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Tango
Bibi Ferreira & Miguel Proença
Bibi
Ferreira e Miguel Proença celebram suas raízes latinas em novo
disco lançado pela Biscoito Fino.
O encontro de uma grande dama do teatro com um pianista de
renome internacional resultou numa ode à memória. Ou melhor, às
memórias, num reencontro com alguns sons que permearam a
infância de ambos. Afinal, o espanhol foi o primeiro idioma de
Bibi. Já Miguel nasceu em Quaraí, nos pampas gaúchos, e é filho
de uma uruguaia.
“Até quinze anos, praticamente só escutava tangos. Minha cidade
é na fronteira com o Uruguai, e se ouvia muito as grandes
orquestras argentinas e uruguaias”, recorda Miguel. Com isso,
não demorou muito para que ele começasse a tocar, de ouvido,
algumas músicas.
Bibi, que se debruçou anteriormente sobre os repertórios de
Edith Piaf e Amália Rodrigues, considera natural a opção por
tangos. “Essas coisas a gente não escolhe, elas acontecem. É
intuitivo. Não são escolhas pensadas. Mas neste caso, pesa o
fato de meu primeiro idioma ter sido o espanhol. Minha mãe era
espanhola. O primeiro disco que ouvi era de tangos”.
Há cerca de três anos, Bibi pensou na possibilidade de gravar um
projeto de tangos. O tempo passou e só em 2004, por uma
coincidência, a idéia começou a se delinear. “Houve uma reunião
em minha casa, onde toquei alguns tangos. Bibi ficou encantada e
me propôs dividir este projeto com ela”, lembra Miguel.
O próximo passo seria encontrar um especialista com conhecimento
musical suficiente para assinar a produção musical do projeto.
Por sugestão de Olivia Hime, produtora do CD, chegou-se ao nome
de Ignacio Varchausky, integrante da orquestra argentina El
Arranque: “Bibi havia me convidado para produzir o cd, porém era
consenso que o repertório não devia ser óbvio e sim fruto de
pesquisa. Daí é que, estando em Buenos Aires, conversei com
alguns especialistas de tango e optei por Ignacio pois além de
excelente músico, jovem e tangueiro é um estudioso de tangos
antigos”, diz Olivia.
Profundo conhecedor do gênero, com apenas 29 anos, Ignacio
resgatou pérolas do tango, algumas pouco conhecidas, como Mi
Tango Triste, da dupla Aníbal Troilo e José María Contursi, e
Milonga Triste, de Sebastián Piana e Homero Manzi.
Assim, o disco constitui-se num panorama abrangente do que
melhor foi produzido em termos de tango, em suas principais
fases. A primeira faixa, Yo Soy el Tango, da dupla Domingo
Federico e Homero Exposito, é um bom exemplo da metalinguagem
recorrente a este estilo musical. Caminito, de Juan de Dios
Filiberto e Gabino Coria Peñolaza, que já ganhou versão
abolerada do Trio Los Panchos, retorna com toda a dramaticidade
de um tango.
O disco segue com a clássica Esta Noche me Emborracho, letra e
música de Enrique Santos Discépolo, que definia o tango como “um
pensamento triste que se pode dançar”. Por una Cabeza e Cuesta
Abajo assinalam uma das grandes parcerias do tango na década de
30, a de Alfredo Le Pera e Carlos Gardel, que foi chamado por
este para fazer letras em Paris.
Um dos grandes letristas da década de 40, José Maria Contursi,
filho do inventor do primeiro tango-canção, Pascal Contursi,
comparece ainda com La Noche que te Fuiste. Outra grande
parceria é a de Anselmo Alfredo Aieta e Francisco García
Jiménez, este um dos principais letristas e bandeonistas dos
anos 20, que aparece com Siga el Corso.
Virtuose do piano na década de 40, Osmar Maderna contribui com
Pequeña, parceria com Homero Expósito, tango desconhecido do
grande público. Mal de Amores, de Pedro Laurenz, e Fuimos
(sucesso na voz de Alberto Marino), de Homero Manzi e José Dames,
aparecem na versão instrumental, com solo de Miguel Proença.
Fechando o disco, Mano a Mano, um tango-canção do período
primitivo (1923), parceria de Gardel, José Razzano e Celedonio
Flores.
Tango é o registro fiel da união entre Miguel Proença e Bibi
Ferreira. Uma “união orgânica” segundo o pianista. O resultado é
a simbiose sincera e apaixonante de dois grandes nomes da cena
brasileira, coerente com o espírito “sujo” do tango, “la mugre”,
como dizem os argentinos, ou seja, uma música com dramaticidade,
fraseado, nostalgia, ritmo. Ao ouvir Miguel e Bibi, Ignacio
Varchausky sentenciou: “Eles têm a sujeira do tango”.
Texto: Sidimir Sanches
Reproduzido de
http://www.biscoitofino.com.br/bf/cat_cada_cd.php?id=167
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Ficha Técnica
Idealização - Bibi Ferreira
Direção musical - Ignacio Varchausky
Produção - Olivia Hime
Gravado e mixado no estúdio da Biscoito Fino entre agosto e
setembro de 2005 por Rodrigo de Castro Lopes
Assistentes de estúdio - Lucas Ariel, Fernando Prado e Erik
Medeiros
Masterizado na Visom Digital por Luiz Tornaghi
Assistente de produção - Flávio Santos
Afinador de Piano - Antônio Silva
Fotos - Léo Aversa
Design gráfico - Ruth Freihof (www.passaredo-design.com.br)
Assistente - Daniel Kusaka
UMA REALIZAÇÃO BISCOITO FINO
Direção geral - Kati Almeida Braga
Direção artística - Olivia Hime
Coordenação de produção - Martinho Filho
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Músicas
01. Yo Soy el Tango (Domingo Federico / Homero
Expósito) 2m39s
02. Mi Tango Triste (Aníbal Troilo / José María
Contursi) 5m11s
03. Caminito (Juan de Dios Filiberto / Gabino
Coria Peñolaza) 3m33s
04. Esta Noche me Emborracho (Enrique Santos
Discépolo) 2m50s
05. Por una Cabeza (Carlos Gardel / Alfredo Le
Pera) 3m09s
06. Milonga Triste (Sebastián Piana / Homero
Manzi) 4m42s
07. Mal de Amores (Pedro Laurenz) 3m24s
08. Cuesto Abajo (Carlos Gardel / Alfredo Le
Pera) 4m43s
09. La Noche que te Fuiste (Osmar Maderna /
José María Contursi) 4m38s
10. Fuimos (José Dames / Homero Manzi) 5m46s
11. Siga el Corso (Anselmo Alfredo Aieta /
Francisco Garcia Jiménez) 2m57s
12. Pequeña (Osmar Maderna / Homero Expósito)
3m44s
13. Mano a Mano (Carlos Gardel / José Razzano)
3m26s
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Tango ****
Bibi Ferreira faz dramáticas leituras de clássicos
argentinos ao lado de Miguel Proença
Mauro Ferreira
Atriz que sempre aliou grande carga dramática a musicais
como Gota D’Água (1975) e Piaf (1983), Bibi Ferreira é
intérprete moldada para letras teatrais como as dos
cancioneiros de Amália Rodrigues, Chico Buarque e Edith
Piaf, cujas obras já foram entoadas por ela em espetáculos e
discos. Gravado com o pianista erudito Miguel Proença,
Tango, o novo CD da artista, se enquadra nessa vertente
dramática e soa coerente com a trajetória da intérprete. Até
porque, filha de mãe espanhola, Bibi aprendeu a falar
castelhano antes do português.
Tango tira o mofo com que normalmente o ritmo é apresentado
aos brasileiros. A produtora Olivia Hime convocou um jovem
músico – Ignacio Varchausky, líder da moderna orquestra
argentina El Arranque – para fazer a direção musical do
disco. Obviamente calcado nas interpretações de Bibi, embora
Proença não se limite ao papel de mero acompanhante da
artista, o álbum prima por conciliar no repertório clássicos
do gênero (“Caminito”, “Mano a Mano” e “Por una Cabeza”) com
relíquias esquecidas até pelo público argentino. São os
casos de “Pequeña” (1949), tango impregnado de lirismo
realçado pela voz de Bibi, e de “Mi Tango Triste” (1946),
uma daquelas peças densas do gênero que fazem a
alegria de qualquer cantora dramática. Como Bibi Ferreira.
No compasso dramático.
Reproduzido de Isto É Gente Online
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TANGOS: BIBI
FERREIRA & MIGUEL PROENÇA
- BÁLSAMOS DILACERANTES -
Nilson Calasans
Esqueça o óbvio e o
previsível. O espetacular, no sentido grandioso e
quantitativo do termo: o CD TANGOS, de BIBI FERREIRA e MIGUEL
PROENÇA, é
minimalista, de simplicidade suprema e sublime; pungente,
sofisticadíssimo;
muito sutil em sua concepção intensa e, principalmente,
camerística.
Sua
sinceridade é uterina, fantasmagórica e lírica. Melancolicamente
poética.
Lançado impecavelmente pela admirável BISCOITO FINO, traz
encarte primoroso,
a portar, inclusive, pertinente glossário acerca de termos
obsoletos ou
deveras afeitos à cultura portenha. Delicioso!
MIGUEL PROENÇA é um concertista excepcional, consagrado, de
excelência
mundialmente reconhecida. Possivelmente, sua verve gaúcha, alma
cosmopolita
e malemolência carioca, sustentam tamanha versatilidade. Sua
obra COLETÂNEA
PIANO BRASILEIRO, com dez CDs, é emblemática de seu virtuosismo
lapidar.
Imperdível e notável!
Embevece a direção musical de IGNÁCIO VARCHAUSKY, dispondo temas
castiços e
populares em roteiro enormemente sábio. Se a melodia é mais
singela, recebe
tratamento harmônico majestoso, como ocorre em ESTA NOCHE ME
EMBORRACHO e
CAMINITO - onde o diretor responde inclusive pela intensidade
mordaz do
emocionante baixo acústico. Se o tema já é complexo e rico, ou
mais manjado,
tratamento minimalista e lúdico é dado à notas e acordes
escolhidos,
literalmente, a dedo, pela beleza, economia e adequação.
Destacam-se, então,
CUESTA ABAJO - obra-prima de GARDEL / PERA (1934), e a
antológica POR UNA
CABEZA . O sutil artifício, ao construir e explorar um contraste
melodia /
harmonia, remete o ouvinte a espécie de caleidoscópio musical,
delega-nos imagensonoras múltiplas, intensas; de resultados e efeitos
admiráveis;
cuja maior finalidade, certamente, é a de coibir o óbvio e o
lugar comum. Um
grande e sutil acerto!
BIBI convoca seus anjos e demônios que, democratica e
cordialmente, então,
comparecem; plenos, decididos e despudorados. Seu berço
hispânico e talento
atemporal e titânico conferem-lhe domínio pleno de seu idioma
primeiro e, do
seu canto, faz linguagem, a cada respiração, pausa, intenção,
extensão ou
corte. Sua performance é visceral e matriarcal; ferina e ferida.
Resgatar a
alma hispânica, ao certo, exigiu-lhe haver-se com as próprias
entranhas. E
ninguém o faz impunemente. Você a constatará, algo entorpecido,
esvair-se,
ora em dor, ora em sangue, por vezes em ironia, luz e ternura,
nas
belíssimas YO SOY EL TANGO, MILONGA TRISTE, LA NOCHE QUE TE
FUISTE, PEQUEÑA
- esta, uma valsa encantadora e de meandros traiçoeiros. E em um
MANO A MANO
apoteótico!
Cabe destacar os excepcionais arranjos de DIEGO SCHISSI, fiéis à
concepção
algo dantesca da obra, grandes responsáveis pela elegância,
densidade
e dimensão do trabalho; arranjos que são cortinas, cenários,
âncoras e
contra-pontos formidáveis e sensíveis - bálsamos e dilacerantes.
A melancolia portenha, seu cerne, poucas vezes esteve tão
fidedignamente
representada e, também por este viés, a obra nos captura, pois
espelho das
dores do viver, do existir, decorrentes de (nossas) incansáveis
buscas pelo
que não há; do (nosso) eterno pranto pela perda do que jamais
tivemos ou
fomos. Por isso, talvez, emocione tanto...
Haja continuação, um espetáculo ou DVD - certamente porvir,
sugiro e rogo
que haja lugar, nessa memória afetiva, para UNO, de MORES e
DISCÉPOLO; este,
já bem representado neste CD. Bravo. Bravíssimo! Essa BIBI...
Bibi Ferreira canta
tango em CD
Acompanhada do piano clássico de Miguel Proença, ela
reúne 13 canções que captam a alma portenha
Beatriz Coelho
Silva
Depois do repertório de Edith Piaf, Amália Rodrigues,
clássicos da canção brasileira e até um rap, só faltava
mesmo Bibi Ferreira cantar tangos. Não falta mais, pois
ela acaba de lançar um CD com 13 títulos tradicionais ou
pouco conhecidos, que leva o nome do gênero como título.
Desta vez, trocou a grande orquestra que a acompanha em
Bibi in Concert pelo piano clássico de Miguel Proença. O
que, à primeira vista, é uma guinada na carreira dos
dois é uma volta às origens.
"Minha mãe (a corista Aída Isquierdo Ferreira) era
argentina e reunia amigos em casa para fazer música.
Então, ouvi muito tango desde criança. Aprendi espanhol
junto com o português e nós tínhamos um dialeto em casa,
falávamos as palavras ao contrário", lembra Bibi. "Nasci
na fronteira com o Uruguai (em Quaraí, às margens do
rio) e até os 15 anos o tango era a música que ouvia,
até por ser filho de uma uruguaia", conta Proença. "As
grandes orquestras do gênero visitavam minha cidade ou
eu ia a outras maiores para ouvi-las."
Mesmo tendo essa intimidade com a música dos subúrbios
pobres de Buenos Aires, Bibi e Proença não se arriscaram
a gravar sem a assessoria de um especialista para
escolher o repertório e orientar a interpretação.
"Quisemos fugir ao óbvio e buscar a essência do tango",
diz Bibi, evidenciando o rigor que a acompanha desde sua
estréia (oficial), aos 18 anos, contracenando com o pai,
o ator Procópio Ferreira. "Queria interpretá-los sem
perder o que os portenhos chamam de 'la mugre', a
sujeira do tango, mas atento às exigências técnicas da
música", completa Proença.
O jeito foi importar o maestro Ignacio Varchausky que,
aos 29 anos, faz parte da orquestra El Arranque, de
Buenos Aires. Ele ajudou a selecionar o repertório que
mistura clássicos como Mano a Mano, Yo Soy el Tango e
Caminito com músicas praticamente inéditas, como Cuesta
Abajo (gravada apenas por Carlos Gardel, compositor com
Alfredo Le Pera) ou La Noche Que te Fuiste. Há ainda um
tango instrumental, Fuimos, em que Proença junta sua
técnica erudita às manhas do gênero. Bibi mostra sua
bossa especialmente em Siga el Corso (outra quase
inédita) e Esta Noche me Emborracho.
"Para esse resultado, Ignacio escolheu o repertório
conosco, acompanhou a gravação e voltou na mixagem",
conta a diretora artística da Biscoito Fino, Olívia
Hime, também produtora do disco. "Ele é praticamente um
menino, mas de uma seriedade impressionante no trabalho.
No fim, disse que quem não sabe a nacionalidade de Bibi
e Miguel pensará que eles são portenhos."
Os dois têm uma história na gravadora Biscoito Fino.
Ele, com caixa de dez CDs Piano Brasileiro, em que
interpreta nossos mestres do instrumento, e ela com o CD
e o DVD Bibi in Concert. Apesar disso, eles não têm
plano para um show com o repertório do disco. Bibi se
divide entre as apresentações de seu show (atualmente em
São Paulo) e as muitas peças que dirige. A mais recente,
Rádio Nacional, é um sucesso no Rio. Como concertista,
Proença tem agenda fechada com muita antecedência. Mas
eles sonham com o espetáculo. "Queria lançá-lo no
programa do Maradona, lá em Buenos Aires", brinca o
pianista. "Bom mesmo seria fazer um show com uma
orquestra original de tangos", ressalta Bibi.
Mas, por enquanto, eles comemoram a aproximação com um
público que não tinha intimidade com o tango. "Os
músicos de minha banda me fizeram uma surpresa. Pegaram
uma das músicas e fizeram um arranjo para mim", conta
Bibi. "Ficou esquisito, mas valeu a homenagem." Proença
gostou de falar com um público mais informal. "Por causa
desse disco, já dei entrevista até para a Rádio
Nacional. Quando ia imaginar que o tango me levaria a um
público como este?"
Reproduzido do Jornal O Estado de São Paulo
Quinta-feira, 9 fevereiro de 2006
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