Quero apresentá-los à minha família: Aida,
minha mãe, corista da Cia. de Revistas Velasco; minha tia Dora,
contorcionista; minha prima Lídia, trapezista; meus tios- avós
acrobatas - os Queirolo; os palhaços Chicharrão, Chic-Chic e
Torresmo; meu primo Verdaguer - humorista; meus tios vem dos
Pampas distantes - os gloriosos Podestá - fundadores do Teatro
na Argentina; meus bisavós maternos - que se conheceram
cantando a Ópera Marina em Montevidéu; meu avô materno o
Maestro - Regente Antonio Izquierdo; papai que vocês conheceram
e com quem riram tanto e vovó Mama Irma que não tendo nenhuma
aptidão artística, alugou um camarote para assistir a vida.
Agora, deixem-me dizer o que andei fazendo:
passei estas últimas semanas trabalhando neste espetáculo,
dando o maior amor de mim. É uma troca... Piaf foi só amor - esse amor transborda em cada canção, transbordou em todos os
seus ensaios e espetáculos. Um amor que abraçou a todos nós,
um por um dos jovens atores, Jalusa, Monica, Capeletti, Karan,
Julinho, Angelo, Rômulo, Helio, Nelson, Pierre nosso Jorge
Ramos, Pedro Rovai, mais o Maia, Mário, João, Elias, Zezinho,
Irene, Álvaro, Luis, Carlos, minhas queridas companheiras
Íris, Léa e Flávio Rangel, que com sua magnífica concepção
do espetáculo e acompanhado pelos talentos de Kalma Murtinho,
Ratto, Millôr, Melim e Pichim - nos compreendeu em nossos
momentos de indecisão e nos cercou também desse amor cheio de
Piaf.
Estou alegre com tudo e com todos. Estou
feliz. Estou no palco. É outra vez Piaf que me contagia - Piaf trágica, perfeccionista,
cruel, agressiva. Piaf piadista, palhaça, um tremendo senso de
humor - moleca: "la Môme Piaf". Ela nos faz rir e sua
gargalhada se espalha pela sua lembrança nesta peça.
O momento de entregar ao público um
espetáculo, é aquele mergulho no escuro do desconhecido, da
grande aventura de rasgar os mares ou as estrelas. Existe um
momento de êxtase, de saciar a sede, de respirar o amor ainda
insatisfeito. É a vida no máximo da entrega. Este momento
agora pertence a vocês - o público - ele é todo seu com todas
as emoções que passei pela minha vida, momento por momento,
mas que guardei para hoje devolver em mais um personagem, a
gloriosa Piaf - que agora considero minha amiga - gosto dela -
convivendo com ela nos ensaios aprendi a amá-la, vai ser bom
conviver com ela todas as noites, como Piaf o fazia com seus
amores e canções.
Aí está todo o mau e o bom; o estudo e o
abandono, o progresso e a pausa. Aí vai a saudade dos outros
palcos, das outras peças. Dos que também passaram pela minha
vida, do que fiz, do que fui e do que sou. As pessoas e as
coisas me moldaram bem ou mal - não vem ao caso - o que aparece
é que tudo isto foi a base para um salto em que prendemos a
respiração e depois gritamos pela vida afora, como Piaf o fez
pela primeira vez cantando pelas ruas de Paris.
E assim, chegamos à estréia de mais
uma peça. Por tudo isso... e principalmente para vocês que estão aqui hoje,
obrigada por terem vindo. A meu pai, o ator Procópio Ferreira, dedico esta
noite. Também a Carlos Lage e Paulo Pontes e é claro,
a você Edith Giovanna Gassion - Piaf!
Bibi Ferreira