"...Estou lidando com um ser humano maravilhoso, impossível de ser copiado e imitado. A responsabilidade é muito grande. É a admiração que me leva a fazer isso..." BF.

Às 22h do próximo dia 1º, Bibi vai concluir - ou iniciar? - na Ribalta, mais um capítulo na sua longa história de espetáculos musicais. 

Bibi falou sobre o show ao jornal O Globo-Barra. Leia  a entrevista.    

 


 

Entrevista

 

Alessandro Soler - "O Globo-Barra" - Domingo - 20 de maio de 2001

 

A pesquisa histórica que Bibi Ferreira diz ter feito para viver Amália Rodrigues foi realizada ao longo de toda a carreira da diva brasileira: Bibi sempre escutou Amália. Para a atriz e cantora, falta conhecimento sobre o fado porque poucos artistas tiveram a coragem de sair de Portugal.

O Globo: Você e Amália chegaram a se encontrar para discutir o projeto do show?

Bibi Ferreira: Não. Ela queria que eu a interpretasse, já tinha me visto 14 vezes com "Piaf' , em Lisboa, mas, não chegamos a tratar do projeto. A idéia do espetáculo foi do Tiago Torres da Silva, um jovem muito talentoso, diretor do show e meu amigo. Ele trabalhou com Amália por dez anos e a acompanhou em mais de 300 shows pelo mundo.

 

Bibi na "Ribalta" - foto de Arthur Max - maio de 2001.

O Globo: Amália a assistiu 14 vezes?

BIBI: Durante a encenação, sempre ouvia dizer: "Amália está aí!". Ela gostava muito da
minha interpretação para "L'accordèoniste", que, por sinal, é uma das músicas mais difíceis de "Bibi canta e conta Piaf".  Muito popular e difícil.

O Globo: E cantar fado é muito difícil? Basta ser uma cantora ou é preciso ser uma intérprete para traduzir a tristeza inerente à cultura portuguesa?

Bibi: São tantas coisas necessárias...  Não é só cantar o fado. A primeira coisa é ter vontade de fazer, acreditar, gostar simplesmente do que vai fazer.
Estou lidando com um ser humano maravilhoso, impossível de ser copiado e imitado. A responsabilidade é muito grande. É a admiração que me leva a fazer isso.

O Globo: Você fez uma pesquisa histórica da vida de Amália?

Bibi: Não há necessidade de pesquisa histórica. A grande pesquisa que eu fiz foi ouvir Amália cantar, muito tempo. Tudo dela está na canção, não no que um biógrafo, um crítico ou um amigo possam dizer. Ela cantava e transmitia essa força brutal, uma dádiva de Deus, uma voz deslumbrante, extensa, de um tom muito bonito.

O Globo: Você fala como Amália o tempo todo no show?

Bibi: Sim, falo o tempo todo com uma voz, não como esta que você está ouvindo, mas muito mais empostada. É um trabalho de apuro e dedicação muito grandes.

O Globo: Você assistiu ao espetáculo de Filipe La Féria, que está em cartaz no Teatro Politeama em Lisboa? "Concerto para Amália"... tirou alguma inspiração dali?

Bibi: Uma beleza. Adorei. Não havia nada para me inspirar, porque aquilo é tão Amália... E
o que eu vou fazer também é tão Amália...

O Globo: São múltiplas Amálias, então?

Bibi: (risos) Múltiplas Amálias, mas uma só. Dá para me inspirar no respeito com que eles fizeram aquela homenagem. Assisti três vezes. É muito ousado, à la Broadway, uma coisa apoteótica. Os músicos são excelentes, grandes violonistas, grandes guitarristas.

O Globo: No ano passado, a coreógrafa alemã Pina Bausch encenou em São Paulo "Mazurka fogo" e trouxe movimentos ousados, sob os acordes do fado de Amália e Alfredo Marceneiro. Mas isso aconteceu porque ela passou três semanas em Lisboa com sua companhia. Na sua opinião, falta conhecimento de artistas e público sobre o fado?

Bibi: A divulgação do fado foi muito pequena -  foi só Amália Rodrigues e mais ninguém. O nosso idioma é também uma barreira. O fado não foi muito divulgado porque não houve, além de Amália, artistas com a coragem de sair de Portugal.

O Globo: Dizem que você é a pessoa perfeita para vivê-la, porque além de cantar muito bem existe a semelhança física.

Bibi: Já me disseram isso várias vezes. Em Portugal foi impressionante o que aconteceu.
Peguei um táxi e me sentei ao lado do motorista. Ele disse: "Ah, meu Deus! É Amália! Res-
suscitou Amália Rodrigues!" (risos). Impressionante, não?

O Globo: Além de "Letti e Lotte" (em cartaz no Teatro Sesi), o que você está dirigindo?

Bibi: Nada! Estou concentrada nisso aqui! É muita coisa: são 27 canções! O espetáculo
tem 1h30m, ou 1h40m, por aí.


O Globo: Qual foi o papel mais difícil que você já fez?

Bibi: "O noviço", de Martins Pena: um homem de 21 anos.

O Globo: Quando foi isso?

Bibi: Faz tempo! Quando eu tinha 50 quilos (risos).

O Globo: E foi difícil?

Bibi: Sim, foi difícil chegar aos 50 quilos (risos). A voz era muito colocada, mas o mais difícil eram as mãos. Sempre fiz papel de mulher; na primeira vez em que fui fazer um homem, e um padre, não sabia o que fazer com elas.

O Globo: Existe ainda algum papel que você queira fazer? Algum sonho?

Bibi: Sonho, não... Nem agora, nem antes. Nunca tive paixão por fazer um papel.

O Globo: ... E como ele acontece? As coisas vão aparecendo, simplesmente?

Bibi: As coisas vão aparecendo, simplesmente, e se tornam especiais ou não. É mais simples do que a gente pensa. Essa coisa dramática nunca existiu na minha vida. Não sou dada a esses rompantes. E nunca tive muitos desejos. Aprendi a não desejar. E fiquei na minha.

 


 

 

 

Suas impressões 

 

 

 

O fado "Lisboa Antiga", arquivo midi que você ouve ao fundo, foi seqüenciado por Fernando de Brito Vintém (http://www.midiportugal.com/) e faz parte do espetáculo "Bibi vive Amália"., foi seqüenciado por Fernando de Brito Vintém e faz parte do espetáculo "Bibi vive Amália".

 

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