ANTES DE COMEÇAR, É
PRECISO QUE eu explique uma tradição da minha família:
somos fãs de Bibi Ferreira. É coisa que passa de geração
para geração. É por isso que, lá em casa, ninguém se cansa
de ver Bibi cantando "Mulher rendeira" em vários idiomas. E
qualquer canção de "Piaf". E todo mundo é contra que se
remonte "Gota d’água" (ninguém faria uma Joana/Medéia melhor
que ela). E há quem se lembre dela protagonizando "A
herdeira" num teleteatro da TV em preto-e-branco. E houve
tempo, quando morávamos em São Paulo, que a rotina de
domingo era sagrada: missa na Igreja de São Judas Tadeu,
almoço num drive-in da Avenida Indianápolis e, à noite,
"Bibi 60" na TV Excelsior (e, depois, "Bibi 61", "Bibi
62"...). Atualmente, não perdemos "Bibi in concert número
1", "Bibi in concert número 2", e já reservamos ingressos
para "Bibi in concert" até o número 14.
Tenho pensado muito em
Bibi. Quer dizer, eu sempre penso em Bibi, mas, desde que vi
um anúncio no jornal convocando para testes de uma nova
montagem de "My fair lady", tenho pensado com mais
freqüência.
Não, não pretendo
concorrer a uma vaga pelo papel do professor Higgins. Se bem
que, na minha idade - no campeonato da vida, já me sinto na
zona de rebaixamento -, só daria para disputar o papel de
pai de Eliza Doolitle. Mas não é nada disso. É que a
remontagem de "My fair lady" me lembrou de Bibi e da
primeira vez que assisti a uma peça teatral para adultos.
Era "My fair lady", é claro, que na época era chamada de
"Minha querida lady", no Teatro Carlos Gomes com Bibi no
papel principal.
Estou falando de 1962 (a
peça ficou três anos em cartaz, mas eu a vi logo no começo
da temporada). Lá em casa, todo mundo já tinha visto. Sobrou
para mim a companhia de Lecy, a empregada que topou servir
de babá. Para não fazer feio no vestuário, Lecy ganhou um
redingote azul-turquesa da minha tia, que não o usava mais.
OK, ninguém tem obrigação de, em 2006, ainda saber o que é
um redingote. Vamos. então, à definição de Aurélio: "casaco
feminino inteiriço, ajustado na cintura e que alarga para
baixo". Então, fomos lá, Lecy com seu casaco inteiriço
azul-turquesa e eu de calças curtas num lotação com destino
à Praça Tiradentes. No lotação, descobri porque minha tia
não usava mais o redingote: ele tinha uma mancha de tinta
enorme na parte que se alargava para baixo. Lecy não deu
bola;
- Faz de conta que
manchou na condução.
E
fomos em frente.