Bibi Ferreira vai à UFPE

 

Foto Guga Mélgar.

 

Diva do teatro brasileiro faz apresentação única neste sábado à noite

Tatiana Meira
Da equipe do Diário de Pernambuco

 

A voz não corresponde à de uma pessoa com 80 anos. Dona de uma vitalidade incomum para a idade, a atriz Bibi Ferreira completa seis décadas de carreira prestando uma homenagem à grande representante do fado, a portuguesa Amália Rodrigues. O público pernambucano - segundo a ver o espetáculo no Nordeste, depois de Natal - recebe Bibi Vive Amália amanhã, às 21h, em apresentação única no Teatro da UFPE.

  O encontro entre as duas divas não aconteceu na vida real, mas é trazido ao palco através de 28 canções e pequenos textos detalhando a trajetória de sucesso de Amália Rodrigues, que veio de uma família pobre e começou a trabalhar aos 15 anos, vendendo frutas no Cais da Rocha, em Alcântara (Portugal). "Ela assistiu ao meu espetáculo sobre Edith Piaf umas 12 a 14 vezes. Não sei se via o show inteiro, mas disse aos amigos querer que eu a interpretasse porque gostava da minha maneira de cantar certas coisas, com emoção. Nos encontramos algumas vezes, mas nunca conversamos", conta a eloqüente dama do teatro brasileiro.

  Bibi Vive Amália intercala 28 músicas e textos, num repertório escrito e dirigido pelo encenador português Tiago Torres da Silva, de 31 anos, que acompanhou Amália durante quase seis anos em suas turnês pelo mundo. "É muito difícil falar perfeitamente o português castiço e fiz uma pesquisa detalhada para pronunciar as palavras do jeito que eles falam", reforça a atriz, que utiliza no show depoimentos da própria Amália Rodrigues retirados de entrevistas e documentários.

  Produzido pela Raio Lazer, o cuidado em recriar o clima português do show está nos mínimos detalhes e explica a boa acolhida em outras cidades brasileiras, como Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, onde o espetáculo fez sua estréia em 1º de junho do ano passado, dia do aniversário de Bibi Ferreira.

  O guitarrista português Carlos Gonçalves, que trabalhou com Amália Rodrigues por 28 anos (ele foi parceiro da fadista na canção Lágrima), é acompanhado dos músicos Victor Lopes (violão), Irene Mutanen (acordeon) e Jamir Torres (bateria). Adireção musical e os arranjos são de Nelson Melin, o mesmo responsável por esta função no espetáculo Bibi Canta Piaf.

  Fora a jovialidade que a ajuda a dar graves e agudos sem sair do tom, a caracterização de Bibi Ferreira para sua Amália Rodrigues fica ainda mais fiel devido à semelhança física entre as duas. "Ela era uma mulher muito bonita, que só tinha uma tristeza. Não era muito alta e disfarçava usando tamancos grandes", revela Bibi, que também mede 1,57 metros.

  No Nordeste, o espetáculo por enquanto só foi visto apenas em Natal, no Rio Grande do Norte, num concerto natalino ao ar livre, em dezembro de 2001. Este ano, o feito deve se repetir no III Concerto Cosern de Natal, com a participação da Orquestra Sinfônica, de quatro corais e artistas convidados. "Devo voltar em turnê ao Nordeste mais tarde, ainda este ano", adianta.


 

Todo canto e encanto do fado

Carolina Leão - Folha de Pernambuco - Recife

 

Foto Guga Mélgar.Em 89, a atriz e diva do teatro brasileiro Bibi Ferreira apresentava seu show Piaf quando a cantora portuguesa Amália Rodrigues foi assisti-la no palco lisboeta. Do espetáculo, Amália se encantou da performance de Bibi e a escolheu como a artista que poderia representar no teatro a sua vida e carreira artística. Bibi Ferreira, que tinha aprendido com seu pai, Procópio, a admirar os fados cantados por Amália, pensou no projeto com a fadista encerrando a encenação. Mas Amália morreria dez anos depois sem o espetáculo sair do mundo das idéias.
         Ano passado, no entanto, a diva resolveu prestar uma homenagem à cantora durante a comemoração dos seus 60 anos de carreira. O resultado dessa admiração mútua pode ser visto no show Bibi Vive Amália, que depois de passar pelo Rio de Janeiro, Curitiba e Santa Catarina chega ao Recife este sábado, às 21h, no Teatro da UFPE.
         Bibi faz questão de destacar que aos 80 anos chega ao auge de sua carreira artística. “As pessoas pensam que vão ver uma pessoa caquética por causa da idade. Mas estou muito bem. Aliás, não sou uma pessoa normal, a voz que tenho não pode ser normal e as pessoas devem ter em mente que não vão assistir a um show normal”, afirma a atriz que desde a mocidade cultiva essa paixão pelo canto do além-mar.
         País de onde Bibi descende, Portugal é conhecido musicalmente como a terra do fado - estilo cantado por mitos modernos como Amália Rodrigues. Intitulada o maior nome do fado de todos os tempos, Amália começou a ser reverenciada pela atriz quanto esta passou uma temporada em Portugal e passou acompanhar a carreira da cantora falecida há três anos.
         “A admiração que sinto por ela vem, naturalmente, de uma longa data e se intensificou quando morei em Portugal”, destaca. Bibi chama atenção para as semelhanças entre as duas. “Não gostamos muita de gente, nem de ter uma vida social intensa”, confirma.
         A atriz soube do interesse da cantora pelo seu trabalho a partir do jovem intelectual português, e amigo de Amália, Tiago Torres da Silva. Durante três meses, Bibi estudou com Tiago a pronúncia e sotaque português para compor a dramaticidade do show. No repertório do espetáculo, dirigido por Tiago Torres, além de vinte e sete canções da Senhora do Fado, textos sobre a história de Amália são interpretados por Bibi, que considera esse espetáculo uma homenagem à língua e cultura portuguesa.
         Os temas trágicos e a dramaticidade do fado foram interpretados com excelência por Amália Rodrigues que começou a cantá-lo no início do século 20, quase cem anos após ele surgir nos bairros populares de Lisboa, e ainda continua angariando novos amantes. Tímida e carismática, a cantora era tão querida pelos seus conterrâneos que quando foi encontrada sem vida na sua casa, o Governo Português decretou três dias de luto nacional pela sua morte.
         Elogiado por crítica e público por onde tem passado, Bibi Vive Amália combina encenação e musicalidade da mesma forma que o fado precisa ser cantado para seduzir o ouvinte. “Todas as pessoas gostam”, afirma a atriz que considera a maior ovação da sua vida, o show Bibi Vive Amália apresentado em Lisboa em dezembro do ano passado.

 


 

Bibi Ferreira canta Amália e festeja 60 anos
04/Mai/2002 11h39

Janaína Lima
Do Caderno C/JC

Cantar fado não é algo simples. Requer, além de boa voz, tremenda concentração do intérprete. As músicas do gênero trazem, intrínsecas, uma forte carga dramática, que propiciam uma interpretação teatral mesmo. Nesse sentido, a portuguesa Amália Rodrigues foi a grande estrela do fado. Conhecida no mundo inteiro graças à perfeição da maneira que se entregava às músicas, ela deixou um legado de interpretações únicas, a exemplo de Coimbra e Ai Mouraria. Passados quase três anos da sua morte, Amália Rodrigues recebe uma homenagem à altura de sua obra. Bibi Ferreira, a grande dama do teatro nacional (ao lado só de Fernanda Montenegro), realiza o show-tributo Amália Vive Bibi, em única apresentação, hoje, às 21h, no Teatro da UFPE.

“Considero este o trabalho mais difícil da minha carreira, é laboriosíssimo. O fado português é difícil de ser cantado. E canto no português verdadeiro, com o sotaque marcado. Ensaiei por três meses, dois sozinha e um com o maestro”, conta a atriz, que se dedicou ao complicado trabalho de falar corretamente o português, sílaba por sílaba.

As dificuldades enfrentadas pela brasileira foram superadas com um sabor especial. Com o espetáculo, Bibi comemora 60 anos dedicados ao teatro e à música. Outra recompensa foi ter sido ovacionada pela platéia, na turnê que realizou por Portugal, em novembro de 2001. “Foi a maior ovação da minha carreira, fiquei muito feliz. Engraçado é que os portugueses aqui vão me ver meio assim, desconfiados, mas todos saem chorando”, diz.

Esses acontecimentos figuram como mais um troféu, para quem colecionou elogios desde que subiu ao palco pela primeira vez, aos 17 anos, pelas mãos do pai famoso, Procópio Ferreira.

O melhor de tudo é que Bibi não pensa em parar tão cedo. Atualmente, além do musical sobre Amália, ela assina a direção de mais seis peças em cartaz e ensaia duas. “É a minha vida. Não tenho quem me sustente, se fosse rica, talvez não fosse assim. Se bem que tenho muita disposição, o trabalho me mantém viva. No fundo, é só uma questão de disciplina”, diz Bibi, que se orgulha também de comemorar cada aniversário. “Festejo Natal, Páscoa, aniversário, tudo. Sou a rainha dos festejos. As pessoas perguntam muito sobre a minha idade, mas não pareço mesmo o quanto tenho. Não me sinto pesada, estou ótima.”

REPERTÓRIO – Nem só de fados é composto o repertório de Bibi Vive Amália. “Ela era fora do comum. Cantava muitas músicas estrangeiras, em italiano, francês, inglês, canções ciganas e até brasileiras”, explica Bibi. São três as músicas brasileiras integrantes do programa do show: Lua luar, Coqueiro em Itapoã e Coqueiro.

Engana-se também quem aposta apenas em fados tristes, sobre amores mal resolvidos. “O fado é um estilo variado, não é só trágico. A casa portuguesa, por exemplo, que todo mundo conhece, é alegre”, salienta a artista.

A seleção do repertório foi feita em conjunto com o diretor Tiago Torres da Silva, que veio de Portugal especialmente para convidar Bibi para desenvolver o projeto a pedido de Amália Rodrigues. Isso foi uma ano antes da morte de Amália. A intenção inicial era de que ela viesse ao Brasil, participar da estréia do musical. Com a morte de Amália, o projeto ficou engavetado por três anos.

A fatalidade contribuiu para que as cantoras nunca trocassem uma palavra sequer. “Nos encontramos uma vez, numa festa, e ficamos uma olhando para a outra. As pessoas pensavam que já nos conhecíamos e, por isso, não nos apresentaram”, diz Bibi.

O encontro frustrado, no entanto, não impediu que a fadista assistisse a vários espetáculos da brasileira. “Ela viu muitos dos shows que fiz sobre Piaf. Eu a admirava tanto quanto ela a mim, mas nunca poderíamos ser amigas. Tivemos vidas complicadas, com muitas viagens, isso não permitiria uma amizade sólida. Mas fazer este espetáculo sobre Amália é devolvê-la aos brasileiros, que a amaram tanto”.

No palco, Bibi reproduz várias citações da cantora portuguesa. A apresentação no Recife tem a participação do guitarrista português Carlos Gonçalves, parceiro e músico de Amália.

 


 

 

 

 

"Coimbra", arquivo midi que você ouve ao fundo, foi seqüenciado por Fernando de Brito Vintém (http://www.midiportugal.com/) e faz parte do espetáculo "Bibi vive Amália".

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