|

Bibi, na varanda
de seu apartamento, que tem vista para o Pão de Açúcar: “Gosto
de tudo que se torna popular”, diz ela
|
|
Filha do ator Procópio
Ferreira e da bailarina e cantora espanhola Aída Izquierdo, a carioca
Bibi Ferreira, 83 anos, contabiliza 54 peças e shows como atriz e
intérprete e 61 como diretora. Entre troféus, medalhas e placas, soma 87
prêmios, entre eles dois Molière de melhor atriz.
Uma imponente
biblioteca chama atenção no amplo apartamento de Bibi Ferreira, no bairro do
Flamengo, no Rio. São 4.500 títulos, organizados cuidadosamente por temas.
Na sala, um piano de cauda antigo alegra o ambiente, que tem uma das vistas
mais encantadoras da cidade: o Pão de Açúcar. Pelos cômodos, circulam, um
tanto desconfiados, quatro gatos siameses de cor acinzentada: Linda, Sansão,
She e Filha da Mãe, que ganhou esse nome incomum por ser a mais
temperamental. Os bichos de estimação, assim como a música e a literatura,
são os grandes companheiros desta atriz, cantora e diretora, senhora de 83
anos e múltiplos talentos, que em 2005 brilhou com o espetáculo Bibi in
Concert III POP, visto por mais de 30 mil pessoas. É o mais recente sucesso
dessa grande dama do teatro brasileiro, cuja trajetória honra o legado do
pai, o lendário Procópio Ferreira.
No espetáculo, Bibi canta durante uma hora e vinte, de pé, em cima de um
salto 15 – que ela usa até em casa, para disfarçar seu 1,57 metro de altura.
A memória, tão boa quanto na juventude, lhe permite decorar todo o
repertório, que vai de Edith Piaf a Chico Buarque. “Ela é o exemplo mais
acabado entre nós de um gênio, é uma instituição cultural”, elogia Juca de
Oliveira, que teve quatro peças de sua autoria dirigidas por ela. “Difícil
encontrar alguém tão dotado, com um talento enorme que se multiplica em
várias direções.” Ele tem razão. Em 65 anos de carreira, Bibi fez de tudo.
Virou estrela aos 18 anos, contracenando com o pai. Três anos depois, já
comandava sua companhia de teatro e estreava no cinema como protagonista.
Com menos de 25, começou a se destacar como diretora – e hoje tem no
currículo espetáculos tão diversos quanto a ópera Carmen, de Bizet, e shows
de Maria Bethânia.
Nos anos 50, Bibi reinventou o teatro de revista no Brasil e na década
seguinte fez sucesso ao apresentar programas na tevê e dar início aos
grandes musicais.
|
|

Estrelou Gota
D’Água, de Paulo Pontes e Chico Buarque, e arrastou multidões aos teatros
cantando Edith Piaf e Amália Rodrigues.
“Bibi é uma
atriz de recursos absolutos, a melhor que temos no País”, reforça Juca.
“Além de ser
uma excepcional intérprete: cantora popular absolutamente fora dos padrões,
que opera muito bem no canto lírico.”
|
|
A
versatilidade da artista que canta, dança, representa e dirige reflete-se em
sua vida, seus gostos. Hoje, repousa na cabeceira de Bibi – ler antes de
dormir é um hábito – o primeiro volume do clássico Os Thibault, de Roger
Martin du Gard. Mas ela é capaz de devorar com igual interesse best-sellers
da atualidade: os livros de Dan Brown, autor de O Código Da Vinci, e as
aventuras de Harry Potter.
“Gosto de tudo que se torna popular”, explica. Como ela própria. Fora da
tevê há 25 anos, nunca deixou de sentir na rua o carinho do público, como se
fosse estrela da novela das oito. Repetiu o exemplo do pai e foi enredo de
escola de samba. Desfilou na Viradouro em 2003, ovacionada nas
arquibancadas, que gritavam seu nome em coro. Recebe e-mails do mundo todo e
tem até comunidade no Orkut, com centenas de associados. Embora ache a
internet fascinante, não deixou-se seduzir. Prefere os meios convencionais
de comunicação: o telefone, as cartas, o telegrama – seu favorito. A
preferência tem razão de ser. Econômica nas conversas, Bibi é sucinta também
nas palavras escritas. Escrever não é seu forte, prefere ler, tocar piano
sem platéia, ou assistir a filmes comendo jujuba, acompanhada de seus gatos.
Ter prazeres tão individuais, porém, não significa que Bibi seja uma mulher
solitária. Faz questão de ter a única filha, Teresa Cristina, 50 anos, os
dois netos e os dois bisnetos sempre por perto. São tradicionais os jantares
de domingo, nos quais reúne também os amigos. Contudo, embora defina-se como
uma “atleta da palavra”, não gosta de conversar. Longe da ribalta, prefere
calar. “Talvez eu não seja curiosa o suficiente para saber o que as pessoas
querem me dizer”, admite. De um companheiro, assegura não sentir falta.
Depois de dois casamentos e quatro “ligações amorosas”, mostra-se conformada
com a previsão pessimista de que não viverá outro amor. Futuro traçado pelos
homens e vislumbrado aos 78 anos. Foi nessa época que Bibi percebeu que eles
já não a tocavam mais, já não a encaravam da mesma maneira e desapareceram.
“Percebi que a velhice tinha chegado por causa dos homens.”
Por um lado, sentiu alívio. De se ver livre do ciúme e da insegurança
exagerados que a dominavam quando se apaixonava. “Por minha culpa, nunca fui
feliz no amor. Bota do meu lado um camarada de quem gosto que fico burra,
cretina, ciumenta, insuportável.” Mas sofreu com o baque de conceber a vida
sem sexo, mesmo admitindo que hoje não teria mais coragem de se desnudar.
Para uma mulher da década de 20, ela fala do assunto com surpreendente
desenvoltura. “Pensar que ninguém mais vai me dar um beijo na boca, me
segurar num abraço e me olhar nos olhos... Embora não seja mais importante
que comida, sexo é importante sim.” Bibi não se deixou abater. Reagiu
investindo toda a energia no trabalho.
|
|

Uma energia
pouco usual para quem tem 83 anos. “Sou uma pessoa fora do comum. Com a
minha idade, fazer tudo que eu faço nesse show não é normal”, afirma.
|
|
Parar não faz
parte dos planos enquanto a saúde continuar jogando a favor. Mesmo com seu
nome gravado na história da dramaturgia brasileira, Bibi ainda depende do
trabalho para sobreviver. Com orgulho. No próximo dia 18, o ritual se
repetirá: uma banana bem mastigada duas horas antes e manteiga derretida
dentro do café vinte segundos antes de respirar fundo e subir ao palco,
montado no Jardim Botânico de São Paulo, onde vai cantar Piaf acompanhada da
Orquestra Sinfônica paulista. Em janeiro, volta ao Teatro Frei Caneca para
mais uma temporada de Bibi III. Em março, lança um CD de tangos com o
maestro Miguel Proença. E, em 2007, quer voltar a encenar uma comédia.
A cristaleira
abarrotada de prêmios, meio escondida na penumbra do escritório, um pouco
desorganizada em contraste com a biblioteca, dá a perfeita noção de que
prêmios não são o motivo pelo qual Bibi continua cheia de planos. Seu maior
combustível é, na verdade, o aplauso. |
Publicado pela revista Isto É Gente - Edição Especial de 19 de
dezembro de 2005
http://www.istoegente.com.br
|