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Transformação
com bom humor Daniel
Schenker Wajnberg
Não é de
hoje que Bibi Ferreira, Jalusa Barcellos e Tania Alves se
conhecem. Atriz, diretora, cantora e produtora, presença
radiante em espetáculos como "Alô Dolly", "My
fair lady" e "O Homem de La Mancha", Bibi se
deparou com Jalusa durante os ensaios de "Gota d'água"
e assistiu Tania, pela primeira vez, em "Viva o cordão
encarnado", de Luís Mendonça. Agora as três celebram a
parceria no espetáculo "E daí, Isadora?", que estréia,
na próxima quinta-feira, no Teatro Villa-Lobos (Av. Princesa
Isabel, 440).
Celebração
que envolve muito trabalho, diga-se de passagem. Afinal, Bibi é
uma diretora prática, com noção exata da gramática cênica e
um entendimento operário do próprio ofício. "Enquanto
estou em processo de ensaios, não saio com os atores",
assume Bibi, em entrevista ao BIS. Atitude que, de maneira
alguma, deve ser entendida como antipatia e sim como zelo pelo
trabalho.
E, em relação
ao novo espetáculo, Bibi, Jalusa e Tania estão extremamente
confiantes, felizes diante da possibilidade de trazer à cena o
texto escrito em parceria pela psicanalista e escritora Eliza
Maciel e pelo autor, compositor, poeta e teatrólogo Paulo César
Feital.
Combinando
realismo com uma certa atmosfera fantástica, o texto está
centrado em Isadora, levada por uma figura misteriosa a repensar
todas as suas escolhas ao longo da vida. Não é uma comédia
rasgada, como "Detalhes tão pequenos de nós dois",
que Tania montou há dez anos ao lado de Pedro Paulo Rangel -
sua última aparição no teatro. "Não planejava esta
volta. Mas, nos próximos dois anos, ficarei envolvida com
teatro", afirma Tania Alves, que já tem planos de montar
um musical sobre a vida de Emilinha Borba.
Em "E daí,
Isadora?", Tania interpreta a personagem (ou entidade?) que
representa a transformação. "Transformações são sempre
dolorosas. Em chinês se chama 'wei-chi' - e a primeira parte da
palavra significa perigo, cuidado, e a outra, oportunidade,
mudança. Toda crise desestabiliza, mas as pessoas só vão 'cair'
se insistirem em se manter presas ao antigo. O período de
readaptação pode não ser confortável mas é o preço
que se paga por um 'upgrade'", afirma Tania Alves.
Além de
trazer Tania de volta para o teatro, "E daí,
Isadora?" marca os 25 anos de carreira de Jalusa Barcellos,
muitos deles passados ao lado de Bibi Ferreira. "Era amiga
do Paulo Pontes e através dele entrei em contato com Bibi.
Entrevistei-a muitas vezes, até que participei como atriz de 'Piaf'.
Depois fiz sua assistência em 'Meno male' e fui novamente
dirigida por ela no infantil 'O bosque do coração do
Brasil'", relembra Jalusa, que trabalhou como jornalista
antes de optar definitivamente pela carreira artística.
Houve ainda
um grande projeto que uniu-a a Bibi. "Pedi a ela para
escrever sua história. Ela aceitou, contanto que antes eu
resgatasse a trajetória de Procópio Ferreira", conta. O
resultado foi a fotobiografia "Procópio Ferreira: o mágico
da expressão". Agora, no momento em que se desencumbiu do
cargo de diretora dos teatros da Funarj, Jalusa pretende se
dedicar à biografia de Procópio, que já tem o título
garantido: "Procópio Ferreira: o atleta da palavra".
BIS -
Como é trabalhar com pessoas próximas, como Jalusa
Barcellos e Tania Alves em "E daí, Isadora?",
Nathalia Timberg em "Conduzindo Miss Daisy" e Ariclê
Perez em "Criador e criatura"?
BIBI FERREIRA
- Na verdade, uma pequena distância aproxima as pessoas.
Enquanto estou em processo de ensaios não saio com os atores
porque numa conversa de restaurante viria à tona o papo sobre o
ensaio e não teríamos, ali, os elementos adequados para
discutir. Mas coloco esta distância muito bem e os atores se
tornam meus amigos no decorrer dos ensaios. Estou com muita
esperança em relação a este espetáculo. Atualmente, acho difícil
encontrar um texto brasileiro melhor do que `E daí, Isadora?'.
BIS -A
senhora tem dirigido muitos espetáculos no atual panorama
teatral carioca e paulistano. Qual é o critério utilizado na
escolha dos projetos?
BIBI FERREIRA
- Normalmente recebo textos que não são para serem
encenados naquele exato momento. O principal é que eu entenda o
texto, caso contrário não adianta tentar realizar. Faço a
primeira leitura em casa, com um lápis na mão, e procuro
enxergar as reações da platéia.
BIS - E no
caso de uma montagem como "Criador e criatura",
centrada na relação entre Machado de Assis e Capitu, sua
personagem? No que o trabalho se diferencia das comédias?
BIBI FERREIRA
- "Criador e criatura" foi um pouco diferente.
Trata-se de sublimar a obra fértil de Machado de Assis, sem
pretensões de agrado popular. É um trabalho mais desgastante
do que os outros. Dirigi "Sete minutos", o novo espetáculo
do Antonio Fagundes, uma comédia muito leve (em cartaz no
Teatro Cultura Artística, em São Paulo), e marquei todos os
atores em apenas quatro ensaios. Coloquei-os nos seus devidos
lugares. Isto é uma libertação. No final, a peça ficou
pronta com dez dias de antecedência.
BIS - E a
senhora, presença de força na trajetória do teatro musical
brasileiro, não inseriu nenhuma música na montagem de
"Criador e criatura"...
BIBI FERREIRA
- Não podia. É um espetáculo que pertence única e
exclusivamente à palavra. Liimitei-me a um jogo cênico com a
luz.
E
DAÍ, ISADORA?
Texto
de Eliza Maciel e Paulo César Feital.
Direção
de Bibi Ferreira. Com Jalusa Barcellos e Tania Alves. Teatro
Villa-Lobos
Rio
de Janeiro, terça-feira, 10 de setembro de 2002
Jornal
Tribuna da Imprensa Online - Tribuna BIS
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