Coluna

 Mônica Bergamo

 

 

REPERTÓRIO: Aos 83 anos, Bibi Ferreira aposta cada vez mais em seus dotes de cantora; ela estréia hoje o espetáculo "Bibi in Concert 3", em SP, onde canta desde músicas de Edith Piaf a um rap composto especialmente para a obra

Foto: Ana Ottoni - Folha Imagem

 


 

Bibi, em concerto que vai da tragédia ao rap

 

Na sua terceira versão, espetáculo musical traz novidades, como a ênfase maior na sua faceta de atriz densa e talentosa

                                                                                

“Meu concerto é divertido, alegre, jovem, bem disposto.” Assim Bibi Ferreira começa sua animada entrevista ao Estado para falar de seu novo espetáculo, no Teatro Shopping Frei Caneca, Bibi in Concert III, que ela define como pop. “Pode acreditar, estou cada vez melhor, minha voz está bem trabalhada, o repertório mais radical. Tem até um rap!”

Já apresentado no Rio,essa nova versão do conhecido concerto da Bibi traz algumas novidades importantes, sobretudo para quem acompanhou os grandes momentos da carreira dessa talentosa atriz. Se nos concertos anteriores as canções davam o tom, neste a faceta de atriz se faz mais presente. Por exemplo, o público vai acompanhá-la num dos solilóquios de A Gota d’Água. Quem viu, jamais esquece a densidade de sua Joana, adaptação para a realidade brasileira da personagem Medéia, que mata os filhos para vingar a traição do marido. De tamancos, desgrenhada, Bibi era a encarnação da dor ao cantar: “Deixe em paz meu coração/ ele é um pote até aqui de mágoa/ e qualquer desatenção, faça não/pode ser a gota d’água.” Raras, raríssimas mesmo, são as atrizes brasileiras capazes de atingir o diapasão da tragédia. Bibi alcançou tal densidade plenamente e na difícil tarefa de fazê-lo por meio de um texto poético, em versos, e num musical.“ No meio de uma dança eu falo, berro, me zango, canto; é um desafio brutal”, disse Bibi em entrevista na época. “O segredo para atingir o trágico está na potência vocal”, argumenta 31 anos depois da estréia. “É preciso ter amplo diapasão de voz, capacidade de emitir graves muito fortes e riqueza de tons médios para conferir autoridade trágica à interpretação.” Quem não viu a famosa Joana da Bibi, poderá vislumbrá-la agora nesse espetáculo.

E não só. Bibi leva ao palco ainda trechos de Piaf. A música, claro, ainda é o carro-chefe do espetáculo. “Mas o roteiro tem uma costura muito boa”, afirma. “Abro o show com uma composição de Tom Jobim, depois vêm Dolores Duran, Antonio Maria e novamente Tom Jobim. Nessa introdução o público já pode conferir a capacidade vocal e a qualidade do repertório.”

 Outra novidade é estar acompanhada por um banda integrada por dez músicos – bateria, teclados, baixo, clarineta, sax, trombone de vara, violão, violino e violoncelo – e ainda um coro de quatro cantores, tudo sob a direção musical de Flávio Mendes. “Troquei pela banda para ficar mais jovem.”

Pela primeira vez, Bibi será ela mesma em cena, conversando com o público. Fala, por exemplo,da sua admiração pelo pai, o ator Procópio Ferreira (1898-1979). Em homenagem a ele recria um de seus famosos solos. O humor, como sempre,se faz presente, por exemplo, nas diferentes versões de MulherRendeira, que ganha desde a interpretação ligeira e elegante de um boulevard, até o tom aguerrido da uma militante cubana. Árias de óperas como Carmen e Rigoletto encerram o espetáculo dessa ‘jovem’, filha de Procópio eda bailarina argentina Aída Izquierdo. A avó de Abigail Izquierdo Ferreira, a Bibi, pertencia a uma tradicional família circense, os Queirolos, e seu avô era maestro. Fez jus a essa ascendência.

  Beth Néspoli

CADERNO 2

O ESTADO DE S.PAULO - SEXTA-FEIRA, 14 DE OUTUBRO DE 2005

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