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Com quase 80 anos de idade, Bibi parece estar sempre no auge de sua carreira. “Vivo para a arte e é ela que mantém o vigor de minha alma".
Bibi emociona o público em show na capital Valéria Rivoire
“Fazer carreira no Brasil é muito mais difícil do que ter talento.”
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A atriz e cantora Bibi Ferreira apresentou no Teatro Ademir Rosa do Centro Integrado de Cultura (CIC), neste final de semana, o espetáculo "Bibi Vive Amália", em homenagem a cantora portuguesa Amália Rodrigues. Usando um vestido negro e acompanhada por seis músicos, Bibi Ferreira encarna Amália Rodrigues, numa emocionante viagem ao passado. Bibi interpreta uma personagem que teve uma vida de glórias, com viagens, amores e sucesso, mas marcada também por tristezas. E é essa história que o público passa a conhecer quando ouve as canções, pontuadas por textos em primeira pessoa, interpretadas por Bibi. O ator Nilson Raman participa, como locutor, fazendo intervenções - essas, em terceira pessoa - igualmente contando as fases da carreira de Amália Rodrigues que divulgou ao mundo a canção popular portuguesa: o fado. Bibi Ferreira brinca com o público ao falar do nascimento da cantora e de sua adolescência, quando Amália vendia flores no cais. A menina também adorava cinema. “Eu aproveitava a amizade de minha amiga com o porteiro para poder entrar de graça na sala escura. Enquanto eles ficavam namorando, eu assistia aos filmes”, diz Bibi como se fosse a própria Amália. Os raros momentos alegres estão também em poucas canções como Casa Portuguesa em que o público participa. O fado é um estilo musical que tem como característica a linha melancólica, triste e fatalista e Lágrimas é uma canção que traz nitidamente esta característica. A música é de Carlos Gonçalves, músico convidado especial responsável pela guitarra portuguesa, e que acompanhou Amália Rodrigues por 28 anos. O Barco Negro - conhecida também na voz de Ney Matogrosso - e Coimbra estão entre as 23 músicas escolhidas num repertório de mais de sete mil canções. A adoração de Amália pelo Brasil também está no texto e nas canções. Amália esteve pela primeira vez no país para se apresentar no Teatro República, no Rio, em 1945. “Foi aqui que Amália conheceu seu segundo marido, um português, com quem conviveu 33 anos, até morrer em 1999”, narra Raman. O primeiro, um guitarrista de fado, teve passagem breve por sua vida. “Ela teve outros amores, mas Amália costumava dizer que 'de quem gosto nem às paredes confesso'”. Amália chegou a gravar um disco com Vinícius de Moraes e lamentava o fato de nunca ter podido cantar ao lado de Dorival Caymmi. “Sua adoração pelo Brasil era tamanha que ela abria seus shows com música popular brasileira, como quando cantou o xote Lua Luar, no Olympia de Paris.” Neste instante, uma gravação original de um apresentador chamando Amália ao palco e os aplausos da platéia fazem com que o público tenha uma idéia de como foi aquele momento. Descendente de portugueses, Bibi Ferreira morou em Lisboa de 1954 a 1956. Para ela, fazer "Bibi Vive Amália" é uma forma de homenagear não só a cantora como o povo português. Um belo espetáculo que mostrou a força, no palco, de Bibi Ferreira, hoje com 79 anos de idade e mesmo não tendo sido poupada do frio que castigou sua voz nos últimos dias, a ponto de ter sido obrigada a cancelar um espetáculo em Curitiba na semana passada. A dama dos palcos brasileiros, que viveu Edith Piaf, Amália Rodrigues e mais uma dezena de outros personagens nestes 60 anos de carreira, é o exemplo de amor, persistência e respeito à arte feita no Brasil. Nesta entrevista ao Diário Catarinense, Bibi Ferreira falou sobre seu projeto, dos 60 anos de palco, do fato de nunca ter falado com Amália Rodrigues e da difícil tarefa de se fazer carreira num país como o Brasil.
Entrevista Diário Catarinense - Amália chegou a assistir 12 vezes o espetáculo onde você interpreta Edith Piaf. Como você analisa esta atitude? Bibi Ferreira - É o que dizem. Ouvi muitas vezes, quando me apresentei em Lisboa, as pessoas no camarim falarem: ‘Olha, Amália está aí de novo’. Isso foi em 1988 e eu não tinha a idéia de interpretá-la no palco. Anos depois, soube que ela havia dito que tinha encontrado alguém que pudesse fazer sua vida no palco. Ao saber, fiquei muito enobrecida, homenageada. Foi aí que surgiu a idéia deste espetáculo. DC - Você se acha parecida com Amália Rodrigues? Você buscou copiar alguns trejeitos de Amália como a maneira de puxar o xale, de falar... Bibi - Começa que eu também tenho sobrenome português - Ferreira. Acho que a pele boa (risos), ossatura, altura, são semelhantes. Mas faço no palco um personagem. É a rainha X, o rei tal. Estou interpretando uma pessoa que existiu e que ainda está na memória das pessoas. DC - Você nunca chegou a falar com Amália, a conviver com ela. Se tivesse tido mais convivência com ela, não teria sido mais fácil interpretá-la? Bibi - Amália foi mais difícil do que Piaf, mas nunca pensei sobre este aspecto. O que acontece é que quando as pessoas estão no palco elas refletem pouco de sua personalidade. Mas não faço a personalidade da pessoa Amália e sim a personalidade teatral da cantora Amália. Fiz questão de interpretar a pessoa cênica e esta é a Amália que estou fazendo. Não a Amália amiga, mulher, tia, irmã. DC - Você precisou cancelar um espetáculo em Curitiba por causa de problemas com a voz. Como você se cuida neste sentido? Bibi - É como se fosse a mão de um cirurgião. Ele tem que operar. Tomo conta dela, cuido da respiração, da alimentação, tomo minhas vitaminas. Muito papo, muita conversa, no telefone, nas entrevistas, prejudicam a voz. Realmente, hoje em dia, esse ataque da mídia, principalmente nas vésperas dos espetáculos, para quem vai cantar, é preocupante. DC - São 60 anos de carreira, até mais, afinal, você começou na prática quando ainda era um bebê, aos 24 dias de vida, quando teve que substituir uma boneca em cena num espetáculo teatral. O que você gostaria de ter feito que ainda não o fez? Bibi - Eu nunca sonhei com coisa nenhuma. Nunca tive planos. As coisas, de uma certa forma, aparecem, mas é claro que muitas a gente busca também. E este tipo de trabalho em nosso país é uma coisa muito difícil. Fazer carreira no Brasil é muito mais difícil do que ter talento. É exaustivo, arriscado como todas as profissões e quanto mais nome você vai tendo, mais difícil fica. A responsabilidade é maior. E eu tive esta profissão sem desejá-la. Nunca pensei em ser atriz de teatro e nunca me perguntaram se eu queria ser atriz de teatro. Mas meu pai me encaminhou nesta vida, junto com minha mãe, aí eu pensei: papai deve estar precisando, então eu vou (risos). Tive meus anos com a música erudita, mas, neste país, ela é muito sacrificada, não é valorizada, não tem vez mesmo. Então acho que meus pais tinham razão. DC - Você já pensou em morar fora do Brasil e desenvolver uma carreira internacional? Bibi - Este é um sonho que muitas pessoas têm porque lá fora os serviços são melhores. Pelo menos, dizem que são melhores. Eu não sei. Este é um sonho que eu nunca tive. Tive, sim, quando era muito guria, lá pelos meus 14 anos, queria fazer aqueles musicais de Hollywood, coisa de adolescente deslumbrada. Não tenho o desejo de terminar minha vida no exterior, de jeito nenhum. Adoro minha terra. Vê-la todos os dias. Sou muito patriota. Me emocionei muito quando fui convidada para cantar aqui o Hino Nacional na inauguração do Mercosul, em 1991. Jamais pensei em deixar o Brasil. Entrevista publicada no Diário Catarinense - 25/06/2001 |
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Antes da estréia:
Florianópolis
- A corrida à bilheteria do Teatro Ademir Rosa do Centro Integrado de
Cultura (CIC) durante toda esta semana evidencia o peso que o nome Bibi
Ferreira carrega. Infelizmente, a apresentação de hoje do espetáculo
"Bibi Vive Amália" foi transferida para domingo. A mudança
de data, segundo a produção, visa poupar a garganta da atriz-cantora.
O show de amanhã está mantido. Os ingressos vendidos para hoje
continuam valendo, e quem quiser pode trocá-los na bilheteria do
teatro.
Amália é um dos trunfos do espetáculo A mistura de personalidades não é algo que Bibi conseguiu construir apenas em ensaios. Garante que ouve a música de Amália Rodrigues desde sempre e que isso foi fundamental para compor a personagem. Isso é mais uma demonstração de que a montagem não tem uma preocupação cronológica, mesmo que para não resumi-la a um espetáculo que se pauta na música para entrar na história de Amália. Bibi optou por incluir na montagem um narrador, uma voz em off que vai sinalizando o tempo para situar o espectador. Um
recurso a mais que sintoniza com o repertório que reverencia, numa espécie
de culto sonoro não só à música mas à cultura portuguesa, é a
participação de Carlos Gonçalves, violonista português de 62 anos
que acompanhou Amália Rodrigues nos últimos 28 anos de sua carreira.
Ele empresta ao trabalho um tom mais denso a dedilhar seu violão baixo,
instrumento pouco conhecido no Brasil, com quatro cordas e um som mais
grave do que os violões convencionais e que consegue impor ao ritmo da
música a tristeza que caracteriza o fado.
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O fado "Povo que lavas no rio", arquivo midi que você ouve ao fundo, foi seqüenciado por Fernando de Brito Vintém (http://www.midiportugal.com/) e faz parte do espetáculo "Bibi vive Amália".
* Todos os elementos que decoram esta página foram criados por Angela. |
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