"Conduzindo Miss Daisy"


Nathália Timberg e Milton Gonçalves dão show de interpretação em espetáculo emocionante dirigido por Bibi Ferreira.

 

 

Cena da peça "Conduzindo Miss Dayse" - Foto de Jorge Cecílio.

Popularizado no cinema, em filme estrelado por Jessica Tandy e Morgan Freeman, o texto de Conduzindo Miss Daisy tem origem teatral. E é na sua forma original que a história do americano Alfred Uhry é encenada por Bibi Ferreira, no Rio, com Nathália Timberg na pele da rabugenta judia Daisy e Milton Gonçalves como seu motorista, Jesse.
 

Em cartaz no Teatro Ginástico, Conduzindo Miss Daisy diverte e emociona pelo seu texto repleto de humanidade, uma ode à tolerância e à amizade entre seres marcados por diferenças religiosas, sociais e culturais. Bibi Ferreira valoriza o caráter humano do texto em encenação leve, fluente e de humor ácido. A diretora acerta ao não apelar para o sentimentalismo. A história, por si só, já deixa a platéia de olhos marejados em seu fim melancólico.

Bibi conta a seu favor com interpretações magistrais de Nathália e Milton. Os dois atores estão iluminados e interpretam seus personagens com tamanha veracidade que o jogo teatral se faz fácil e sedutor. Quando a trama avança quase 20 anos, os atores transmitem em segundos as marcas da passagem do tempo.

Enfim, um espetáculo primoroso, que honra o teatro brasileiro. Humor
e lágrimas.

 

                                                         Mauro Ferreira

                                                             (Revista Isto É Gente - outubro de 2001)

 


 

Reconduzindo Miss Daisy

Bibi Ferreira leva ao palco um sucesso das telas

 

Filme de 1989 que - entre outras estatuetas - rendeu um Oscar de interpretação para a atriz Jessica Tandy e faturou mais de US$ 100 milhões nas bilheterias americanas, Conduzindo Miss Daisy nasceu, na verdade, em formato de peça teatral. Só que o texto, escrito pelo ganhador do Prêmio Pulitzer Alfred Uhry, foi pouquíssimas vezes encenado nos palcos - desde sua estréia, no final da década de 80, ganhou apenas pequenas montagens no circuito off-Broadway, em Nova York.

 

A força do filme suplantou a carreira do espetáculo e fez com que a peça permanecesse praticamente desconhecida no Brasil. Praticamente, porque duas pessoas aqui não só conheciam a Miss Daisy dos palcos como também tinham interesse em levá-la de volta às origens, num projeto que só agora toma forma.

Conduzindo Miss Daisy, a peça, estréia amanhã, no Teatro Ginástico, concretizando o que o tradutor Roberto Athayde e a diretora Bibi Ferreira tinham idealizado há mais de uma década. ''Ele me mostrou o texto quando o tinha recém-traduzido. Achei uma peça linda, e sempre tive a idéia de montá-la'', lembra Bibi, que escolheu para seu elenco os atores Nathalia Timberg, Reinaldo Gonzaga e Milton Gonçalves. A trinca personifica, respectivamente, uma velha judia do Sul dos Estados Unidos (Daisy Werthan), seu filho (Boolie) e um motorista negro (Jesse), contratado para conduzir a senhora Daisy, proibida de dirigir desde que enfiou seu carro - um Packard novinho em folha - no jardim da casa vizinha.

Terceira idade - ''O filho fica preocupado com a segurança da mãe, e por isso acha melhor que ela passe a ser guiada por alguém mais experiente'', explica Reinaldo, que enxerga em seu personagem uma necessidade do autor em questionar o tratamento que os idosos costumam receber.''Uma das temáticas da peça é a terceira idade. O Boolie até que parece ser um sujeito atencioso, contrata o motorista e tudo. Mas, no fundo, ele não toma conta da mãe, tanto que depois acaba mandando-a para uma clínica geriátrica.''

O espetáculo levanta também a questão do racismo, que acaba costurando toda a trama, desenrolada a partir de 1947. Por 25 anos, Jesse (o nome é herança do filme, já que na peça original o motorista se chamava Hoke) presta serviços a Daisy e, ao longo da relação que se estabelece entre eles, a dupla testa suas diferenças. ''Ela trata o Jesse com preconceito até o final, embora se esconda atrás de uma capa de educação e polidez. Não foi à tôa que o autor colocou como antagonistas um negro e uma judia'', acredita Milton. ''Mas, aos poucos, esse preconceito vai deixando de ser um impedimento. Eles se tornam grandes amigos.''

A mensagem moral que o espetáculo passa se ampara numa produção esmerada. São mais de dez trocas de roupa de cada um dos personagens, e, no palco, haverá um carro dividindo o espaço com alguns cômodos da casa da família Werthan. Em tamanho natural, e todo feito de arame, o automóvel é onde Jesse passa boa parte do tempo conduzindo sua patroa. ''O nome da peça não quer dizer apenas que é um motorista levando alguém para passear'', diz Milton. ''Na verdade, o Jesse conduz Miss Daisy à humanidade.''

Diretora assume que seu nome já virou grife:

Bibi Ferreira estreou na direção em O divórcio, de 1948, quando mandava e desmandava em seu pai, Procópio Ferreira, à época um dos atores da peça. De lá pra cá, seu currículo engorda a cada ano com novas montagens, que por vezes chegam até a se espremer no mesmo ano. Em 2000, por exemplo, Bibi dirigiu seis espetáculos, que cumpriram temporada no Rio e em São Paulo: Qualquer gato vira-lata tem uma vida sexual mais sadia que a nossa, Tango bolero e cha cha cha, Na bagunça do teu coração, Chek-up, Letti e Lotte e As encalhadas.

''Todo mundo me diz que Bibi Ferreira já virou grife'', brinca a diretora, que a partir de amanhã estréia sua quarta peça deste ano. ''Isso para mim é um elogio, virar marca é importante. Aliás, até o chofer de praça que me deixou outro dia no Teatro Ginástico, na hora de abrir a porta, soltou: a senhora agora é grife. Imagina só, ele deve ter ouvido isso de alguém que andou no táxi.''

Bibi garante não ter preferências por gênero de espetáculo, mas invariavelmente acaba assumindo a direção de comédias ou musicais. Nada que impeça, no entanto, que um ou outro show entre em sua disputada lista, como é o caso da cantora Maria Bethânia, que já teve duas de suas apresentações - quando comemorou 30 e 35 anos de carreira - comandadas por Bibi. ''Não escolho nada. Às vezes, alguém me convida, e às vezes leio uma peça, me apaixono e decido montar.''

Ajuda - Quando duas ou mais montagens se atravancam em sua agenda, Bibi pede o socorro de um diretor assistente. Foi o caso do musical Na bagunça do teu coração e da comédia As encalhadas, que, no início de seus ensaios, contaram com a ajuda de Paulo Afonso de Lima. ''Ele colocou o espetáculo de pé, e a Bibi chegou nos últimos 25 dias'', lembra Cláudio Botelho, que em Na bagunça dividia o palco com Claudia Netto. ''Mas isso de forma alguma é ruim. Pelo contrário, evita o desgaste do diretor com os atores.''

''Não gosto que o assistente comece sozinho'', confessa a diretora, ''mas é que isso é necessário quando as direções estão próximas.'' Muito segura, Bibi ainda completa: ''Assim como eu não acho ruim, ninguém que já tenha trabalhado comigo vai achar, tenho certeza. Pode procurar e perguntar. Sei que ninguém vai falar mal de mim.''

 

                                                                                                     MARCELLA FRANCO

                                                                              Quinta-feira, 25 de Outubro de 2001


Exercício de vencer distâncias

Conduzindo Miss Daisy em versão para o palco

Antes de virar filme e ganhar o Oscar, em 1990, Conduzindo Miss Daisy subiu aos palcos e conquistou o Prêmio Pulitzer, um dos principais concedidos nesta seara na América. Agora, a história da senhora judia e do motorista negro do sul dos Estados Unidos chega aos palcos cariocas. A montagem, que estréia na sexta (26), no Teatro Ginástico, no Centro, tem Nathalia Timberg e Milton Gonçalves nos papéis que foram nas telas de Jessica Tandy e Morgan Freeman. A direção é de Bibi Ferreira, e o ator Reinaldo Gonzaga completa o elenco, encarnando o filho da enérgica Miss Daisy.

Para quem não se lembra do filme: depois de bater seu carro, a septuagenária Miss Daisy tem os serviços de um motorista impostos pelo filho. Entre um e outro passeio de carro, estabelece-se uma relação de amizade entre os dois, que perdura por 25 anos. Ao longo do tempo, verificam-se mudanças sociais e transformações nos personagens, que aprendem a lidar com suas diferenças. "Ter essa peça nas mãos agora é muito especial. Ela trata de compreensão, de amizade", diz Nathalia, que também é produtora do espetáculo. Milton Gonçalves é outro a defender a propriedade da peça neste momento. "O espetáculo fala de humanização. Está mais em sintonia com a época atual do que a novela O Clone", brinca o ator. O texto original está quase intacto. Só um ou outro nome foi alterado, como o do protagonista. De Hoke passou para Jesse. "Como no filme", diz Milton.

Revista Veja Rio - outubro 2001 - por Debora Ghivelder

 


 

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