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por
Bernardo Schmidt

Meus caros,
esta é mais uma daquelas gravações inestimáveis em LP
que sumiram das lojas há décadas e que provavelmente não
chegarão jamais ao cd por conta da estreiteza cultural e
artística daqueles que detém os direitos sobre essas
pérolas.
Estou falando da gravação original de MY FAIR
LADY com Paulo Autran e Bibi Ferreira, de 1962. Mas
antes, um pouco de história, porque não adianta nada ter
a gravação mas não ter idéia do que se está ouvindo.
George Bernard
Shaw
Em 1938, o
produtor romeno Gabriel Pascal levou o
Pigmalião, de
Bernard Shaw ao cinema. O grande mestre irlandês, do
alto de seus 82 anos, ficou tão feliz por ver essa obra
levada às telas pela primeira vez em seu idioma original
(as duas versões anteriores eram em holandês e alemão)
que não apenas resolveu escrever os diálogos, como ainda
escolheu a atriz que faria a protagonista Eliza
Doolittle (Wendy Hiller) e escreveu a cena da festa
especialmente para o filme. A direção do longa e o papel
de Henry Higgins ficaram a cargo do saudoso Leslie
Howard.
Em 1956, bebendo
na fonte desse roteiro, os compositores Alan Jay Lerner
e Frederick Lowe criaram o musical
My Fair Lady,
estreado nesse ano em New York. A dupla de
protagonistas, que levaria o espetáculo também para
Londres dois anos depois, era formada por Rex Harrison
(Henry Higgins) e Julie Andrews no papel de Eliza.

Em 1962, cientes
do sucesso extraordinário da peça na Broadway, os
produtores Oscar Ornstein e Victor Berbara resolveram
trazer a peça ao Brasil. Victor traduziu as letras de
Alan Lerner e o célebre escritor e jornalista Henrique
Pongetti traduziu o libreto, também de Lerner. Para a
dupla protagonista escalaram Bibi e Paulo Autran. Na
coadjuvância, atores experientes e competentes como
Jayme Costa - velho colega de Procópio desde os anos 20
e ator da infância de Paulo e Bibi - como o pai de
Eliza; Suzana Negri, veterana das companhias de Itália
Fausta, Dulcina, Procópio e até a de Paulo e Tônia, em
My Fair Lady
interpretou a mãe de Higgins; e Estellita Bell e Elza
Gomes - ambas da antiga companhia de Procópio - nos
papéis de Mrs. Pearce e Mrs. Hopkins.

Outros não eram
tão veteranos mas já se firmavam como excelentes
profissionais, como Sérgio Viotti, no papel de
Pickering; Francisco Dantas, no mesmo papel, só que na
montagem paulista; Sérgio de Oliveira, que era diretor
de cena, mas acabou gravando o papel de Pickering no
disco, provavelmente por impedimento dos dois titulares
do personagem; Suzy Arruda, que interpretou Mrs.
Einsford-Hill no lugar de Estellita, na montagem
paulista, e assim por diante.
Paulo teve um
horrendo acidente automobilístico alguns meses depois da
estréia de My Fair Lady,
sendo substituído, durante grande parte da temporada,
pelo ator Edson França. Ficou preso à uma cama por quase
um ano. Contaria, tempos depois, que durante sua
internação, ele leu a obra completa de Guimarães Rosa.
Recuperado, voltou à peça e a representou até seu
vitorioso encerramento, em 65.
Somente em 1964
surgiu o filme baseado na peça, produzido por Jack
Warner com direção de George Cukor. No papel de Eliza, a
Warner trocou Andrews por Audrey Hepburn, por considerar
que Hepburn traria um retorno financeiro maior. Foi um
equívoco estúpido e grosseiro com Andrews, que acabou
contratada por Walt Disney para estrelar em
Mary Poppins.
Conclusão: Andrews ganhou o oscar por uma bobagem como
Mary Poppins e
Hepburn não foi sequer indicada pela magnífica versão
cinematográfica de My
Fair Lady, sem falar que acabou dublada, em seus
números musicais, pela cantora Marni Nixon.

My Fair Lady,
mesmo tendo sua raiz no hemisfério norte, foi o primeiro
grande musical brasileiro. Nunca se havia visto algo tão
extraordinário fora dos domínios de Carlos Machado e
Walter Pinto. Um acontecimento teatral único e
inesquecível, também responsável por impulsionar a
carreira de Bibi na direção inarredável e definitiva da
música.
Só lamento que a música
Show me não tenha entrado na edição final do LP.
Creio que na montagem brasileira ela foi referida como
A rua onde ela mora
(reprise), pois Eliza a canta todo o tempo
confrontando o pretendente Freddy. É uma pena. Gostaria
muito de ouvir Bibi cantando essa música. E me parece
ser realmente o único solo do espetáculo que ficou de
fora do LP.

Outro ponto que
merece destaque é Jayme Costa, dono de um belo e
poderoso barítono, desfiando com absoluta tranqüilidade
a famosa Vou me casar
em matrimônio (Get me to the church on time), em
comparação com Paulo Autran, suando para atravessar
seguramente as estrofes reservadas a Rex Harrison. No
fim todos dão um show. Bibi conta que por diversas vezes
viu Procópio nos bastidores, assistindo a peça. Um belo
dia, orgulhosíssima, saiu do palco e lhe disse: "Que
lindo, pai, que você venha me assistir assim, todos os
dias. Espero que esteja gostando da minha performance".
Procópio respondeu: "Filha, você e o Paulo estão muito
bem, mas na verdade eu venho aqui para assistir o Jayme
Costa".
Bibi e Marília Pêra, na festa de encerramento de My Fair
Lady
No corpo de baile do espetáculo havia uma novata. Fez
dois papéis mínimos, sempre de criadas, e participava
ativamente dos números de dança. Embora a moça tivesse
sangue teatral por parte de pai e mãe - Pêra e Marzullo
- foi escalada certamente por indicação de seu pai, o
ator Manuel Pêra, colega de Procópio e Dulcina. O nome
de sua filha: Marília Pêra.

Interessante lembrar também que
não havia a liberalidade de hoje na montagem
internacional de musicais que faziam sucesso na
Broadway ou no West End londrino. Paulo costumava falar
sobre o "álbum de fotos" que receberam dos produtores
estrangeiros, contendo o espetáculo inteiro fotografado,
a cada segundo, da primeira à última cena, para ser
utilizado de forma idêntica pelos atores brasileiros. E
assim o fizeram, por contrato.
Enfim, deleitem-se. Esse LP está no silêncio há tempo
demais. É mais do que hora de trazê-lo ao lume
novamente. Façamos de conta que hoje comemoramos o
aniversário de 48 anos de "My Fair Lady". E não temos
maneira melhor de comemorar que não seja ouvindo as
vozes de Paulo, Bibi, Jayme, Sérgio e todos os outros,
com a saudade daqueles que se foram, e a alegria de
ainda termos entre nós artistas como Bibi Ferreira.
Para fazer o download da gravação original de My Fair
Lady, basta clicar
AQUI.
Abaixo, o texto da contra-capa do LP e a lista de
músicas.
______________________________________
Existem três coisas
importantes no "carnet" de todo turista que visita New
York pela primeira vez: ver a Estátua da Liberdade,
subir ao Empire State Building e, já há vários anos,
assistir MY FAIR LADY. Durante mais de seis anos
consecutivos foi necessário, às vezes, esperar oito
meses para conseguir entradas que permitissem uma boa
localização no Mark Hellinger Theater, local das
representações de MY FAIR LADY.
Jayme,
Bibi e Paulo

E o que é MY FAIR
LADY? Adaptada de "Pygmalion", a famosa obra de Bernard
Shaw, MY FAIR LADY é a peça teatral que quebrou todos os
recordes de bilheteria, atingindo mais de dez milhões de
dólares nos seus primeiros três anos de exibição, e daí
subindo sempre e sempre, cada vez mais. Com texto de
Alan Jay Lerner e música de Frederick Lowe, MY FAIR LADY
leva as plateías num crescendo de alegria e satisfação
graças ao deslumbramento provocado por todas as suas
cenas.
No Brasil, graças ao
arrojo de seus produtores, Oscar Ornstein e Victor
Berbara, MY FAIR LADY - ou
Minha Querida Lady,
como aqui se chamou - vem tendo o maior sucesso, tanto
de crítica quanto por parte do público, supremo juiz de
todas as realizações artísticas. Esse público não tem
poupado aplausos entusiásticos não só à interpretação de
Bibi Ferreira, Paulo Autran e Jayme Costa, como também a
todo o resto do elenco, composto por mais de 100
figuras, entre artistas e técnicos.
Eis aqui como se
expressaram alguns de nossos críticos sobre
Minha Querida Lady:
"Ide
ver MY FAIR LADY, porque sairás de lá com o coração mais
jovem, mais alegre, mais otimista".
Marcos André, O Globo.
"My Fair Lady é
um belo, um magnífico espetáculo!"
Luíza Barreto Leite,
Jornal do Comércio.
"MY FAIR LADY é o
grande lançamento do ano, sendo também, a primeira vez
que o espectador carioca assiste a um musical de grande
categoria!" Carlos
Peres, Tribuna da Imprensa.
Edson
França, Bibi e Jayme
"Minha Querida Lady
é desses espetáculos que enchem os olhos, alegram o
coração, divertem e encantam!"
Eneida, Diário de
Notícias.
"As platéias
aplaudem de pé o sucesso de MY FAIR LADY - um desafio
que o artista brasileiro venceu!"
Ibrahim Sued, O Globo.
"Pela primeira vez,
desde que vou a teatro no Brasil, vejo um espetáculo
musicado com ritmo e tempo sem quebras de interesse".
Paulo Francis, Última
Hora.
"Em certos quadros
de MY FAIR LADY o público começa a bater palmas e os
artistas esperam que eles terminem para poderem
representar!" Haroldo
Damásio, Jornal dos Sports.
"My fair lady" é
inesquecível!"Jacinto
de Thormes Última H.
"Minha Querida Lady
é uma peça musical para ver e rever!"
Accioly Netto, O
Cruzeiro.
Sérgio Viotti, Sérgio de Oliveira (creio),
substituindo Jayme Costa, Bibi e Paulo
A gravação de todos
os números musicais de
Minha Querida Lady, ora apresentada ao nosso
público, nada fica a dever a todas as outras gravações
da mesma obra feitas nos diversos países do mundo em que
ela já se apresentou. Interpretada pelos mesmos artistas
que a consagraram no palco, tornará, por certo, ainda
mais familiares suas canções que, dentro em breve,
estarão na boca de todo nosso público, constituindo-se
num dos mais autênticos sucessos em disco dos últimos
tempos.
Bibi
Ferreira e Paulo Autran em MINHA QUERIDA LADY (My Fair
Lady)
Adaptada da obra
"Pigmalião", de Bernard Shaw
Libreto de Alan Jay
Lerner
Músicas de Frederick
Lowe
Tradução do texto -
Henrique Pongetti
Tradução das Letras
- Victor Berbara
Orquestrações de
Robert Russel Bennet e Phil Lang
Maestro - Alexandre
Gnatalli
1 - Abertura (Orquestra
2
- Por que não podem os ingleses aprender? (Paulo
Autran)
3 - Tão feliz (Bibi Ferreira e Côro)
4 - Bocadinho Só (Jayme Costa, Telcy Peres, Alexandre
Belucci e Côro)
5 - Sou um homem bem comum (Paulo Autran)
6 - Já verás, mestre Higgins (Bibi Ferreira)
7 - O rei de Roma ruma a Madrid (Paulo Autran, Bibi
Ferreira e Sérgio de Oliveira)
8 - Eu dançaria assim (Bibi Ferreira, Lísia Demôro,
Therezinha Mendes e Estellita Bell)
9 - Gavota de Ascot (Côro)
10 - A rua onde ela mora (Hélio Paiva)
11 - Valsa da embaixada (Orquestra)
12 - Vitória (Paulo Autran, Sérgio de Oliveira,
Estellita Bell e Côro)
13 - Vou me casar em matrimônio (Jayme Costa e Côro)
14 - Sem você (Bibi Ferreira e Paulo Autran)
15 - Ao seu olhar me acostumei (Paulo Autran)
16 - Final (Orquestra)
Reprodução autorizada da
página do Blog Patativa, de Bernardo Schmidt
http://bernardoschmidt.blogspot.com/
O competente trabalho de
pesquisa e excelente texto de Bernardo Schmidt fazem do
blog um ponto de visita imperdível!
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TEMPORADA DE MY FAIR LADY_1963
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