|
Quando Bibi
Ferreira está em cena, é como se uma grande luz tomasse conta
do palco. A temperatura sobe e tudo o que está à sua volta
fica cuidadosamente aconchegante. A platéia se derrete em delírio
e arde em admiração. É como se o tempo perdesse o compasso
das horas e se rendesse ao brilho e encantos da majestade Bibi.
Aos 79 anos, ela encarna Amália Rodrigues no seu mais recente
espetáculo, que esteve em Porto Alegre, no Theatro São Pedro,
nos dias 28, 29 e 30 de junho.
“O desejo é
revelar um pouco do repertório desta mulher maravilhosa,
cantora incomparável que foi Amália Rodrigues. Ao mesmo tempo,
estamos homenageando a pátria-mãe e o idioma português, tão
precioso, belo e rico. Este espetáculo é um estímulo às
novas gerações”, disse a diva Bibi Ferreira, que está
comemorando 60 anos de carreira. O musical, sob regência do
maestro Marcelo Gonçalves, é dirigido pelo português Thiago
Torres da Silva. E foi a própria Amália quem pediu para Bibi
interpretá-la. “Depois de assistir ‘Piaf’ várias vezes,
ela deve ter sentido que eu possuía a emoção necessária para
isso”, arrisca.
Sensível,
inteligente e apaixonada pelo que faz, assim é Bibi Ferreira.
Ela confirma a fama de trabalhadora incansável e anuncia que
para o segundo semestre levará aos palcos “Conduzindo Miss
Dayse”, com Nathália Thimberg e Mílton Gonçalves. Por
detrás das declarações, percebe-se o quanto é tímida. “Bicho-do-mato,
eu sou campeã olímpica nessa categoria. A sair, prefiro ficar
em casa ouvindo música, tocando piano e assistindo a vídeos de
bons comediantes, com quem aprendo muito.”
Apesar de ser
filha do grande ator Procópio Ferreira, sua carreira não veio
como herança natural. Ela não pretendia ser atriz – queria
estudar música, a sério. Um revés financeiro, sofrido por
Procópio, desviou-a deste caminho, levando-a ao teatro.
Entrevista:
Versão -
Como é a vida do ator no Brasil?
Bibi - Bem, é uma vida bastante árdua, com sacrifícios, porém
muito prazerosa; nos sentimos realizados. Vivemos do lúdico, do
sonho, das emoções, por isso cada vez mais surgem novos
atores. Muitas vezes o público fica com a idéia de que os
atores vivem do glamour, da fama, dos palcos, das lentes e dos
espetáculos.
Versão - É
um mar de rosas?
Bibi - Olha, eu posso me considerar uma privilegiada, pois
sempre tenho um trabalho para fazer. Mas a realidade não é
essa. Já lutei muito e hoje começo a recolher o fruto de 60
anos de carreira. Muitos atores chegam à velhice com uma situação
muito difícil. Excelentes artistas com grande talento
infelizmente foram esquecidos.
Versão -
Como é a escola brasileira?
Bibi - As escolas de atores no Brasil estão cada vez melhores,
completas, dando uma formação ao futuro artista. As escolas
hoje possuem aulas de dança, canto, interpretação, música,
literatura dramática, História das Artes, História do Teatro,
Corpo, etc. No meu tempo, nós tínhamos que nos virar. Não
existia uma formação em uma escola, nós é que nos lapidávamos.
Versão -
Qual a diferença entre os chamados atores de novela e aqueles
que construíram suas carreiras a partir do teatro?
Bibi - Olha, eu não gosto de diferenciar, pois somos todos
atores, todos trabalhamos com emoção, sensibilidade. Temos ótimos
e maus atores tanto no teatro como na televisão. Um exemplo é
Glória Pires, que nunca sequer pisou num palco, e nem quer
pisar, e eu a considero uma das maiores atrizes brasileiras.
Versão -
Como é a relação sua com a mídia?
Bibi - Eu não gosto de ficar me expondo a torto e a direito,
saindo em todas as revistas e jornais. Me entrego na época que
vou estrear um espetáculo, pois precisamos divulgar. Não penso
só em mim nessa hora, penso nos meus produtores, no
patrocinador que nos viabilizou tudo, penso na equipe que
precisa trabalhar. Para isso tudo acontecer é preciso dar
entrevistas nos jornais, TV e nas rádios.
Versão -
Bibi está fora do circuito imposto pela mídia?
Bibi - O que é circuito imposto pela mídia? Nunca tive esse
tipo de problema, achar que não estão me dando espaço. Pelo
contrário, a imprensa, a mídia de uma forma geral, sempre foi
muito camarada comigo, muito generosa.
Versão - Já
foi injustiçada, destratada pela imprensa ou teve algum tipo de
acontecimento desagradável?
Bibi - Em 60 anos de carreira artística, é quase impossível não
passar por uma situação desagradável. Já tive problemas sim,
mas nada que abalasse minha vida ou minha saúde. Não dou a
menor bola para as bobagens.
Versão -
Como é a relação com a crítica?
Bibi - Tranqüila. Sempre procuro tirar o melhor dela. Não fico
magoada. Só acho que muitas vezes há um grande desrespeito,
seja com um ator ou com alguém da equipe. Aí sim fico
chateada. No mais, já estou acostumada.
Versão -
Planos para o futuro?
Bibi - Continuar trabalhando, trabalhando, trabalhando,
trabalhando.
Alexandre
Costa é jornalista
|