Flávio Rangel

 

Vi Edith Piaf se apresentando ao vivo - e poucas coisas sobre um palco me impressionaram tanto. Jamais me esquecerei dos dois espetáculos que vi dela, no Lord Palace Hotel de São Paulo, se não me engano em 1956. Piaf era um fenômeno - pequenina e frágil, sempre com um vestidinho preto, sem utilizar nenhum recurso de espetáculo. Lembro-me que disse numa entrevista que se apresentava assim porque se houvesse qualquer outra coisa à vista - vestidos deslumbrantes, grandes orquestras, elementos cenográficos, o público não olharia para ela, "pois era muito feinha". E ela queria, simplesmente, que ouvissem sua voz. Mas não apenas sua voz era prodigiosa; o magnetismo e o carisma que se evolavam dela faziam o público perceber imediatamente porque ela tinha um tão enorme sucesso internacional. Era também uma atriz e uma comediante de primeira - de modo que seu trabalho era, na plenitude, uma "interpretação" dos temas que cantava e compunha.

De modo que logo me interessei em dirigir uma peça sobre a vida de Edith Piaf, assim que fui convidado: especialmente porque o papel seria representado por Bibi Ferreira, essa fulgurante personalidade do teatro brasileiro. Bibi é minha inveja e admiração. Como atriz, eu a admiro pelo seu imenso talento, pela minúcia do seu trabalho, pelo seu incansável profissionalismo, pela riqueza de suas possibilidades como atriz, cantora e bailarina. Como diretor , eu a invejo pela justeza de suas produções, sempre tão bem acabadas e realizadas com o objetivo de captar a emoção e o interesse do público. Como somos também muito bons amigos, os ensaios correram num clima muito agradável.

Piaf, de Pam Gems, é uma peça com várias versões. O primeiro texto que estudamos difere do segundo, e ambos diferem da versão representada primeiramente em Londres e depois em New York. Nosso espetáculo é uma mistura dos três, e é uma concepção absolutamente original, sem nada que relembre outros espetáculos feitos a partir da mesma peça. Pretendemos um espetáculo ágil e simples, pois, como a própria Piaf diz na peça, ela não precisava de muita coisa - "um acordeon e um refletor" bastavam. Piaf morreu há vinte anos, e quisemos que mesmo o público mais jovem, que não a conheceu, tivesse dela uma idéia nítida e exata.

Espero que vocês se divirtam e se emocionem.

 

 

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