Capitu conversa com Machado no Rio

Personagem e autor estão juntos no palco, a partir de hoje, na peça 'Criador e Criatura'

MARICI SALOMÃO
Especial para o Estado

     Nélson Xavier, no papel de Machado, e Ariclê Perez, como a personagem Capitu, de "Dom Casmurro" 

 

Ela diz que a peça remete a "Seis personagens à procura de um autor", de Luigi Pirandello, pela aproximação temática da busca do personagem para encontrar seu autor. Mas, no caso em questão, a criatura de cara encontra seu criador e num embate de contornos literários tentam ambos conhecer-se sem reservas. Ariclê Perez comemora 35 anos de carreira na pele da "dissimulada" Capitu, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Escrito pela atriz em parceria com o professor de Literatura da USP, Flávio Aguiar, "Criador e Criatura" estréia hoje no teatro da Academia Brasileira de Letras do Rio (Projeto Academia Convida), onde vai fazer temporada de dois meses, antes de vir para São Paulo.

 

É um espetáculo de câmara, em que o encontro entre Machado e Capitu se dá em algum lugar da imaginação. Afinal, o palco é um território aberto", diz Ariclê, que no ano passado enveredou pelo caminho da poesia, levando à cena Cecília Meirelles. "Agora, só penso em Machado de Assis", afirma. O convite para escrever o texto partiu da amiga Edla Van Steen, que acabou não podendo assumir a parceria. Estudiosa e apaixonada pela obra de Machado, Ariclê não se arrependeu de ter aceito a empreitada. E ainda angariou parceiros amigos, como Bibi Ferreira, que dirige o "colóquio", e o ator Nélson Xavier, que faz o escritor.

Em "Criador e Criatura", Ariclê e Aguiar respeitaram o grande mistério da obra - a ambigüidade do fato de Capitu ter traído ou não Bentinho com Escobar - mas conferiram liberdade poética para definir as linhas mestras do encontro.

"Capitu quer saber por que foi criada, quer entender melhor a si mesma. Até onde é possível, faço a defesa de Capitu", atesta a atriz. O personagem Machado é um escritor esquivo, que depara com reservas sobre o próprio ciúme, sua epilepsia, sua cor (ele era mulato), a rejeição à madrasta (que era uma mulher muito humilde), seu desejo de ascensão intelectual.

"Em Dom Casmurro, o alter ego de Machado é a própria Capitu. A ambição dela, embora se trate de uma aspiração social, tem, no entanto, a mesma intensidade da ambição intelectual e espiritual de Machado. Esse é um dos motes do encontro", compara Ariclê. Mas quanto ao ciúme de Bento/Casmurro, Ariclê atribui a característica ao próprio escritor, que costumava exacerbar seu ciúme pela esposa, Carolina. A peça também tem trechos de Memorial de Aires e Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Aguiar ressalta haver em Dom Casmurro dois conflitos marcantes: o primeiro entre duas personalidades opostas - a decidida mas pobre Capitu e o tímido mas rico Bentinho - e o segundo, residindo no íntimo do narrador Bentinho, que quer convencer o leitor de que a mulher que ele amou e que o amou era uma traidora. "Eu diria que o romance de Machado tem uma vocação dramática", salienta o professor. "Além disso, aproveitamos os diálogos do romance de um escritor que foi dramaturgo e crítico teatral."

"Sobre a criação em conjunto? Só prazer. Flávio é um professor inquieto e brilhante", elogia a atriz, que já foi dirigida pelos grandes diretores de teatro, como Antunes Filho (Peer Gynt, em 1971) e Flávio Rangel (Freud - No distante país da alma, em 1985).

Sexta-feira, 14 de junho de 2002.

 

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