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ARTES
CÊNICAS
Em
plena forma, Bibi Ferreira volta à cidade para
cantar os clássicos de Edith Piaf
As apresentações são nesta quarta
(11/11) e quinta (12/11), na Sala Villa-Lobos
Lúcio Flávio
Papai Procópio Ferreira (1898 – 1979) não
titubeou quando começou a perceber que a filha
Bibi, ainda na tenra idade, já dava sinais de
grande talento e, num golpe de orgulho extremo,
vaticinou: “Através de você, viverei duas
vezes”. A história, quem conta, com esgar de
emoção na voz, é a própria artista, em Brasília
para duas apresentações de Bibi canta e conta
Piaf, hoje e amanhã, na Sala Villa-Lobos do
Teatro Nacional Claudio Santoro. É a segunda vez
que a atriz, cantora, diretora e compositora
brasileira desembarca na capital com orquestra,
na montagem que, desde 1983, homenageia a
cantora francesa. A última foi em agosto do ano
passado. “Vou continuar fazendo Piaf… enquanto o
público pedir”, diz, animada.
Bastante disposta e bem-humorada, Bibi recebeu a
imprensa para coletiva, na última segunda-feira,
no Churchill Lounge Bar do Hotel Nacional. Aos
87 anos, mas com uma disposição de dar inveja a
muitos jovens, a artista falou sobre a
importância dos musicais na sua trajetória, de
como a intérprete francesa Edith Piaf entrou em
sua vida e da relação carinhosa que tem com
Brasília, um lugar, segundo, ela, exótico. “É
uma cidade curiosa, diferente de qualquer outra
lugar do mundo, e acho que de qualquer outro
planeta também. Mas é uma cidade linda”, brinca.
Também comentou, orgulhosa, da homenagem
recebida no Tribunal de Contas da União (TCU),
na semana passada, quando recebeu o Grande Colar
do Mérito do TCU. Evento que contou com a
presença do vice-presidente, José Alencar. “Foi
uma comemoração digna e patriótica, me senti
orgulhosa de ser brasileira”, comenta.
No palco da Sala Villa-Lobos, a dama do teatro
brasileiro divide as atenções com o coral da UnB
e o maestro Nelson Melim. Quem teve a
oportunidade de ver a apresentação da artista no
ano passado sabe que a empatia da diva com o
público é intensa. Sempre animada, ela aproveita
para contar, entre o intervalo de clássicos como
La vie en rose, La ville inconnue e Je ne
regrette rien (também vertida para a voz de
Cássia Eller), histórias de uma mulher que “teve
muitos amores e amou com uma paixão sem igual”.
“Eu sou muito disciplinada para cantar. E Piaf
não precisava ser disciplinada para cantar
porque ela tinha um talento tão grande que, para
ela, cantar era fácil”, comenta Bibi, que se diz
admirada com o espanto das pessoas com os seus
87 anos. “As pessoas se espantam com o fato de
como ando bem e com a qualidade vocal que tenho
até hoje”, detalha. “Outro dia, participava de
evento em homenagem aos médicos e eles disseram
que sou um fenômeno vocal porque a primeira
coisa a envelhecer é a voz. De modo que faço
parte de uma elite biológica. Gostei dessa”, ri.
» Depoimento: Bibi encantada
Irlam Rocha Lima
“Tenho acompanhado a trajetória de Bibi Ferreira
nesse espetáculo maravilhoso em que celebra
Piaf, desde a estreia em 25 de maio de 1983, no
teatro do Clube Ginástico Português (hoje Sesc
Ginástico). Por sorte, estava no Rio de Janeiro
naquela época e pude aplaudi-la, interpretando,
de forma irrepreensível, canções e momentos da
vida e da carreira desse mito da arte na França.
Em fevereiro de 2004, quando Bibi canta Piaf
comemorou 20 anos, com pequena temporada no
Teatro Maison de France, testemunhei, ao final
da apresentação, Fernanda Montenegro, Natália
Thimberg e Eva Todor (outras três divas do
teatro e da televisão brasileira) reverenciarem
essa baixinha magistral, que se agiganta em
cena.
Bibi, que já viera à capital com o musical em
duas oportunidades, voltou à Sala Villa-Lobos em
20 de agosto ano passado e comemorou com o
brasiliense os 25 anos de sucesso do Piaf,
demonstrando como se mantinha em plena forma aos
82 anos.
Generosa, em entrevista ao Correio, foi toda
elogios a Piaf, um hino ao amor, de Olivier
Dahan — em cartaz naquele momento —, que
classificou de “primoroso” e , em especial, a
atriz Marion Cotilard, cuja performance foi
vista por ela como “deslumbrante”. Rever Bibi em
Piaf, em seu retorno ao Teatro Nacional, mais
que uma obrigação de ofício, é algo ligado ao
prazer, ao encantamento.”
» Memória: o teatro em pessoa
Sérgio Maggio
A ligação de Bibi Ferreira com Brasília é mesmo
afetiva. Passa pela amizade de vida que
constituiu com Dulcina de Moraes, ainda quando
era uma menina que via o pai, um dos maiores
atores deste país, aventurar-se na loucura de
fazer teatro no Brasil do início do século 20.
Vinda dessa escola de teatro feito por
apaixonados, no verdadeiro sentido dos amadores,
que em companhias cortavam o interior, Bibi
Ferreira riscou uma das carreiras mais
produtivas do país. Hoje, está absolutamente
ativa revezando-se entre a direção diversificada
de montagens e os musicais, como este, um marco
que nunca deve sair de cena.
A amizade entre Bibi e Dulcina é comovente. Foi
delicadamente relatada por Sérgio Viotti na
biografia dedicada à criadora da Fundação
Brasileira de Teatro (FBT). Amigas, as duas
nunca se dissociaram, na alegria e na tristeza,
quando Dulcina adoeceu e teve dias de
dificuldade financeira. Sempre por perto, Bibi
até hoje é a voz que se levanta para que a obra
de Dulcina de Moraes se perpetue e jamais seja
ameaçada pelo descaso. Frequentemente, Bibi
Ferreira anuncia a necessidade de reformar o
Teatro Dulcina de Moraes e de preservar o acervo
da atriz e diretora, disponibilizando-o ao
público.
Associada intimamente ao teatro, Bibi Ferreira
sempre deixou fortes marcas quando pisou no
palco como atriz. A interpretação de Joana, a
Medeia carioca de Gota D’àgua, até hoje está na
memória de quem ficou diante dela no palco.
Nesses milagres tecnológicos do século 21, há
trechos da montagem no YouTube. Num deles, Chico
Buarque diz: “É um espetáculo da Bibi. Feito
para Bibi brilhar e ela brilha.”
Além desse musical Piaf, Bibi tem o show
dedicado à dama do fado, Amália Rodrigues, tão
poderoso quanto o dedicada à musa francesa. Em
comum, há a preocupação da artista de não só
emprestar a voz, mas, sobretudo, de encarnar a
energia das homenageadas. No centro do palco,
cercada por instrumentos, Bibi Ferreira é
soberana não só pelo dom de cantar. Mesmo ali,
no que parece cenicamente simples, ela põe o
corpo de atriz em favor do objetivo maior de
encantar a plateia.
É uma honra o Brasil ter uma artista do porte de
Bibi Ferreira trocando de palco com o mesmo
prazer de quando era uma menina encantada pelo
teatro. A cada reverência que ela fizer, hoje e
amanhã, na Sala Villa-Lobos, saibamos que
estamos aplaudindo uma grande parte da história
do teatro brasileiro.
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