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Revista Época
A diva Bibi
agora é pop
A
atriz de 83 anos inova e encanta a platéia com um rap em que
critica o mau uso da língua portuguesa
Simone Goldberg
Fotos: Marco Antônio Rezende/Photocamera Bibi Ferreira
estreou no palco no lugar de uma boneca. Ela tinha 24 dias de
vida e entrou em cena nos braços de sua madrinha, a atriz
Abigail Maia, na peça Manhãs de Sol, de Oduvaldo Viana
(pai), seu padrinho. ''A boneca da cena tinha sumido. Meu pai
era ator da companhia e alguém falou: a filha do Procópio (Ferreira)
está aí, pede emprestada'', conta Bibi. A atriz, cantora e
diretora de 83 anos recebeu o nome de Abigail em homenagem à
madrinha, a grande vedete Abigail Maia. Não que fosse muito
amiga de seu pai. ''Ele fez uma social. Afinal, ela era a
estrela.'' Bibi é uma metralhadora. Conta histórias da vida, da
política e do teatro. Aproveitou a oportunidade na quarta-feira
13, ao receber o prêmio Unesco de cultura, em Brasília, para
pedir à primeira-dama, Marisa Letícia, que leve ao presidente da
República um pedido de socorro ao teatro brasileiro. Ganhou uma
aliada: dona Marisa lhe prometeu apoio. A atriz, que já
encarnou Edith Piaf, Amália Rodrigues e dezenas de outras
personagens, agora é simplesmente Bibi. Estreou na sexta-feira
22 temporada popular de seu show Bibi in Concert III Pop
, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Em novembro,
seguirá para São Paulo e depois viajará pelo país. Em Pop III, Bibi
inovou: divide o palco com quatro cantores, todos com menos de
30 anos, e dez músicos, também moços. ''O contraste do show é a
nossa diferença de idade'', diz Bibi. O espetáculo é eclético,
com tango, ópera, clássicos da MPB, histórias contadas pela
artista e um rap, composto por ela em parceria com Teresa Tinoco
e Flávio Mendes, diretor musical do espetáculo. ''As pessoas
usam muito mal a língua portuguesa. Por isso tive a idéia de
fazer esse rap'', conta.
Perfeccionista, Bibi desenvolveu uma mania: andava diariamente
40 minutos em seu apartamento, no bairro do Flamengo, cantando
alguns números do novo show. Mas não dispensava os ensaios
puxados. ''Ela tem um olho crítico incrível'', diz Beto
Serrador, de 24 anos, um dos integrantes do quarteto.
''Trabalhar com a Bibi é uma pós-graduação em teatro'', define
Arthur Brandão, outro Bibi-boy, de 28 anos.
Bibi sai pouco de casa. Gosta de ver filmes, ler antes de dormir
e acordar tarde. ''Acordar cedo é horrível, é quando o mundo não
presta'', diz. E o mundo não presta todas as vezes que Bibi
precisa viajar cedo. Mesmo nesses dias, continua mantendo a fé.
''Acredito em três coisas: Deus, ensaio e comida.'' Deve ser por
isso que encara com gosto uma feijoada, muitas vezes depois de
uma apresentação, às 11 horas da noite. ''E com pimenta e
farinha.'' Não fuma, não bebe e cuida da voz com exercícios
respiratórios. Usa óculos escuros contra a fotofobia. Diz que a
velhice é a maior prova de que o inferno existe. ''Não acredito
em creme, só em ruga.'' Do corpo da jovem que estreou
oficialmente nos palcos antes dos 18 anos, as pernas ainda
chamam a atenção, garante o empresário, Nilson Raman. ''Vou
fazer o quê? Andar de minissaia?'', desafia.
Seis casamentos - ''menos que a Liz
Taylor'', lembra ela -, uma filha, dois netos e dois bisnetos,
Bibi não pára. Recorda que a mãe, a bailarina espanhola Aída
Izquierdo, era muito exigente. ''Era proibido me cansar.'' Além
do novo show, Bibi lançou recentemente o CD e o DVD Bibi
Canta Piaf e dirige a peça DNA, a Comédia, que
estreará no mês que vem. Em casa, reflete sobre as mazelas do
país e faz ''uma conscientização política'' com as três gatas -
Vadia, Luxúria e Volúpia - e o gato, Sansão. ''Eu digo a eles:
vivemos num país de 45 milhões de famintos. Vocês comem ração
importada e tomam água mineral. Deviam ser felizes.''
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