Bibi vai às minúcias para atingir grandeza de Amália 

 

Mariangela Alves de Lima

 

Foto de Paulo Humberto - BVDA

Especial

 

Atriz excursiona pelo País  seduzindo amantes do fado e fiéis admiradores da cantora portuguesa com densidade psicológica e ressonância histórica

 

 

Bibi Ferreira é, com certeza, mais de trezentas, mas ainda não temos a história detalhada dessa multiplicação porque não adquirimos o hábito de incorporar à história da arte a contribuição dos atores. Trabalhou na companhia de seu pai, Procópio Ferreira, capitaneou nos anos 40 uma importante companhia de teatro de prosa, escreveu peças, fez cinema e televisão e, nos anos 60, foi centro absoluto de espetáculos musicais encenados com um modo de produção tão impecável que até hoje provoca suspiros de admiração em quem deseja repetir o feito restaurando o prestígio desse gênero teatral.

Quem a viu assumindo o protagonismo dos grandes musicais, tanto dos norte-americanos como My Fair Lady e O Homem de La Mancha, quanto do brasileiro Gota d'Água compreendeu, sem que fosse preciso explicar, o que significa no âmbito da representação a palavra "estrela". Todos os elementos dos espetáculos percorriam uma órbita em torno de uma caracterização marcante e de uma competência musical ímpar. Mesmo os grandes atores, que com ela contracenaram nos musicais, não puderam igualar seu preparo técnico para cantar, definir personagens e manter-se no controle da evolução dramática dos espetáculos.

Nos anos 80, as condições econômicas para a produção de espetáculos musicais com grandes elencos tornaram-se ainda mais difíceis, interrompendo a formação e o treino de intérpretes que, mal ou bem, se desenvolvera nos anos 60 e 70 com decisiva participação de Bibi Ferreira dirigindo e produzindo espetáculos inovadores em parceria com Paulo Pontes.

Outra linha - Em 1983, assumindo as múltiplas tarefas de conceber, interpretar e produzir um outro gênero de espetáculo, menos dependente das complicadas condições de produção da época, Bibi cria Piaf, moldado sobre o formato de um recital. Não precisou liderar um elenco e sustentar o brilho de um grande espetáculo e pôde, talvez por essa razão, assumir outra linha interpretativa.

Adotou a mesma forma de atuação que, nas duas primeiras décadas do século 20, procurava substituir o comediante estelar por um intérprete que tornasse mais visível o significado do trabalho do que sua atuação. Fez um trabalho em que Edith Piaf encobria Bibi Ferreira e parecia reviver por meio dela como pessoa e como artista. Tornou-se para isso "disponível, acessível, vazia, habitável", como recomendava o ator francês Louis Jouvet a si mesmo e aos seus companheiros de cena. E o fez com tal profundidade que alguns comentários se referiram ao seu trabalho com "encarnação".

Bibi Vive Amália pertence a essa segunda linhagem, um espetáculo criado sobre a figura da grande artista portuguesa, irmão gêmeo de Piaf no propósito de render culto a uma artista de existência histórica. O título serve como luva ao espetáculo. Sem auxílio das palavras, sem nenhuma facilidade melodramática como as que se intrometem nos espetáculos de cunho biográfico, Bibi Ferreira constrói uma personagem por meio do canto.

Com densidade psicológica, expressa mais pelas atitudes do que pelas falas, com ressonância histórica (porque nos lembramos do significado do repertório de Amália na cultura musical brasileira) e com a mesma capacidade de seduzir musicalmente o seu público. A platéia do espetáculo, aliás, expressa durante a apresentação um curioso estado de perplexidade diante dessa ficção tão persuasiva. Estão presentes saudosos admiradores de Amália Rodrigues, alguns entoando em uníssono as canções prediletas, revivendo a emoção de ouvir a cantora portuguesa. Por um tempo, parecem se esquecer de que quem está diante deles é uma atriz representando uma personagem. Amantes do fado e fiéis admiradores de Bibi são misturados e irmanados na contemplação de uma afinidade anímica, mais evidente do que o aspecto de uma recriação feita com engenho e arte.

Serenidade - Não são de Bibi Ferreira os gestos de ajeitar o xale, apoiar as mãos delicadamente sobre o broche, mover-se solenemente naquele trajeto em diagonal característico dos fadistas e que nos faz imaginar que estão prestes a protagonizar uma tragédia. E é próprio do repertório cênico da cultura portuguesa a expressão facial serena e resignada, que nada tem a ver com a vivacidade da atriz em outras criações.

No entanto, a voz e o entendimento das canções são interpretação, e não imitação. A voz é uma assinatura, a pronúncia intermediária entre o sotaque português e o brasileiro para que os versos se tornem claros e a conotação poética pessoal, de ressonância e memória do cancioneiro do fado, e não só de Amália Rodrigues.

Enfim, há a ilusão de outra pessoa evocada por uma escolha de elementos e de uma ênfase no sentimento e na compreensão pessoais que a atriz tem do repertório e da significação do trabalho da fadista portuguesa. Trabalho de ourivesaria em escala pequena, cheio de minúcias para reproduzir um efeito cênico contrário, ou seja, a dramaticidade e o sentimentalismo do fado. De dentro para fora, da introversão à extroversão, o espetáculo é uma comovida vênia a outra estrela do firmamento musical.

Terça-feira, 19 de junho de 2001 - Caderno 2 - O Estado de S.Paulo

by angela

"...A tarefa que Bibi Ferreira se impõe não é, assim, tão-somente a de uma grande atriz que resolve transfigurar-se numa cantora ímpar (ela fez coisa semelhante quando viveu Piaf). É de quem se impõe a tarefa de, mais do que ser portuguesa, ser Portugal. "

Mauro Dias - Estadão - 6/06/2001

by angela

 

"A estréia em São Paulo, nesta sexta-feira, do espetáculo Bibi vive Amália, estrelado por Bibi Ferreira, marca a inauguração do Espaço Cultural Santo Agostinho. O antigo auditório do colégio Santo Agostinho, construção suntuosa próxima ao metrô Vergueiro, foi reformado com apoio da Comunidade Agostiniana da Espanha, que investiu R$ 3 milhões no projeto. Do palco aos estofados das poltronas, tudo é novo no teatro, que poderá abrigar desde peças de teatro e concertos até conferências e simpósios..."

Rodrigo Savazoni - Estadão - 4/06/2001

 

"Bibi Vive Amália" chega a São Paulo: Um espetáculo que promete encantar pela junção de dois grandes talentos dramáticos: a atriz Bibi Ferreira e a cantora Amália Rodrigues. Dirigida pelo português Tiago da Silva, Bibi interpreta 22 canções da fadista portuguesa no espetáculo Bibi Vive Amália, que estréia amanhã, em sessão especial para convidados, inaugurando um novo teatro em São Paulo, o Centro Cultural Santo Agostinho, de 718 lugares. Para o público, Bibi faz apenas três apresentações, neste fim de semana antes de seguir em turnê pelo sul do País, passando por cidades como Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

Beth Néspoli - Estadão - 6/06/2001 

by angela

 

"Cantar fado é fácil. Basta ter coração. Cantar fado é difícil. É preciso ter coração. Há quem cante coisas do fado - músicas que são fado - mas não cante fado. Amália Rodrigues cantava fado. Bibi Ferreira canta fado. O coração - alma, sentimento, sensibilidade - as aproxima, mais do que qualquer outra qualidade. Bibi, hoje, é parecida, fisicamente, com a Amália dos últimos tempos. A interpretação é perfeita. A voz traz à tona o coração. O canto é belíssimo."

Palavras de Carlos Gonçalves, guitarrista que acompanhou Amália nos últimos 28 anos de sua carreira .   Estadão - 15/06/2001

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by angela

 

Bibi Ferreira vive a fadista Amália Rodrigues 

 

A atriz, que já interpretou em cena e disco o repertório de Edith Piaf, encarna agora a tarefa de recriar o canto e a personalidade da cantora que simboliza a música portuguesa .

BEATRIZ COELHO SILVA 

RIO - A partir de amanhã, a atriz Bibi Ferreira ganha nova personalidade. Depois de ser a angustiada Edith Piaf, a doce Elisa, de My Fair Lady e a desesperada Joana, a Medéia brasileira de Gota d'Água, ela vai viver no palco a cantora portuguesa Amália Rodrigues, que morreu há sete anos, depois de tornar-se símbolo do fado e mesmo de Portugal. O espetáculo tem o nome de Bibi Vive Amália e inaugura a Ribalta, nova casa de espetáculos de luxo, no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste, e vai para São Paulo na semana que vem, onde abre o Teatro Santo Agostinho.
"É a minha peça mais difícil, porque vou cantar em uma língua que não é minha, mas é conhecida de todos os que me ouvirão. E tenho de reviver uma personagem da qual todos se lembram, cantando músicas com as quais não tenho muita intimidade", contava Bibi durante a semana, numa rara oportunidade em que falou com a reportagem. "Não conheci Amália pessoalmente, embora a tenha visto cantar muitas vezes e amasse sua arte. Soube por intermédio de amigos comuns que ela um dia disse que eu poderia vivê-la no palco e levei o projeto adiante."
Não foi de repente. Quando se preparava para começar a produção do espetáculo, em 1994, Amália Rodrigues morreu e Bibi achou que sua homenagem podia ser entendida como exploração barata. Além disso, ela não se sentia preparada. Foi preciso ser convencida pelo diretor e autor do texto, o português Tiago Torres da Silva, amigo íntimo da fadista e diretor dos espetáculos de seus últimos anos de vida. Ele trouxe, para acompanhar Bibi, músicos que tocaram com Amália, inclusive o maestro Nilson Melin, que fez os arranjos para seis instrumentos. Entre os músicos da montagem de Bibi está Vítor Lopes, que tocava guitarra portuguesa com a fadista.
No palco, Bibi canta fados que fizeram sucesso com a cantora e fala textos dela, usando, em cena, alguns de seus figurinos. "Para facilitar a compreensão, digo que a montagem será um monólogo cantado. Mas o espetáculo não é apenas isso, pois terei seis músicos no palco e um narrador, Nilson Raman, dividindo a cena comigo", avisa ela. "O mais difícil é conseguir o sotaque português certo, falando ou cantando, sem cair na caricatura que nós brasileiros fazemos quando tentamos imitar o sotaque deles. Seria mais fácil cantar em francês ou mesmo alemão, porque há muitos portugueses no Brasil e tenho de deixá-los satisfeitos."
Por isso, Bibi vive uma excitação nervosa, embora esteja completando 60 anos de carreira com esse espetáculo. O tempo de carreira não é importante, para ela, nem o fato de sua história pessoal se confundir com a do próprio teatro brasileiro. "Tive um tipo de criação que não me permitiu escolher a profissão. Quando adolescente, estudei música e canto porque gostava, mas, aos 19 anos, subi num palco porque meu pai, o ator Procópio Ferreira, precisava de uma atriz para seu elenco", lembra ela. "Naquele tempo, a gente não tinha opinião, não decidia a nossa vida. Ainda mais no meu caso, pois fui criada por minha mãe com muita rigidez; ela era separada de meu pai, que vivia com minha avó e mais duas tias minhas. Costumo dizer que fui criada numa Casa de Bernarda Alba - aquela tragédia de García Lorca em que todos os personagens são femininos."
Olhando o passado, Bibi só se orgulha de ter vivido do teatro durante seus 79 anos (que serão completados amanhã). Nos últimos anos, especialmente, não fez cinema ou televisão - só teatro. Enquanto ensaia, vai-se tornando íntima do repertório de Amália Rodrigues e concentrando-se para transformar-se nela, no palco. Enquanto fala com a reportagem, não se furta em cantar trechos de fados, ao telefone, talvez para se certificar de que esteja no caminho certo. "Amália era uma mulher de grande beleza física, tinha nobreza cênica. Usando roupas de seu figurino e penteando o cabelo de forma adequada, consigo parecer-me com ela", diz Bibi. "O que me deixa segura é estar em companhia de profissionais que a acompanharam."

by angela

 

 

 

Suas impressões 

 

 

  

O fado "Foi Deus", arquivo midi que você ouve ao fundo, foi seqüenciado por Fernando de Brito Vintém (http://www.midiportugal.com/) e faz parte do espetáculo "Bibi vive Amália".