Foto: Dulce Helfer, Banco de Dados/ZH
 
 
As duas vidas de Bibi
 

RENATO MENDONÇA


Bibi Ferreira estava no palco do Teatro do Sesi quando ele foi inaugurado. E estará de volta hoje, para comemorar o sétimo aniversário da sala comandando o show De Bach a Bibi, a partir das 21h. A distribuição de ingressos encerrou-se às 11h de ontem. A primeira parte do show terá as pianistas Cristina Capparelli, Maly Weisenblum e Olinda Allessandrini, mais a Orquestra Sesi-Fundarte, regida por Cláudio Ribeiro. A segunda parte terá Bibi apresentando os melhores momentos do musical Bibi canta e conta Piaf. Acompanhe o que Bibi pensa de TV, liberdade, velhice e teatro.

A entrevista foi feita por telefone, sábado à tarde, mas parecia que Bibi Ferreira estava num palco. Aos 82 anos, protagonista de momentos dramáticos da arte brasileira, ela se desdobrava em conciliar quatros gatos que teimavam em desligar o telefone e a memória de quem começou no palco aos 21 dias, no papel de uma boneca. O primeiro assunto é teatro, a supremacia da comédia nos palcos brasileiros.

- A comédia é ótima e necessária. Sempre foi a primeira bilheteria, em qualquer tempo. Mas acho que estamos fracos de ideais, apáticos. O mundo em luta, e o teatro brasileiro está blasé. Filmes como Carandiru e Cidade de Deus mostram a emoção crua, mas não há reflexão. Na verdade, acho que é problema de safra.

Ela não perdoa a TV. Diz que é o veículo mais potente e mais frívolo.

- A imoralidade física é o mais triste. Mas assisto a tudo. É um vício.

Com a autoridade de quem já dirigiu Clara Nunes e Paulo Gracindo, Maria Bethânia e Ítalo Rossi, Elizeth Cardoso e Baden Powell, Bibi elogia seu trabalho em 2003 com a cantora Roberta Miranda.

- Se o público escolhe e aprova, está certo.

Sobre o musical Gota D´Água (1975), de Chico Buarque e Paulo Pontes, trincheira que travou a censura política dos anos 70, Bibi surpreende ao reassumir seu personagem por alguns minutos, dando uma fala ao telefone. Passada a emoção de interpretar Joana, Bibi lembra que, naquele momento, palco e inconsciente coletivo estavam afinados, era como se o pensamento de uma nação fosse dito em em voz alta.

Depois de tanto assunto sério, Bibi revela que um de seus personagens prediletos é Claudina, uma menina de nove anos, nascida num orfanato de freiras em Diadema, no dia de Natal.

- Mas ela nunca pisou um palco. É uma personagem que construí, que incorpora meu senso de humor, minha ironia. Ela diz as verdades que não se dizem sempre.

Bibi avisa que Claudina só aparece quando está numa roda de amigos, mas abre uma exceção. A voz fica tatibitate, e não é mais Bibi - é Claudina:

- Tenho opinião. Sou criança, não sou neném.

Algumas brincadeiras, e está de volta a estrela de Homem de la Mancha, Piaf e Bibi in Concert para comentar uma declaração de Tônia Carrero.

- Ela usou uma frase minha, a de que velhice é a maior prova de que o inferno existe. Mas eu falei isso brincando. A velhice é progressiva e não tem saída. Temos é de tratar bem a velhice.

Passados 40 minutos, ela encerra a entrevista com uma frase digna das falas de seus grandes personagens. Bibi faz o elogio do artista.

- É um privilégio ser ator. Quem mais vive duas vidas? A de verdade e a do palco?



Porto Alegre, 25 de maio de 2004.   Zero Hora     Edição nº 14156