Matinê no Carlos Gomes

Artur Xexéo

"Para não fazer feio no vestuário, Lecy ganhou um redingote azul-turquesa da minha tia, que não o usava mais."

ANTES DE COMEÇAR, É PRECISO QUE  eu explique uma tradição da minha família: somos fãs de Bibi Ferreira. É coisa que passa de geração para geração. É por isso que, lá em casa, ninguém se cansa de ver Bibi cantando "Mulher rendeira" em vários idiomas. E qualquer canção de "Piaf". E todo mundo é contra que se remonte "Gota d’água" (ninguém faria uma Joana/Medéia melhor que ela). E há quem se lembre dela protagonizando "A herdeira" num teleteatro da TV em preto-e-branco. E houve tempo, quando morávamos em São Paulo, que a rotina de domingo era sagrada: missa na Igreja de São Judas Tadeu, almoço num drive-in da Avenida Indianápolis e, à noite, "Bibi 60" na TV Excelsior (e, depois, "Bibi 61", "Bibi 62"...). Atualmente, não perdemos "Bibi in concert número 1", "Bibi in concert número 2", e já reservamos ingressos para "Bibi in concert" até o número 14.

Tenho pensado muito em Bibi. Quer dizer, eu sempre penso em Bibi, mas, desde que vi um anúncio no jornal convocando para testes de uma nova montagem de "My fair lady", tenho pensado com mais freqüência.

Não, não pretendo concorrer a uma vaga pelo papel do professor Higgins. Se bem que, na minha idade - no campeonato da vida, já me sinto na zona de rebaixamento -, só daria para disputar o papel de pai de Eliza Doolitle. Mas não é nada disso. É que a remontagem de "My fair lady" me lembrou de Bibi e da primeira vez que assisti a uma peça teatral para adultos. Era "My fair lady", é claro, que na época era chamada de "Minha querida lady", no Teatro Carlos Gomes com Bibi no papel principal.

Estou falando de 1962 (a peça ficou três anos em cartaz, mas eu a vi logo no começo da temporada). Lá em casa, todo mundo já tinha visto. Sobrou para mim a companhia de Lecy, a empregada que topou servir de babá. Para não fazer feio no vestuário, Lecy ganhou um redingote azul-turquesa da minha tia, que não o usava mais. OK, ninguém tem obrigação de, em 2006, ainda saber o que é um redingote. Vamos. então, à definição de Aurélio: "casaco feminino inteiriço, ajustado na cintura e que alarga para baixo". Então, fomos lá, Lecy com seu casaco inteiriço azul-turquesa e eu de calças curtas num lotação com destino à Praça Tiradentes. No lotação, descobri porque minha tia não usava mais o redingote: ele tinha uma mancha de tinta enorme na parte que se alargava para baixo. Lecy não deu bola;

- Faz de conta que manchou na condução. E fomos em frente.

Foi uma tarde inesquecível - é claro que era matinê. Ainda hoje sou capaz de cantar as versões de Henrique Pongetti e Victor Berbara para as canções de Alan Jay Lerner e Frederich Loewe ("Por que não podem os ingleses aprender?/ Na China ao chinês?/ Na Holanda ao holandês?/ Na França até as crianças já dominam o francês!"), embora não encontre ninguém que as queira ouvir. E, principalmente, me lembro de Bibi, no fim do primeiro ato, elegantemente vestida para as corridas de Ascot, gritando na boca de cena:

- Mexe mais essa bunda!

E o pano caía rápido para deixar a platéia boquiaberta. Meu Deus, a Bibi falando palavrão!!!

Eram mesmo outros tempos. Tinha matinê, redingote e programação no Teatro Carlos Gomes. Tudo caiu em desuso. Assim como o espanto diante de um palavrão em palcos de família. Só sobrou o talento de Bibi Ferreira. Bibi é indestrutível.

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Crônica de Artur Xexéo publicada na Revista O Globo, edição de 10 de setembro de 2006.
 
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