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Em
cartaz no Teatro Ginástico, Conduzindo Miss Daisy
diverte e emociona pelo seu texto repleto de humanidade, uma ode
à tolerância e à amizade entre seres marcados por diferenças
religiosas, sociais e culturais. Bibi Ferreira valoriza o caráter
humano do texto em encenação leve, fluente e de humor ácido.
A diretora acerta ao não apelar para o sentimentalismo. A história, por si só,
já deixa a platéia de olhos marejados em seu fim melancólico.
Bibi
conta a seu favor com interpretações magistrais de Nathália e
Milton. Os dois atores estão iluminados e interpretam seus
personagens com tamanha veracidade que o jogo teatral se faz fácil
e sedutor. Quando a trama avança quase 20 anos, os atores
transmitem em segundos as marcas da passagem do tempo.
Enfim,
um espetáculo primoroso, que honra o teatro brasileiro. Humor
e lágrimas.
Mauro Ferreira
(Revista Isto É Gente -
outubro de 2001)
Reconduzindo
Miss Daisy
Bibi
Ferreira leva ao palco um sucesso das telas
| Filme
de 1989 que - entre outras estatuetas - rendeu um Oscar de
interpretação para a atriz Jessica Tandy e faturou mais
de US$ 100 milhões nas bilheterias americanas, Conduzindo
Miss Daisy nasceu, na verdade, em formato de peça
teatral. Só que o texto, escrito pelo ganhador do Prêmio
Pulitzer Alfred Uhry, foi pouquíssimas vezes encenado nos
palcos - desde sua estréia, no final da década de 80,
ganhou apenas pequenas montagens no circuito off-Broadway,
em Nova York. |

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A força do filme
suplantou a carreira do espetáculo e fez com que a peça
permanecesse praticamente desconhecida no Brasil.
Praticamente, porque duas pessoas aqui não só conheciam a
Miss Daisy dos palcos como também tinham interesse em levá-la
de volta às origens, num projeto que só agora toma forma.
Conduzindo
Miss Daisy, a peça, estréia amanhã, no Teatro Ginástico,
concretizando o que o tradutor Roberto Athayde e a diretora
Bibi Ferreira tinham idealizado há mais de uma década. ''Ele
me mostrou o texto quando o tinha recém-traduzido. Achei uma
peça linda, e sempre tive a idéia de montá-la'', lembra
Bibi, que escolheu para seu elenco os atores Nathalia Timberg,
Reinaldo Gonzaga e Milton Gonçalves. A trinca personifica,
respectivamente, uma velha judia do Sul dos Estados Unidos
(Daisy Werthan), seu filho (Boolie) e um motorista negro
(Jesse), contratado para conduzir a senhora Daisy, proibida de
dirigir desde que enfiou seu carro - um Packard novinho em
folha - no jardim da casa vizinha.
Terceira
idade - ''O filho fica
preocupado com a segurança da mãe, e por isso acha melhor
que ela passe a ser guiada por alguém mais experiente'',
explica Reinaldo, que enxerga em seu personagem uma
necessidade do autor em questionar o tratamento que os idosos
costumam receber.''Uma das temáticas da peça é a terceira
idade. O Boolie até que parece ser um sujeito atencioso,
contrata o motorista e tudo. Mas, no fundo, ele não toma
conta da mãe, tanto que depois acaba mandando-a para uma clínica
geriátrica.''
O espetáculo
levanta também a questão do racismo, que acaba costurando
toda a trama, desenrolada a partir de 1947. Por 25 anos, Jesse
(o nome é herança do filme, já que na peça original o
motorista se chamava Hoke) presta serviços a Daisy e, ao
longo da relação que se estabelece entre eles, a dupla testa
suas diferenças. ''Ela trata o Jesse com preconceito até o
final, embora se esconda atrás de uma capa de educação e
polidez. Não foi à tôa que o autor colocou como antagonistas
um negro e uma judia'', acredita Milton. ''Mas, aos poucos,
esse preconceito vai deixando de ser um impedimento. Eles se
tornam grandes amigos.''
A
mensagem moral que o espetáculo passa se ampara numa produção
esmerada. São mais de dez trocas de roupa de cada um dos
personagens, e, no palco, haverá um carro dividindo o espaço
com alguns cômodos da casa da família Werthan. Em tamanho
natural, e todo feito de arame, o automóvel é onde Jesse
passa boa parte do tempo conduzindo sua patroa. ''O nome da peça
não quer dizer apenas que é um motorista levando alguém
para passear'', diz Milton. ''Na verdade, o Jesse conduz Miss
Daisy à humanidade.''
Diretora assume que seu
nome já virou grife:
Bibi Ferreira estreou na
direção em O divórcio, de 1948, quando mandava e
desmandava em seu pai, Procópio Ferreira, à época um dos
atores da peça. De lá pra cá, seu currículo engorda a cada
ano com novas montagens, que por vezes chegam até a se
espremer no mesmo ano. Em 2000, por exemplo, Bibi dirigiu seis
espetáculos, que cumpriram temporada no Rio e em São Paulo:
Qualquer gato vira-lata tem uma vida sexual mais sadia que
a nossa, Tango bolero e cha cha cha, Na bagunça
do teu coração, Chek-up, Letti e Lotte e As
encalhadas.
''Todo
mundo me diz que Bibi Ferreira já virou grife'', brinca a
diretora, que a partir de amanhã estréia sua quarta peça
deste ano. ''Isso para mim é um elogio, virar marca é
importante. Aliás, até o chofer de praça que me deixou
outro dia no Teatro Ginástico, na hora de abrir a porta,
soltou: a senhora agora é grife. Imagina só, ele deve ter
ouvido isso de alguém que andou no táxi.''
Bibi
garante não ter preferências por gênero de espetáculo, mas
invariavelmente acaba assumindo a direção de comédias ou
musicais. Nada que impeça, no entanto, que um ou outro show
entre em sua disputada lista, como é o caso da cantora Maria
Bethânia, que já teve duas de suas apresentações - quando
comemorou 30 e 35 anos de carreira - comandadas por Bibi. ''Não
escolho nada. Às vezes, alguém me convida, e às vezes leio
uma peça, me apaixono e decido montar.''
Ajuda
- Quando duas ou mais montagens se atravancam em sua agenda,
Bibi pede o socorro de um diretor assistente. Foi o caso do
musical Na bagunça do teu coração e da comédia As
encalhadas, que, no início de seus ensaios, contaram com
a ajuda de Paulo Afonso de Lima. ''Ele colocou o espetáculo
de pé, e a Bibi chegou nos últimos 25 dias'', lembra Cláudio
Botelho, que em Na bagunça dividia o palco com Claudia
Netto. ''Mas isso de forma alguma é ruim. Pelo contrário,
evita o desgaste do diretor com os atores.''
''Não
gosto que o assistente comece sozinho'', confessa a diretora,
''mas é que isso é necessário quando as direções estão
próximas.'' Muito segura, Bibi ainda completa: ''Assim como
eu não acho ruim, ninguém que já tenha trabalhado comigo
vai achar, tenho certeza. Pode procurar e perguntar. Sei que
ninguém vai falar mal de mim.''
MARCELLA FRANCO
Quinta-feira, 25 de Outubro de 2001
Exercício
de vencer distâncias
Conduzindo
Miss Daisy em versão para o palco
Antes
de virar filme e ganhar o Oscar, em 1990, Conduzindo Miss Daisy
subiu aos palcos e conquistou o Prêmio Pulitzer, um dos
principais concedidos nesta seara na América. Agora, a história
da senhora judia e do motorista negro do sul dos Estados Unidos
chega aos palcos cariocas. A montagem, que estréia na sexta (26),
no Teatro Ginástico, no Centro, tem Nathalia Timberg e Milton Gonçalves
nos papéis que foram nas telas de Jessica Tandy e Morgan Freeman.
A direção é de Bibi Ferreira, e o ator Reinaldo Gonzaga
completa o elenco, encarnando o filho da enérgica Miss Daisy.
Para
quem não se lembra do filme: depois de bater seu carro, a
septuagenária Miss Daisy tem os serviços de um motorista
impostos pelo filho. Entre um e outro passeio de carro,
estabelece-se uma relação de amizade entre os dois, que perdura
por 25 anos. Ao longo do tempo, verificam-se mudanças sociais e
transformações nos personagens, que aprendem a lidar com suas
diferenças. "Ter essa peça nas mãos agora é muito
especial. Ela trata de compreensão, de amizade", diz
Nathalia, que também é produtora do espetáculo. Milton Gonçalves
é outro a defender a propriedade da peça neste momento. "O
espetáculo fala de humanização. Está mais em sintonia com a época
atual do que a novela O Clone", brinca o ator. O texto
original está quase intacto. Só um ou outro nome foi alterado,
como o do protagonista. De Hoke passou para Jesse. "Como no
filme", diz Milton.
Revista
Veja Rio - outubro 2001 - por Debora
Ghivelder
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