Bibi Ferreira: uma diva brasileira com certeza

Roberta Oliveira

 

 

Em 2003, Bibi Ferreira vai dirigir “Only you”, de Consuelo de Castro; “DNA, a comédia”, de Thiago Santiago; “A babá”, de Juca de Oliveira, e, se o patrocínio sair a tempo, “Cruzes, festa surpresa”, de Carlos Thiré. Ufa! Sem falar no show de Roberta Miranda e nas peças que trazem a sua assinatura já em cartaz. “Sete minutos”, com Antonio Fagundes, é uma delas. E sem falar ainda nos shows que ela mesma vai fazer, nas peles de Amália Rodrigues (“Bibi vive Amália” faz as últimas apresentações a partir de hoje no Rival) e Edith Piaf, pelo Brasil e pelo mundo, e no desfile da Viradouro, que este ano leva à avenida a trajetória da atriz e diretora. Modesta, Bibi só encontra uma explicação para tantos convites:

— Dizem que eu dou sorte — brinca Bibi, de preto da cabeça aos pés. — Fiz “Gota d’água” de preto, Piaf e Amália também. A cor me dá sorte. Acho que vou desfilar assim.

 
A estréia como diretora foi com o pai, Procópio

Como se todo mundo que costuma usar um pretinho básico fizesse sucesso, não é?

— Boa essa — diz, rindo.

Brincadeiras à parte, Bibi não só perdeu a conta dos convites que recebeu em 2003, como tampouco tem mais idéia de quantas peças pôs em cena em 60 anos de carreira. Mas, como a primeira peça a gente nunca esquece, ela se lembra do nome e tem os detalhes na ponta da língua.

— Conheci a escritora Clement Dane na Inglaterra e pedi que me deixasse traduzir uma de suas peças, “Divórcio”. Quando terminei, ela fez questão de que eu fosse na casa dela ler. Era a primeira vez que ouvia a peça em português — lembra Bibi, que, de volta ao Brasil, convenceu seu pai, o ator Procópio Ferreira, a montar o texto. — Pedi para dirigir, mas antes de aceitar, ele quis ler. Papai foi ficando inebriado e eu usei um bom argumento: disse que era a nossa história, a história de dois loucos.

“Divórcio” estreou em 1948. Foi a primeira vez em que Procópio permitiu ser dirigido. Foi a primeira vez que Bibi dirigiu uma peça. E não parou mais. A experiência lhe trouxe ensinamentos que ela reputa fundamentais. Por exemplo: uma peça não pode, em hipótese nenhuma, ser ensaiada por mais do que quatro semanas.

— Senão os atores começam a ansiar pela presença do público, e se a peça não estréia, apodrece — ensina Bibi. — A estréia é um momento decisivo, em que se descobre se vai dar certo, ou não. Os ensaios podem ter sido ótimos, e mesmo assim a estréia pode ser péssima.

Mesmo com a experiência adquirida ao longo dos anos, Bibi está sempre tentando se reciclar. De uns tempos para cá, ela diz ter mudado radicalmente seu jeito de ensaiar. Ela dava todas as dicas aos atores e hoje deixa que eles descubram sozinhos o que fazer.

— Deixo o ator à vontade nas leituras enquanto as minhas assistentes anotam tudo o que ele faz. Depois, mesmo que ele não se lembre de nada, é só pegar as anotações — explica Bibi. — É novo para mim e para eles. E tem dado certo.

Como se o método de Bibi precisasse de ajustes. O ator e diretor Claudio Botelho, que foi dirigido por ela no musical “Na bagunça do teu coração”, muito antes de ela usar esta nova técnica, costuma dizer que ela “sabe tudo”:

— Você só entende o que é teatro depois que trabalha com Bibi Ferreira. Ela é a síntese de tudo que a gente quer ser; a antítese da chatice e da enrolação; sabe o que quer, onde quer e como quer; e não gasta mais que cinco minutos pra te fazer entender isso. Ter estado junto dela em qualquer processo é o suficiente para entender que não existe “processo”, o que existe é talento.

Prêmios, no entanto, Bibi nem se lembra qual foi o último que recebeu. Talvez, avalia ela, porque costuma dirigir comédias e musicais e nem sempre os dois gêneros, principalmente o primeiro, são vistos com bons olhos.

— Em compensação, os atores que dirijo ganham prêmios — diz Bibi, lembrando-se de Edwin Luisi, que ganhou os prêmios Shell e Governador do Estado com “Tango, bolero e cha-cha-chá”, e Milton Gonçalves, que conseguiu o mesmo com “Conduzindo Miss Daisy”. — Viu como dou sorte?


Para Luisi, Bibi tem o toque da genialidade

Em vez de sorte, Luisi encontra outros adjetivos para justificar o sucesso da peça.

— Ela é modesta. Há casos em que sorte não basta, é preciso um toque de genialidade. E Bibi tem esse toque — elogia Luisi, lembrando que Bibi nunca perde o bom humor.

Bom humor, aliás, que a diretora usa para justificar, junto com a sorte, a penca de convites que vêm recebendo.

— Mantenho um clima leve, agradável. Rimos muito, comemos muito — descreve Bibi, que tem outros convites para quando encontrar brecha na agenda: “Lua de limão”, de Paulo César Feital, e “Bandeiras de retalhos”, de Sérgio Ricardo. — Estou impressionada com a enxurrada de brasilidade.

Entre as parcerias, a com Juca de Oliveira é a de maior sucesso. Dele, Bibi já dirigiu “Meno male” e “Todo gato vira-lata tem uma vida sexual mais saudável que a nossa”, entre outras, e agora se prepara para montar “A babá”, que estréia em maio em São Paulo.

— Descobriram que dirigir comédia não é tão fácil assim — diverte-se Bibi. — Dirigir comédia é dramático. Mas eu tenho o tempo cômico de Procópio. Fazer comédia é como tocar piano, é preciso não apertar demais as teclas.

Com tanto convites, nem sempre Bibi consegue tocar os próprios projetos. Seu maior desejo, como diretora, é levar à cena “Otelo”, ópera de Verdi inspirada na peça de Shakespeare.

— E não posso morrer sem dirigir um Shakespeare — diz. Enquanto o futuro não chega, Bibi revive o passado, com Amália e Piaf. Além de ver sua trajetória na avenida.

— É a chance de quem nunca foi ao teatro me ver — comemora, cantarolando o samba na bicicleta. — Está decorado. Estou pronta.

                   

BIBI FERREIRA/‘BIBI VIVE AMÁLIA’ Bibi presta homenagem a cantora portuguesa Amália Rodrigues. Participação da bateria da escola de samba Viradouro.

Teatro Rival BR: Rua Álvaro Alvim 33, Cinelândia — 2240-4469. Qua e qui, às 19h30m. Sex e sáb, às 20h30m.

Publicado pelo jornal O Globo - 19 de fevereiro de 2003

 


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