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Bibi vive Amália -
Belo Horizonte
BIBI FERREIRA: AMÁLIA
ERA INTERNACIONAL
"FALAR
E CANTAR COM O PORTUGUÊS EM SOTAQUE PERFEITO É MUITO, MUITO,
MUITO DIFÍCIL."
Entrevista a
AILTON MAGIOLI
Bibi Ferreira
volta a interpretar uma cantora intensa. Depois do deslumbre de Piaf,
que marcou época no teatro musical brasileiro, o público
mineiro vai ter o privilégio de "ver" Amália
Rodrigues no palco do Palácio das Artes. Atriz, como poucas,
capaz de
interpretar a alma dos personagens, Bibi Ferreira se supera
quando o tema são cantoras, terreno em que pode mostrar, ao
lado de seu trabalho de atriz, uma técnica vocal admirável,
que nunca cede a artifícios e imitações. Perto de se despedir
dos palcos, ele fala nesta entrevista sobre suas preferências
musicais, do trabalho de outras cantoras, como Maysa e Elis
Regina, compara Piaf e Amália, e conta da dificuldade em
construir suas personagens. Talento – mesmo assombroso – é
apenas um ponto de partida desta artista que pesquisa e trabalha
muito para chegar à perfeição. E, mais que tudo, emocionar o
público.
ESTADO DE MINAS
– Com a carreira marcada pela comédia e musicais, nos últimos
anos a senhora acabou se dedicando à vida das grandes divas da
música nopalco. Por que a opção?
Bibi Ferreira –
Eu comecei a minha carreira com a comédia, foram 30 anos de comédia
e os musicais vieram depois. Agora é meio estranho porque eu
sempre atendi aos convites de produções, no caso dos musicais.
Nunca foi uma opção minha e tanto Piaf quanto Amália não têm
nada a ver em termos de produção. O convite de Piaf,
por exemplo, veio de Pedro Carlos Novaes, que tinha a versão
inglesa do espetáculo e queria montá-lo no Brasil. Ele ficou
procurando alguém até que chegou em mim. Eu levei muito tempo
para aceitar porque achava que a peça não era suficientemente
boa. Mas o diretor, Flávio Rangel, disse que se pudesse mexer
no texto seria melhor. Então resolvi fazer a Piaf e,
muitos anos depois, a Amália, o espetáculo, que me
chegou através de um convite de Tiago Torres da Silva, autor do
texto, roteiro e direção do espetáculo, que apesar de ter
pouco mais de 30 anos, tem o talento reconhecido, tendo
acompanhado-a em turnês por todo o mundo. E ele só fez o espetáculo
porque sabia que a Amália Rodrigues queria.
EM - Pode-se dizer
que houve uma "abrasileirada" no caso dos dois espetáculos?
BF –
Não, houve uma melhorada no caso da Piaf, que era um
texto muito aguado. Além disso houve mudanças na parte
musical, também, que era muito triste. Pensando no público até
as músicas foram trocadas. Mas no final acabamos ficando
realmente com os dois atos.
EM - A senhora
acredita que já haja um know-how brasileiro em teatro musical?
BF –
A influência brasileira vem do profissionalismo. Se você vai
contar com Chico Buarque e Edu Lobo, po, exemplo, há muito nós
já temos este know-how.
EM - Que tipo de
pesquisa a senhora empreendeu para incorporar as personagens:
voz, tipo físico e psicológico? Fale um pouco do seu trabalho
de atriz nestes dois casos.
BF –
Eu vou através da emoção da cantora. Vou ouvindo todos os
discos, as interpretações. No caso de Piaf eu fiquei
dois meses ouvindo tudo e por aí tirei toda a emoção dela.
Cantar Piaf muito bem vestida de Piaf, com a carinha igual a de
Piaf é uma coisa; já procurar a emoção da Piaf é outra
coisa. E no caso da Amália foi a mesmíssima situação. Mas há
sempre o envelope, a parte externa, a forma do personagem. No
caso de Amália, por exemplo, há um certo distanciamento das
pessoas quando ela fala. Já a Piaf não se interessa por ninguém,
ela é totalmente aberta, ela não mede distância. Piaf foi uma
criatura muito mais aberta, sincera a ponto de às vezes se
prejudicar. Piaf não gostava de ser tachada por ninguém de
coisa nenhuma e, nesta escalada, ela foi sozinha, sem ligar se
usava um vestido só a vida inteira, se gostava de um vestido
curto preto. Piaf nunca usou um vestido longo, nunca ligou para
maquiagem, para cabelo, ela nunca ligou para nada. Esta era a
forma da Piaf. A Amália não, ela gostava de estar sempre muito
bem arrumada, muito bem vestida, de acordo até com a moda
atual.
EM - O fato de as
duas terem feito cinema também deve ter contribuído?
BF –
Muito, eu vi documentáriosde Piaf muito interessantes, que me
deram um campo vasto para poder estudar o comportamento dela. A
Amália também tem documentários que são um manancial. Até a
postura das duas eu encontrei nestes documentários. No caso da
postura, por exemplo, Piaf era bem povo, completamente à
vontade. Já a Amália, embora cantasse para o povo, que a
adorava, conseguiu um esmalte internacional. Ela colocou o seu
visual imponente, na moda. Às vezes Amália dava até intervalo
nos concertos para poder trocar de roupa. Vemos isto em um
documentário do grande concerto que ela fez no Japão.
EM - O que
distingue Amália Rodrigues de Edith Piaf e o que aproxima as
duas personagens?
BF –
As duas cantam bem! (risos). Não, elas são opostas.
EM - Pois é, mas
Piaf foi uma mulher passional que viveu intensamenteo sexo e o
amor.
BF –
A Amália talvez fosse tudo isto mas não mostrava. No caso de
Piaf, por exemplo, o sexo era primordial. Ela fazia só duas
coisas na vida: sexo e canto, apesar de ter amado sinceramente
algumas pessoas. Já a Amália, não. Ela viveu a carreira que
lhe impuseram pela própria escolha, porque afinal de contas ela
também cantou em todas as partes do mundo. Cantou no Egito, em
Israel, no Japão. Amália foi escolhida pelo próprio povo,
pela própria mídia do momento. Piaf também foi escolhida para
cantar, era adorada na Alemanha, por exem- plo. Já em Nova York
a primeira vez em que se apresentou houve uma grande decepção.
Esperavam a grande Piaf e a grande Piaf entrou em cena com
aquele vestidinho de sempre, cantando muito à vontadedemais
para os americanos, que vêem suas estrelas com lantejoulas. E
no entanto, Piafera mais do jazz, tinha a ver com as negras
americanas em sua simplicidade. Há uma passagem interessante em
comum entre as duas. Charles Aznavour, que negou "de pé
junto" nunca ter tido uma ligação com Piaf, enquanto a própria
Piaf dizia amplamente que o ensinou a cantar, acabou escrevendo
uma música em francês para a Amália gravar. É uma música
muito bonita, feita a partir da introdução da Amoraria,
que devido ao tempo acabamos não incluindo no repertório do
espetáculo. Além disso, por ser uma música em francês, eu não
queria chocar o público. Vindo de Piaf, eu não poderia fazerAmália
cantando em francês.
EM - Entre uma e
outra qual foimais difícil de interpretar?
BF –
A Amália, porque eu falo bastante em Amália no espetáculo
enquanto em Piaf eu não falava
quase nada, a não ser na própria peça. Em Amália eu
falo muito e tudo que eu falo é castiço.
Não vou dizer com sotaque português porque nós, brasileiros,
é que falamos com sotaque. Então, eu tive de estudar sílaba
por sílaba como se diz as palavras em português autêntico e
isto foi difícil. Difícil por ser tão parecido, talvez. Foi
um trabalho de ourives. Falar e cantar com o português em
sotaque perfeito é muito, muito, muito difícil. A colocação
das vogais, a abertura e o fechamento, por exemplo, é muito
diferente. Assim como o final das palavras.
EM - A senhora
chegou a conhecer alguma das duas, pessoalmente?
BF –
A Piaf veio ao Brasil várias vezes, mas eu nunca a vi
pessoalmente. Já a Amália, apesar de nunca termos trocado uma
palavra, certa vez estivemos em uma mostra de figurinos no museu
do Teatro de Lisboa. Estivemos a uma distância de dois metros e
meio uma da outra, mas as pessoas que estavam à nossa volta não
imaginavam que não nos conhecíamos e acabamos não sendo
apresentadas. O último concerto de Amália que eu assisti foi
no reveillon de 1989,o Cassino Estoril.
EM - Musicalmente,
com qual a senhora se identifica mais?
BF –
Sinceramente, eu não posso dizer isto. Talvez se você
tivesseme dado como opção a Ella Fitzgerald junto delas eu me
identificaria muito mais com Ella, por causa da qualidade da canção.
Neste sentido eu sou muito americana, a minha grande paixão
realmente são as músicas, os cantores e os musicais
americanos, também. Esta gente realmente me leva ao delírio e
acabou que eu nunca cheguei perto deles e nem pensei em fazer
algo sobre eles. Ella Fitzgerald, Julie Garland, Billie Holiday,
estas pessoas maravilhosas.
EM - Parece que
entre as brasileiras a senhora gostaria de interpretar Maysa
Matarazzo, por quê?
BF –
Não, eu não tentaria fazer porque o grande trunfo da Maysa é
a qualidade da voz dela e a emoção, que é uma coisa soberba.
Dizem abertamente que a melhor interpretação de N’e me
quite pas é dela. Além disso, eu tenho um físico
completamente contrário ao dela. Na Piaf, por exemplo,
eu sou uma mulher baixa e ela também. Amália, que teve a mesmíssima
altura que eu, colocava sapatos enormes como eu faço no show,
também. Temos então semelhanças mínimas, que ajudam. Já a
Maysa, não. Ela era alta e quando eu entrasse de personagem ia
chocar. Aí pega mal porque antes mesmo de cantar você tem de
entrar com o personagem em cena.
EJ - Quer dizer
que depois de Amália Rodrigues a senhora não vai mais fazer
cantoras?
BF –
Não, vou mostrar muita coisa da minha própria vida em Bibi
in Concert nº 3, que vou fazer na minha despedida dos
palcos, em 2003. O espetáculo terá como subtítulo Bye, Bye
Bibi e vou aproveitar para cantar Gota d’Água e
canções de outros musicais, além de coisas de Dolores Duran.
EM - A propósito,
o que a senhora achou dos musicais sobre a vida de Dolores Duran
e Elis Regina?
BF –
Eu fui ver a Soraia Ravenle fazendo a Dolores e achei uma
beleza. A Soraia também tem uma voz maravilhosa e um físico
privilegiado. É uma menina muito bonita, uma senhora artista. Já
o musical sobre Elis Regina eu não assisti, ainda.
EM - E Elis
Regina, a senhora a viveria no palco?
BF –
Ah! sim, neste tempo do verbo, sim. Acho muito difícil porque
Elis é muito nossa. Já há opinião formada sobre Elis Regina
de 170 milhões de brasileiros.
Jornal Estado de
Minas - 4 de agosto de 2002
Esta matéria
foi gentilmente enviada por Lourenço B. Santos. Obrigada,
Lourenço.
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