há Horas Felizes”, como primeira figura de cartaz, ao lado de Vasco Santana. Nessa produção faziam ainda parte do elenco, entre outros, Costinha, Raul Solnado, Carlos Coelho, Rui de Carvalho e Cármen Mendes. Actuou depois no Teatro Maria Vitória. Foi sempre uma das primeiras figuras nas revistas à portuguesa em que participou. Integrada na Companhia da Empresa de Eugénio Salvador e Rui Martins, contracenou com os principais actores portugueses dessa altura. Dos elencos de que fez parte destacam-se António Silva, Eugénio Salvador, Barroso Lopes, Humberto Madeira, Teresa Gomes e a actriz - fadista Anita Guerreiro.

     Participou no Teatro Maria Vitória nas seguintes revistas:

      CURVAS PERIGOSAS  - 1957

      POR  CAUSA  DELAS…- 1958

      ENCOSTA A CABECINHA E CHORA…- 1959

      TACO  A  TACO  - 1960

      Os autores dos textos das revistas foram Amadeu do Vale, Rui Martins, Rui Andrade, Aníbal Nazaré, Eugénio Salvador e Paulo da Fonseca.

      As músicas tiveram como autores Jaime Mendes, Carlos Dias, Tavares Belo e Fernando Carvalho.

      Eugénio Salvador, em entrevista concedida e publicada no jornal português “Diário Popular” de 27 de Setembro de 1957, a propósito da participação de Bibi na revista “Curvas Perigosas”, dizia: “(…) a Bibi Ferreira, uma extraordinária actriz, com a qual até dá gosto contracenar;(…)”

       E a crítica teatral era extremamente favorável. Fernando Ávila, na análise que fez  a essa revista,[1] referia-se às actuações de Bibi nos seguintes termos:

       “Tudo aquilo e o mais que será ocioso recordar, constitui um espectáculo de inegável categoria que pode estar grande, mas é, afinal tão perfeito entretenimento para a vista e para o ouvido que só se percebeu o seu tamanho quando, terminado, se consultou o relógio e se contaram os minutos. Até aí ninguém dera por mal empregado o seu tempo.

       A grande achega para o êxito foi, sem dúvida, Bibi Ferreira. A vedeta brasileira desdobrou-se nalgumas oito ou nove intervenções e, em todas elas, deixou largamente documentada a versatilidade do seu talento, como actriz, como cantora ( que prodígio, pois não tem voz!), como bailarina, enfim, uma gama de recursos que chega e sobeja para em cada intervenção, ter um apontamento diferente e brilhante.”

       No ano seguinte a estreia da revista “Por Causa Delas” foi também alvo de apreciação por outro crítico, assinando com as referências A. F., que sobre Bibi Ferreira referiu-se do seguinte modo:

       “À cabeça do cartaz, Bibi Ferreira, duzentos por cento artista, com três, actuações extraordinárias e várias outras composições de valor. Mas a sua aparição em Sim ou Não, com o admirável truque na escada, e o colóquio com o público, bastaram para nos relembrar o seu estofo dramático. Maior é, porém, a prova, quando, em Mãe, consegue impor, sem ridículo, numa revista, a história lamecha dos meninos nos berços ( reparar bem, na evocação da dança clássica, a leveza dos passos ); o tipo carioca, em travesti, é fácil e o parisianismo do “duche” um atestado de dedicação ao teatro; as figuras femininas do quadro Eu quero um homem, com recorde de caricaturas perfeitas. Bravo seu Procópio…de saias!”

        Como se vê por estes breves apontamentos Bibi Ferreira brilhou também em Portugal, embora também tenha actuado no Teatro Avenida, representou essencialmente no Teatro Maria Vitória, no Parque Mayer que actualmente se encontra degradado, mas que espera com persistência e esperança um bom futuro. Continua aberto ao público, através do Teatro Maria Vitória, o único a funcionar. Foi o primeiro, inaugurado em 1922, e será o último. Ali se representa com grande êxito a revista “Arre Poter Que É Demais”, graças à persistência do grande empresário teatral Hélder Freire Costa.

       Mas Bibi Ferreira também está ligada como encenadora a outro teatro do Parque – o “Variedades”, onde se tinha estreado como actriz. Ali encenou duas peças, uma em 1957 e outra em 1958. No primeiro ano foi à cena a peça “A Raposa e as Uvas” de Guilherme Figueiredo. Na interpretação destacava-se o seu pai, o grande Procópio, e ainda os actores Ambrósio Fregolente, Licínio Sena, Paulo Gonçalves, Teresinha Viana e Hamilta Rodrigues.

         No ano seguinte foi a vez da peça “O Avarento” de Moliére com a participação no elenco também de seu pai e ainda dos actores Paulo Gonçalves, Teresinha Viana, Paulo Renato, Emílio Correia, Henrique Santos, A. Fregolente, entre outros. Nesse mesmo ano e no mesmo teatro Procópio encenou a peça “Deus lhe Pague” de Joracy Camargo com a participação de Emílio Correia, Teresinha Viana, Hamilton Rodrigues, Paulo Renato e o próprio Procópio.

Fevereiro de 2005

Jorge  Trigo

Mestre em História Regional e Local

Investigador de Temas do Espectáculo

 

[1] In jornal “Diário Popular” de 28 de Setembro de 1957, págs. 2 e 3.

 


 


                 

 

 

                  

                É preciso salvar o Parque Mayer, apela Bibi Ferreira

 

 

No próximo dia 17 de Janeiro, pelas 18h30m, o Teatro Maria Vitória será palco de um espectáculo para assinalar o lançamento do 3º volume da obra “Parque Mayer”, da autoria de Jorge Trigo e Luciano Reis, há muito residentes no concelho de Sintra e nele desenvolvendo variadas acções culturais e associativas.

Será lida uma carta, a inserir no 4º e último volume, enviada do Rio de Janeiro para os autores do livro, em 2005, pela actriz brasileira Bibi Ferreira, a diva do Teatro Brasileiro, agraciada com o prémio cultural “UNESCO 2004”, pelas suas importantes contribuições na área dos espectáculos teatrais no Brasil.

Nessa carta Bibi começa por escrever que é preciso “salvar” o Parque Mayer. Depois de recordar todo o ambiente vivido no período que por lá passou termina dizendo que “o Teatro Português foi para mim uma aula e lá deixei nas lembranças do Parque Mayer os meus maiores amigos! Hoje fiquei aqui sem tudo isto. O meu respeito e a minha saudade”.

Para Jorge Trigo, um dos autores do livro, “a colaboração da grande actriz Bibi Ferreira, considerada no Brasil em 2006 Personalidade do Ano em Artes Cénicas e por isso agraciada com uma Comenda da Ordem de Mérito, é uma grande honra que nos estimula a continuar neste trabalho, difícil, onde é preciso caminhar em frente, enfrentando por vezes as mais inesperadas dificuldades, dando o nosso modesto contributo para o registo da memória de um glorioso passado que não pode ser esquecido”.

Entre 1957 e 1959 Bibi Ferreira actuou em várias produções teatrais no Parque Mayer, sendo de destacar “Há horas felizes”, onde contracenou com o grande actor Vasco Santana e noutras peças com actores como António Silva e Irene Isidro.

Com entrada livre, a sessão será apresentada pelo jornalista Luís Miguel Baptista, terá a participação da actriz Maria Dulce e da fadista Filipa Cardoso, atracção nacional da Revista “ Já Viram Isto?!...”, que será acompanhada à guitarra e viola.

O livro, da Editora Sete Caminhos, tem o prefácio do empresário teatral Hélder Freire Costa e será apresentado pelo jornalista e destacado homem da Rádio Portuguesa Fernando Correia. Ao longo de cerca de 200 páginas, profusamente ilustradas, o 3º Volume do livro “Parque Mayer” percorre os principais acontecimentos ocorridos no Parque entre 1974 e 1994.

Conforme é referido pelos autores, “no período em apreço surgiram no Parque Mayer novos valores que enriqueceram o Teatro Português. Revelaram-se actores e autores. Ficou-se à espera de um novo Parque, com melhores condições de trabalho para os seus protagonistas, e com novas ofertas culturais para o público. Este durante muito tempo continuou a pautar pela sua constante presença, embora nos últimos tempos se tivesse notado um decréscimo gradual, face à concorrência com a televisão, o cinema e outras formas de ocupação dos tempos livres.

Os Teatros do Parque a funcionarem em pleno tinham os dias contados, e começaram a fechar. Para trás ficaram as recordações das grandes noites e matinés, o brilho das luzes e as palmas batidas entusiasticamente. O período aúreo estava a terminar, restava agora manter a chama viva, sempre na esperança de um Novo Parque Mayer.”

 

Reproduzido de  http://www.alagamares.net/artigo269.html -  2007

 

 
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