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Em 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros renunciou à presidência da República. Assustados com a tendência esquerdizante de seu vice, João Goulart, substituto constitucional de Jânio, os paranóicos ministros militares pressionaram o Congresso a aprovar às pressas um ato adicional que limitasse os poderes do presidente, a fim de que ele não pudesse sair da linha política conservadora que as Forças Armadas preconizavam. A solução foi a Emenda Constitucional n°4, aprovada em 2 de setembro, e que instituiu o Parlamentarismo no Brasil. Dessa forma, o Congresso não responderia mais diretamente ao presidente, e sim a um primeiro-ministro que o próprio Congresso indicaria.

No dia 7 de setembro João Goulart assumiu a presidência com Tancredo Neves à ilharga, como primeiro-ministro. Ficou estabelecido que em janeiro de 65 haveria um plebiscito popular para a manutenção ou não do novo sistema de governo. O gabinete de Tancredo manteve-se caoticamente até junho de 62, quando finalmente caiu.


A classe
artística mobilizou-se para que o
parlamentarismo fosse derrotado no
plebiscito. O sistema apenas descentralizava
o poder central e criava uma série de
caciques que desejava governar com o mesmo
poder. Acredito que ao fim e ao cabo, o que
os artistas desejavam era que Jango
governasse do jeito que lhe aprouvesse, para
o bem ou para o mal. Decisão semelhante
ocorreu em 90, quando um novo plebiscito
jogou nas mãos do povo a decisão entre
república e monarquia, e parlamentarismo e
presidencialismo. Contra todos os
prognósticos (e desta vez os artistas
cerraram fileiras ardorosamente ao lado do
parlamentarismo), o povo derrotou a
monarquia e o parlamentarismo com estrépito,
mandando mensagem claríssima de que o
problema nunca foi o sistema, e sim os
políticos.

Locutor – Aqui está a maior atriz do teatro nacional, Bibi Ferreira!

Elizeth – (canta) Meu povo, está na hora de acabar a confusão, toda a nação vai responder que não. O ato adicional está indo mal, todo o meu povo, com razão, vai responder que não, não e não.

Ivon – (canta) Nós vamos acabar com a confusão, é a nossa vez, no dia 6, ahhh, vamos dizer que não. O parlamentarismo não tem jeito nem razão, no dia 6 vamos dizer que não, não e não.

Bibi – Ouçam
a seguir a notável cantora paulista
Isaurinha Garcia, orgulho de São Paulo e do
Brasil.
Isaurinha – (canta) O dia 6 vai ser a nossa
vez, toda a nação, com o lápis na mão vai
responder que não. Está na sua mão, do
plebiscito a decisão, com o lápis na mão
vamos dizer que não, não e não.
Bibi – Igual ao senhor e igual à senhora, eu
também irei às urnas dia 6, o dia do não, e
em sua seção eleitoral, prestigiando o
plebiscito, estará também o famoso cantor
Jorge Goulart, uma das mais bonitas vozes do
Brasil.
Jorge
– (canta) Nós vamos acabar com a confusão, é
a nossa vez, no dia 6, vamos dizer que não.
O parlamentarismo não tem jeito nem razão,
no dia 6 vamos dizer que não, não e não.
Locutor – Na sua cédula está escrito:
Bibi – Concorda com o ato adicional que
instituiu o parlamentarismo?
Locutor – Não.
Locutor – Então faça um X no quadrinho do
não.
Locutor – Dia 6 é a sua vez.
Bibi – Compareça e marque:
Locutor – Não!
Locutor – Não!
Bibi – Não!
Locutor – Não!
Locutor – Não!
Bibi – Não!
Coro – Meu povo a decisão agora está em sua
mão, no dia 6 vamos dizer que não. O ato
adicional só aumentou a confusão, com o
lápis na mão, vamos dizer que não, não e
não.
Pode-se
dizer que Bibi e a classe artística estavam
do lado certo, porque no dia 6 de janeiro o
parlamentarismo foi fragorosamente
derrotado, com 9.457.448 votos pela volta do
presidencialismo, contra 2.073.582 pela
manutenção do regime de primeiros-ministros.
Divirtam-se com esta clássica e rara propaganda política.
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