|
Eterna
aventureira
Daniel
Schenker Wajnberg

"Hello,
Dolly", "My fair lady", "Piaf, a vida de uma
estrela da canção", "Bibi in concert I e II" e,
não se pode esquecer, o marco como a Joana de "Gota D'água".
O público brasileiro conhece Bibi Ferreira de espetáculos
grandiosos que marcaram definitivamente a cena carioca.
Completando 60 anos de carreira (sua estréia: interpretando
Mirandolina, de Goldoni, em 1941, no Teatro Serrador), a atriz
chega com mais um projeto.
Trata-se
de "Bibi vive Amália Rodrigues", espetáculo dirigido
e roteirizado por Tiago Torres da Silva e que conta com a
contribuição preciosa do músico Carlos Gonçalves, músico de
Amália durante mais de 30 anos e um dos mais expressivos
guitarristas portugueses da atualidade.
Em
entrevista ao BIS, Bibi Ferreira fala sobre o espetáculo (que
estréia no próximo dia 1 no novíssimo Ribalta, na Barra) e
algumas curiosidades relativas à Amália Rodrigues, como o fato
de quase sempre começar seus espetáculos cantando músicas
brasileiras (presentes em "Bibi vive Amália" - casos
de "Saudade de Itapoã" e "Lua luar").
BIS
- A senhora teve contato pessoal com Amália Rodrigues?
BIBI
FERREIRA - Não. Conhecemos uma pessoa em comum - Tiago
Torres da Silva (diretor de "Bibi vive Amália
Rodrigues") - que a acompanhava nos espetáculos nos últimos
10 anos. Mas Amália declarou que eu seria a pessoa mais
adequada para fazê-la no palco. Pensamos em homenageá-la mas
ela faleceu. Depois o projeto foi retomado.
Como
a senhora conheceu Tiago Torres da Silva?
Fui
convidada para fazer uma revista em Portugal há quatro anos e
Tiago seria o autor de muitos dos textos. Ele acabou vindo ao
Brasil, estreitamos relação, mas, Amália faleceu no ano
passado. Apresentei "Piaf" em Lisboa no último Natal
e o assunto de homenagear Amália ressurgiu. Praticamente
marcamos as datas.
Quais
são as dificuldades que um espetáculo como este impõe?
É
muito difícil estudar a prosódia portuguesa - é sílaba por sílaba.
Para cantar é preciso memória, prosódia, entrar no tempo dos
músicos, projetar a voz. É um trabalho de artesão. Na música
você arrisca cada nota - e, como são milhares, o risco é
muito grande.
A
senhora vê semelhanças entre "Bibi vive Amália
Rodrigues" e "Piaf, a vida de uma estrela da canção"?
É
diferente porque em "Piaf" eu não falava nada. Aqui
falo em primeira pessoa como Amália Rodrigues.
Ao
completar 50 anos de carreira, a senhora apresentou "Bibi
in concert". Agora, aos 60, o espetáculo em homenagem a Amália
Rodrigues. Como está sendo completar a data com tanta
vitalidade?
Sinto-me
muito disposta. E o brilho é inexplicável. Estou com uma
vontade íntima de me projetar para uma platéia. Cantei em
Fortaleza para um público de quatro mil pessoas e me deu um
frisson, um medo. É o senso de responsabilidade, ter que
atingir pessoas que estão a cinco ou a 100 metros de você. Frank
Sinatra tinha pavor que a voz não viesse quando abrisse a boca
para cantar. Trata-se do medo do aventureiro, que é uma espécie
de herói antecipado - tem vontade de chegar lá e é essa
aventura que nos impulsiona ao centro do palco. Tenho voz
colocada, muita respiração, canto com facilidade. Estar em
cena cantando é melhor do que tudo - é uma comunhão sublime.
A
senhora tem dirigido muitos espetáculos - "Tango, bolero e
cha cha cha", "Letti e Lotte", "Qualquer
gato vira-lata tem uma vida sexual mais sadia que a nossa"
-, além da ópera "Rigoletto". Como arranja tempo
para tudo?
Em
primeiro lugar, quanto mais caro, menor é o tempo de que se
dispõe. A ópera foi muito rápida - mas os artistas estão
acostumados a este ritmo. Verdade que a abertura do
"Rigoletto", com 75 pessoas em cena, é bastante difícil,
mas, a gente resolve. Outra coisa: o ambiente da ópera é rígido.
Há pouca conversa e muito trabalho. No teatro venho tendo
contato com atores jovens, ensino e aprendo com eles. Sinto uma
maturidade muito grande, uma vontade de fazer a coisa bem feita.
E
o reencontro com Nathalia Timberg, que a senhora dirigiu na
montagem de "Senhora dos afogados"?
Nathalia
é minha amiga de 50 anos. É um ser humano muito delicado, com
caráter e educação. Sempre tratamos de incentivar uma à
outra. Depois de "Letti e Lotte" vou dirigi-la em
"Conduzindo Miss Daisy".
Atualmente
os atores parecem dar cada vez mais importância a especializações
complementares - principalmente no que se refere ao canto e à
dança. Mas a senhora é pioneira nesse aspecto, não?
Sim.
Fui pioneira na formação completa em "My fair lady".
As atrizes que participaram da montagem de "As noviças
rebeldes" têm a consciência de que é importante fazer
canto e dança. E no meu tempo toda moça estudava piano,
aprendia francês, tinha conhecimento literário. Tudo isto
facilitou quando fui fazer "My fair lady".
Tribuna
da Imprensa Online
Rio
de Janeiro, quarta-feira, 23 de maio de 2001
O fado
"Foi Deus", arquivo midi que você ouve ao fundo, foi seqüenciado por Fernando de
Brito Vintém (http://www.midiportugal.com/)
e faz parte do espetáculo "Bibi vive Amália". |