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Nássara
Thomé
Jornal
Diário da Manhã - Goiânia
26
de setembro de 2002 |
A primeira dama do teatro brasileiro, com 61 anos de carreira,
retorna a Goiânia para apresentação única do espetáculo
Bibi vive Amália, em que interpreta a maior diva da canção
portuguesa. O espetáculo, em cartaz desde o dia 1º de junho do
ano passado, tem 1:20h de duração e começou a ser montado,
a pedido da própria Amália Rodrigues, quando ela ainda estava
viva. Pela primeira vez em Goiânia, o espetáculo Bibi vive Amália
será apresentado hoje, às 21 horas, no Teatro Goiânia. O
roteiro, textos e direção cênica são assinados por Tiago
Torres da Silva, um dos destaques da nova geração de artistas
portugueses. A direção musical e os arranjos são de Nelson Melin,
e a narração é feita por Nilson Raman. Completam a cena os músicos
Victor Lopes (guitarra portuguesa), Irene Mutanen (acordeon),
Jamir Torres (bateria) e Kleber Matos (violão). A atriz Bibi
Ferreira falou sobre o espetáculo ao Diário da Manhã, por
telefone, de seu apartamento no Rio de Janeiro. Muito solícita,
chegou a recitar algumas de suas falas, demonstrando o intenso
lirismo e emoção que marcam Bibi vive Amália. Abaixo, os
principais trechos da entrevista.
Diário da Manhã
— A senhora já veio várias vezes a Goiânia com diversos
espetáculos. Qual a expectativa com relação à recepção,
pelo público goianiense, do espetáculo Bibi vive Amália?
Bibi Ferreira — O fato é que eu acho que adquiri com o
tempo, através do meu trabalho, credibilidade para os meus
espetáculos. Se eu estou me exibindo agora, em Goiânia — e
acabei de me exibir em Lisboa, e também no Brasil, com
orquestras sinfônicas — acho que é porque algum mérito esse
espetáculo tem. É o mérito, justamente, de ser muito
profissional, muito trabalhado, muito estudado, só pensando em
agradar a platéia.
DM — Já há
uma previsão de lançamento de sua fotobiografia?
Bibi — Não, não tenho idéia. Eu acho que deve ser
para este Natal. Queriam lançar antes, em fins de outubro, começo
de novembro. Eu disse que não era uma coisa boa —
principalmente por causa das eleições para a presidência,
tudo muito próximo — e que a gente deixasse isso como um
marco para o Natal.
DM — Sobre
o espetáculo Bibi vive Amália, como é, para uma grande atriz
brasileira, estar interpretando uma das maiores cantoras
portuguesas?
Bibi — A maior. A maior de todos os tempos, que jamais
vai ser igualada, porque a Amália é uma deusa para Portugal,
e, para nós do mundo da música, ela é outra deusa: pela
perfeição da voz, pela afinação, em resumo, por esse reinar
que ela tem já dentro dela. Tem dentro dela essa força muito
grande, levando a música portuguesa a todos os recantos deste
mundo.
A Amália, como eu faço no espetáculo, não cantava só fados
quando ia cantar em Paris, Roma e outros lugares. Ela cantava música
de todos os lados. Nesse espetáculo, tem uma gravação em que
uma francesa está dizendo: “Senhoras e senhores, atenção,
agora vem Amália Rodrigues.” Aí, entra Amália, com grandes
palmas (tudo isso foi gravado, ao vivo, em Paris) e você a ouve
dizer, em cima das palmas: “Obrigada, obrigada.” E ela
anuncia a música que ela vai cantar: Lua, luar. Aí, a gravação
pára. Eu entro, cantando Lua, luar. Acontece que essa canção,
com a qual ela abre seu show no Gobinot de Paris, é uma música
nordestina. E depois ela canta Coqueiro de Itapuã, de Dorival
Caymmi.
Ela cantava em todos esses idiomas, em outros países. Cantava
em ‘brasileiro’, cantava muito bem em espanhol, em
italiano... No espetáculo, eu canto em ‘brasileiro’ (o
nosso português com sotaque), Lua, Luar, canto Coqueiro de
Itapuã e Trepa no Coqueiro e Tira o Coco. Canto o Festival de
San Remo, de 1967, em italiano, e também Porompompero, que é
uma música espanhola. Eu tenho um pedaço de vinte minutos com
um pot-pourri dessas músicas todas. E depois, é claro, canto
27 fados.
Foi muito difícil estudar esse espetáculo, porque represento
os últimos dez anos de vida de Amália contando para a platéia,
falando o português de Portugal, a história da vida dela. E
tudo na primeira pessoa, porque o que digo é textual de Amália
Rodrigues, pinçado de documentários, entrevistas pelo Tiago
Torres da Silva, que é o autor do script. Além disso, ele era
amigo dela também, em que ela confiou e pediu: “Eu só queria
que a Bibi Ferreira fizesse a minha vida.”
DM — Foi a
pedido dela, portanto, que o espetáculo foi montado?
Bibi — Foi a pedido dela. Ela falou isso para a
imprensa e saiu no jornal várias e várias vezes,
principalmente lá, em Lisboa. Porque ela me assistiu fazendo o
Piaf (Bibi canta e conta Piaf). Ela ia me ver muito, a cada 15
dias.
Foi muito difícil eu conseguir fazer o texto em português. Eu
aprendi sílaba por sílaba, foi dificílimo. Eu ia me
apresentar em Lisboa, então não podia chegar lá e fazer uma
Amália Rodrigues toda capenga, como acento todo brasileiro. Não
dava, se não sabe fazer, então não faz. Eu estudei muito, o
Tiago Torres da Silva veio para o Brasil, me ensaiou durante
dois meses e aí fiquei com uma pronúncia perfeita. Inclusive a
impostação, a maneira como coloquei a voz para falar por
Amália Rodrigues não tem nada a ver com a minha voz. A roupa e
as jóias que visto são cópias autênticas das que ela
usou no último espetáculo que fez em Nova Iorque.
Saiba
Mais
Quem foi Amália Rodrigues
Amália da
Piedade Rodrigues nasceu em 1920, em Lisboa, filha de pais
naturais da Beira Baixa. Educada pela avó, cantou pela primeira
vez em público em 1929, numa festa da escola que freqüentava.
Trabalhou inicialmente como bordadeira, e posteriormente em uma
fábrica de bolos e em uma loja de souvenires.
Em 1935 cantou pela primeira vez com o acompanhamento de uma
guitarra portuguesa numa festa de beneficência. Quatro anos
depois, em 1939, estreou na casa de fados mais importante da época
– o Retiro da Severa.
Casou-se em 1940 com o guitarrista amador Francisco da Cruz. Amália
estreou no estrangeiro no dia 7 de fevereiro de 1943, em Madrid,
a convite do embaixador Pedro Teotônio Pereira. No mesmo ano,
separou-se do primeiro marido.
Sua primeira visita ao Brasil aconteceu em 1944, quando atuou no
Cassino de Copacabana. O sucesso levou-a a prolongar a estada de
seis semanas para três meses e também regressar no ano
seguinte.
Seus primeiros discos (de 78 rotações) foram gravados no dia
17 de outubro de 1945, no Brasil, para a etiqueta Continental. A
estréia no cinema ocorreu dois anos depois, com o filme Capas
Negras, de Armando Miranda, que bateu todos os recordes de exibição.
Em 1953, Amália Rodrigues tornou-se a primeira artista
portuguesa a atuar na televisão americana, interpretando
Coimbra no famoso programa Coke Time with Eddie Fisher.
Em 1961, confirmando antigos rumores, Amália casou-se no Rio de
Janeiro com o engenheiro César Seabra, e anunciou que
abandonaria a carreira artística para viver no Brasil. Sem
conseguir afastar-se dos palcos, no entanto, Amália acabou
regressando a Lisboa com o marido no ano seguinte. O casal
permaneceu unido por 36 anos, até a morte de Seabra, em 1997.
Ao longo de toda sua carreira cinematográfica e musical, Amália
colecionou condecorações, títulos, premiações e uma legião
de fãs internacionais. A musa do fado pereceu aos 79 anos de
idade, no dia 6 de outubro de 1999, vítima de um câncer de
pulmão. Sua morte foi classificada como uma grande perda por
personalidades portuguesas, dentre elas o
presidente da República Portuguesa à época, Jorge Sampaio. De
Lisboa a Tóquio, de Turim a Nova Iorque, a grande intérprete
deixou saudades.
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Valbene
Bezerra
Coluna
Magazine - Jornal
"O Popular" - Goiânia
26
de setembro de 2002
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Há um ano,
Bibi Ferreira está em cartaz com Bibi Vive Amália, fenômeno
teatral comparável a Bibi Conta e Canta Piaf, espetáculo
marcante de seus 60 anos carreira, que por exigência do público
ganhou reedição. Hoje, às 21 horas, ela faz apresentação única
do musical no Teatro Goiânia, com patrocínio da Brasil
Telecom. Em outubro, ela retorna com o espetáculo para
Portugal.
Aos 80 anos
de idade, com uma disposição invejável, a afável Bibi recria
no palco a trajetória da grande dama do fado português, morta
em 1999. Ela é dirigida por Tiago Torres da Silva, poeta e
compositor, amigo da intérprete com a qual conviveu nos seus últimos
anos de vida.
Nilson Raman
encarrega-se de contar ao vivo detalhes da vida de Amália. O
acompanhamento musical, também ao vivo, fica por conta de Irene
Mutanen (acordeon), Jamir Torres (baterista) e Victor Lopez
(guitarra portuguesa). A direção musical e os arranjos são
assinados pelo maestro Nelson Melin, pianista de Bibi desde
1983.
Para a
atriz, que falou a Magazine, por telefone, Amália foi uma grande
cantora, uma mulher inteligente, elegante, que teve uma
brilhante carreira artística. O espetáculo, na sua opinião,
é uma homenagem à música, à língua portuguesa e acima de
tudo a Amália Rodrigues:
Jornal: No
espetáculo Bibi Canta e Conta Piaf, a senhora cantava as músicas
mais marcantes e também interpretava a cantora francesa no
palco. Amália segue o mesmo roteiro?
Bibi: No palco, eu conto a vida de Amália. Eu sou Amália.
Inclusive o vestido que uso na abertura e as jóias são cópias
do figurino do último espetáculo que ela fez em Nova York.
Quando entro, eu falo português autêntico. Não o que eu estou
falando agora, com o sotaque brasileiro. Nós é que temos o
sotaque, o idioma é o português original. Para isso, estudei
muito com o Tiago Torres da Silva, diretor, autor do texto, da
exposição e da seqüência, que nos últimos dez anos de vida
de Amália trabalhou com ela. Foi para ele, na frente da
imprensa portuguesa, que Amália disse, depois de ter me visto
representar a (Edith) Piaf em Portugal, que queria que se alguém
fizesse a vida dela no palco, esse alguém fosse eu. Tiago ficou
entusiasmadíssimo, e começou a escrever o roteiro. Depois,
veio para o Brasil e me ensaiou sílaba por sílaba.
Jornal: É
difícil cantar fado?
Bibi: É difícil falar português. A gente fala
brasileiro. É difícil. Claro que tudo é difícil quando você
quer tentar fazer o melhor possível. Em Piaf tentei fazer o
melhor que podia. Nesse aqui é a mesma coisa. O fado tem várias
cadências. Tem o fado rápido (canta Coimbra citando o
exemplo), o fado elegante, com músicas muito leves, muito rápidas
e bonitas. Tem a marcha da Lisboa Antiga (canta também um
pedacinho para exemplificar). O repertório está repleto de músicas
alegres e cadência rápida. É muito bonito. O espetáculo é
muito variável.
Jornal: Fado
pressupõe uma música melancólica, dolorida, saudosista?
Bibi: A música é muito bonita. Canto muitos fados
bonitos, como Nem às Paredes Confesso (canta uma pequena
parte). Existe o fado sentimental, outros não. Algumas chegam a
ser cômicas.
Jornal: Quantas
músicas de Amália Rodrigues a senhora inseriu no musical?
Bibi: Vinte e sete. Mas não são todas tristes! Há uma
coisa curiosa: quando Amália estreava em Paris, Roma, lugares
fora Portugal, sempre começava o espetáculo com uma música
brasileira. Em determinado momento do espetáculo é
exibida uma gravação com um texto, no qual uma mulher diz em
francês: “E agora, com os senhores, Amália Rodrigues
acompanhada por sicrano e fulano”. Aí entram os aplausos da
gravação - os aplausos vão morrendo e Amália canta Lua, Luar,
uma música nordestina. Depois, ela faz grande pout-pourri com
outras canções brasileiras como Trepa no Coqueiro, Tira Coco,
Tarde em Itapuã, de Dorival Caymmi e outras.
Jornal: A
senhora apresentou o espetáculo em Portugal. Como foi a
receptividade da platéia de Amália Rodrigues?
Bibi: Foi a maior ovação que já recebi em minha vida.
Foram mais de dez minutos consecutivos de aplausos em Lisboa, no Centro Cultural de Belém.
Jornal: O
retorno a Portugal em outubro é por conta de todo esse sucesso?
Bibi: Exatamente.
Jornal: O
espetáculo sairá em CD em dezembro?
Bibi: É. Mas Piaf também foi gravado. Junto com o CD sairá
uma fotobiografia e um documentário sobre o meu trabalho. A
maior parte é foto.
Jornal: Não
preferiu uma biografia completa como muitos de seus colegas?
Bibi: Um ou outro escritor se interessou. Tem dois, que
eu não vou dizer o nome, que escrevem muito mal que me
procuraram. Um deles fez a biografia de uma colega, que mais
parece uma agenda. Desse tipo, não quero.
Jornal: A
senhora tem espetáculo agendado para o final do ano em Natal
(RN). Como será?
Bibi: O repertório é variado. Vou cantar música
brasileira, de Amália Rodrigues, de Edith Piaf. Tudo o que fiz
até agora. Tem também uma seqüência muito simpática de
tango. O público de Natal é muito receptivo. Eles cantaram
Gota d’água comigo, e eu nem sabia que eles sabiam a letra.
Em Amália também é impressionante: 85% das canções o público
canta comigo o tempo todo.
Jornal: A
senhora está com 80 anos. Onde encontra tanta energia para
viajar, fazer espetáculo, dirigir várias peças?
Bibi: Estreei uma recentemente com a Tânia Alves e
Jalusa Barcellos. É uma maravilha, uma beleza o espetáculo.
Também dirijo o Antônio Fagundes em São Paulo. Tenho ainda
em São Paulo uma peça com o Taumaturgo Ferreira.
Jornal: A
senhora é muito requisitada. Todos querem ser dirigidos por
Bibi Ferreira?
Bibi: Faço tudo por amizade. Mas, faço uma coisa de
cada vez. Às vezes fico até com receio, por causa da idade, de
fazer coisas demais. Não só os jovens querem que eu dirija
suas peças. O pessoal mais velho, como o Antonio Fagundes, também
me convida. É a confiança numa mulher de 80 anos. Conviver
com esse pessoal é um alimento para mim. É muito bom ter essa
gente maravilhosa em torno de mim.
Jornal: É
muito bonito uma pessoa com a sua idade ter tanta energia, tanto
dinamismo.
Bibi: E sempre otimista!
Jornal: Sua
elegância no palco impressiona e emociona. Que cuidados toma
para manter-se sempre disposta?
Bibi: Tenho alguns. Uns por questão de sorte. Nunca
fumei, não me excedo com bebidas geladas. Tento também não
falar demais, para poupar a voz. Levo uma vida muito regrada,
extremamente simples. Se tenho peça para dirigir, vou na hora,
dirijo, volto para casa.
Jornal: Em
2003, os 60 anos de carreira de Bibi Ferreira vão ser enredo da
Escola de Samba Unidos do Viradouro. A senhora vai desfilar na avenida?
Bibi: Vou desfilar, sim. O samba-enredo ainda não está
definido - ainda vai ser escolhido porque foram
apresentados muitos. Mas, estarei em evidência no mundo todo.
Isso me emociona.
MUSICAL: Bibi Vive Amália
¤ Roteiro e direção: Tiago Torres da Silva
¤ Direção musical: Maestro Nelson Melin
¤ Data: Hoje, às 21 horas
¤ Local: Teatro Goiânia (Av.Tocantins, esquina com Rua 23,
Centro. Telefone: 213-2586)
CURIOSIDADE
¤ O fado remete a lembrança de mulheres dramáticas envoltas
em xales negros, a melancolia. Sua origem é motivo de muitas
discussões, e há críticos que teimam em relacioná-lo à
conturbada ditadura salazarista. O gênero musical português
chegou a ser rotulado de “anestesiador de consciências”. Amália
Rodrigues teve seu nome incluído na relação de personalidades
envolvidas com o regime de Antonio Salazar. A famosa cantora foi
relegada ao ostracismo e ameaçada de ter seus cabelos cortados
por irados manifestantes. Amália Rodrigues morreu em 1999.
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"Coimbra",
arquivo midi que você ouve ao fundo, foi seqüenciado por
Fernando de Brito Vintém (http://www.midiportugal.com/)
e faz parte do espetáculo "Bibi vive Amália". |
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