Na mal
preenchida platéia do Teatro de Santa Isabel
havia um homem sisudo. Acompanhava a esposa.
Pela cara que fazia antes do espetáculo, com
certeza, foi ver Bibi Ferreira apenas para
cumprir o papel de marido. Se o fato de estar
pisando como convidado naquele chão que completa
160 anos não era suficiente para agradá-lo, tudo
bem. Bibi conseguiu dobrar o homem de feições
graves. A diva tirou da circunspecção aquele
sério por trás dos óculos. Por diversas vezes,
ele sorriu encantado.
O show nessa terça (18) no Recife durou
precisamente uma hora. O calor que fazia nos
camarotes foi coadjuvante diante do espetáculo
protagonizado pela senhora de 87 anos que foi de
Pixinguinha a Edith Piaf, francesa que
interpreta desde 1983 - “Há muito tempo que não
canto em português. Há 27 anos que vivo às
custas de Edith Piaf”.
Algumas
canções a senhora de salto altíssimo, roupas
largas, voz firme e capacidade para abaixar-se e
pegar uma letra caída no palco ousou cantar em
público pela primeira vez. Além da companhia do
tal homem e de outros convidados, teve ao seu
lado os músicos que sempre viajam com ela e a
participação da Orquestra Sinfônica do Recife.
Será que foi a coragem e a humildade de Bibi em
dividir esse momento com a plateia que encantou
o homem preso em seu conceito de moderação? Ou
será que, como muitos, ele se alegrou ao fechar
os olhos e cantarolar, baixinho, Carinhoso,
Chão de estrelas, Recife, cidade
lendária e até um Samba de uma nota só
com letra de Canção do exílio e fazer,
com a artista, uma revisão dos momentos mais
íntimos de sua vida regidos por esta trilha
sonora?
Se foi a última opção, imagine o êxtase de ser
convidado a perder a vergonha e cantar junto com
a filha de Procópio Ferreira fados de Amália
Rodrigues, La vie en rose ou Rien
de rien. “Cantar é um ato de coragem. É 10%
talento e 90% cara de pau”, incentivou Bibi,
parafraseando Millôr Fernandes.
O homem sério já se levantava para partir quando
a artista voltou para fazer bis de La vie en
rose. Uns choraram, outros cantaram. Ele
sorriu.
Bibi agradeceu a oportunidade de participar da
comemoração dos 160 anos do Santa Isabel. O
homem sisudo não deve ter agradecido verbalmente
à esposa ou a quem lhe deu o convite. Mas
certamente, de alguma forma, o sorriso sereno
que estampava no rosto quando ia buscar o carro
foi a melhor forma de dizer “Muito obrigado”.
Nesta quarta-feira (19) tem mais espetáculo, mas
os ingressos já estão esgotados.