Cantar fado não é algo simples.
Requer, além de boa voz, tremenda concentração do intérprete.
As músicas do gênero trazem, intrínsecas, uma forte
carga dramática, que propiciam uma interpretação
teatral mesmo. Nesse sentido, a portuguesa Amália
Rodrigues foi a grande estrela do fado. Conhecida no mundo
inteiro graças à perfeição da maneira que se entregava
às músicas, ela deixou um legado de interpretações únicas,
a exemplo de Coimbra e Ai Mouraria. Passados quase três
anos da sua morte, Amália Rodrigues recebe uma homenagem
à altura de sua obra. Bibi Ferreira, a grande dama do
teatro nacional (ao lado só de Fernanda Montenegro),
realiza o show-tributo Amália Vive Bibi, em única
apresentação, hoje, às 21h, no Teatro da UFPE.
“Considero este o trabalho mais
difícil da minha carreira, é laboriosíssimo. O fado
português é difícil de ser cantado. E canto no português
verdadeiro, com o sotaque marcado. Ensaiei por três
meses, dois sozinha e um com o maestro”, conta a atriz,
que se dedicou ao complicado trabalho de falar
corretamente o português, sílaba por sílaba.
As dificuldades enfrentadas pela
brasileira foram superadas com um sabor especial. Com o
espetáculo, Bibi comemora 60 anos dedicados ao teatro e
à música. Outra recompensa foi ter sido ovacionada pela
platéia, na turnê que realizou por Portugal, em novembro
de 2001. “Foi a maior ovação da minha carreira, fiquei
muito feliz. Engraçado é que os portugueses aqui vão me
ver meio assim, desconfiados, mas todos saem chorando”,
diz.
Esses acontecimentos figuram como
mais um troféu, para quem colecionou elogios desde que
subiu ao palco pela primeira vez, aos 17 anos, pelas mãos
do pai famoso, Procópio Ferreira.
O melhor de tudo é que Bibi não
pensa em parar tão cedo. Atualmente, além do musical
sobre Amália, ela assina a direção de mais seis peças
em cartaz e ensaia duas. “É a minha vida. Não tenho
quem me sustente, se fosse rica, talvez não fosse assim.
Se bem que tenho muita disposição, o trabalho me mantém
viva. No fundo, é só uma questão de disciplina”, diz
Bibi, que se orgulha também de comemorar cada aniversário.
“Festejo Natal, Páscoa, aniversário, tudo. Sou a
rainha dos festejos. As pessoas perguntam muito sobre a
minha idade, mas não pareço mesmo o quanto tenho. Não
me sinto pesada, estou ótima.”
REPERTÓRIO – Nem só de
fados é composto o repertório de Bibi Vive Amália.
“Ela era fora do comum. Cantava muitas músicas
estrangeiras, em italiano, francês, inglês, canções
ciganas e até brasileiras”, explica Bibi. São três as
músicas brasileiras integrantes do programa do show: Lua
luar, Coqueiro em Itapoã e Coqueiro.
Engana-se também quem aposta
apenas em fados tristes, sobre amores mal resolvidos. “O
fado é um estilo variado, não é só trágico. A casa
portuguesa, por exemplo, que todo mundo conhece, é
alegre”, salienta a artista.
A seleção do repertório foi
feita em conjunto com o diretor Tiago Torres da Silva, que
veio de Portugal especialmente para convidar Bibi para
desenvolver o projeto a pedido de Amália Rodrigues. Isso
foi uma ano antes da morte de Amália. A intenção
inicial era de que ela viesse ao Brasil, participar da
estréia do musical. Com a morte de Amália, o projeto
ficou engavetado por três anos.
A fatalidade contribuiu para que
as cantoras nunca trocassem uma palavra sequer. “Nos
encontramos uma vez, numa festa, e ficamos uma olhando
para a outra. As pessoas pensavam que já nos conhecíamos
e, por isso, não nos apresentaram”, diz Bibi.
O encontro frustrado, no entanto,
não impediu que a fadista assistisse a vários espetáculos
da brasileira. “Ela viu muitos dos shows que fiz sobre
Piaf. Eu a admirava tanto quanto ela a mim, mas nunca
poderíamos ser amigas. Tivemos vidas complicadas, com
muitas viagens, isso não permitiria uma amizade sólida.
Mas fazer este espetáculo sobre Amália é devolvê-la
aos brasileiros, que a amaram tanto”.
No palco, Bibi reproduz várias
citações da cantora portuguesa. A apresentação no
Recife tem a participação do guitarrista português
Carlos Gonçalves, parceiro e músico de Amália.