Em
comemoração aos 148 anos de Aracaju, Bibi Ferreira
apresenta hoje, no Tobias Barreto, o Bibi vive Amália
ALESSANDRA
FRANCO
Bibi vive
Amália, espetáculo principal das comemorações dos 60
anos de carreira de Bibi, estreou no Rio de Janeiro, em
1° de junho de 2001, e já se tornou um marco na
carreira da atriz. A performance de Bibi na pele da
fadista portuguesa Amália Rodrigues vem
arrebatando platéias em todo o Brasil e em Portugal e
poderá ser vista hoje pelos sergipanos, no teatro
Tobias Barreto, às 21h.
Nessa
entrevista exclusiva para o CINFORM, Bibi fala sobre a
as suas impressões sobre a produção televisiva e
teatral atuais, das experiências tristes da sua
carreira e dos seus projetos futuros.
CINFORM -
Seu primeiro grande ideal foi estudar música. Depois
acabou descobrindo o amor pelo teatro, pela TV
e pela dança. Poderia dizer que seu coração bate mais
forte por qual desses tipos de arte?
Bibi Ferreira – A música. Prova disso é que na
primeira oportunidade passei a fazer musicais. Desde
cedo, assim como todas as moças da minha geração,
comecei a estudar música. Minha mãe me colocava num
regime muito rígido de trabalho e estudo. A música era
uma diversão e também um toque de cultura na minha
educação. Aprendi vários idiomas e a tocar
instrumentos como piano (desde os sete anos) e violino.
Aos 14 anos já lecionava violão.
CINFORM –
A senhora teve alguns insucessos na carreira, como o incêndio
no Teatro Carlos Gomes, RJ, na década de 50, poucos
dias depois da estréia do musical Escândalos 1950.
Poderia citar outros momentos difíceis da sua carreira?
Bibi Ferreira – Essa passagem foi terrível. Quando eu vi o
teatro pegando fogo pensei que meu marido ficaria muito
triste. Me perguntei se iríamos superar as dívidas e
se haveria estabilidade para o nosso matrimônio.
Chegamos a conclusão que não. Acabei perdendo também
o marido. Foi tudo embora naquele incêndio maldito, mas
foi só isso que me aconteceu de ruim.
CINFORM –
A senhora foi vítima da crítica quando resolveu
aventurar-se numa série de comédias. Como recebeu essa
reprovação? Chegou a se arrepender?
Bibi Ferreira – Foi com certeza um passo errado. Mas a culpa foi
do empresário que não fez divulgação do espetáculo.
Ninguém sabia que estávamos lá e foi um fracasso de público.
CINFORM -
Que tipo de relação nutre com a mídia atualmente?
Bibi Ferreira – A melhor possível.
CINFORM - Qual a principal
diferença dos críticos brasileiros para os de fora do
País?
Bibi Ferreira – A primeira fase com a companhia de comédia
em Portugal correu mal mas depois correu tudo muito bem
com a mídia e a crítica. Teve até um jornal que
publicou um artigo muito interessante dizendo que
Portugal estava dividido entre “amalistas” (os que
gostavam de Amália Rodrigues), e “bibizistas “ (fãs
de Bibi Ferreira). Foi uma época gloriosa. Aqui no
Brasil sempre tive críticas muito boas.
CINFORM - O
que acredita faltar à sua carreira?
Bibi Ferreira – Venho me realizando desde muito tempo. À medida
em que a vida passa você vai achando que tem muito mais
pela frente. Como me sinto muito bem, tenho muito
entusiasmo pela vida. Pretendo fazer tudo que me
aparecer pela frente. No final do próximo ano quero
dirigir a ópera Otelo, de Verdi. Tenho outra infinidade
de peças para dirigir.
CINFORM -
Aos 80 anos, a senhora mantém uma vitalidade invejável.
Qual o segredo da sua boa forma?
Bibi Ferreira – Não tem segredo nenhum. Apenas entusiasmo e a
energia que Deus me deu. A combinação do fator Rh do
meu pai com o da minha mãe deve ter sido uma perfeição!
CINFORM -
Acredita ter nascido para os palcos ou considera seu
talento fruto da sua determinação como a que
demonstrou ao misturar a MPB com músicas clássicas de
Bizet e Verdi, em 1994, no Bibi in Concert?
Bibi Ferreira – Tinha um conhecimento musical muito grande e uma
certa cultura social. Meu pai trazia discos de ópera
que eu gostava de ouvir, mas não entendia, pois eram
cantadas em alemão, francês e italiano. Isso foi
despertando em mim o desejo de colocar letra para que eu
pudesse cantar. Foi aí que tive a idéia de pegar
letras de samba e colocar dentro das óperas. Assim
nasceram os espetáculos Bibi in Concert I e II. No
segundo semestre desse ano pretendo lançar o número três.
CINFORM - A
sua afirmação “minha babá era o camarim” está
acompanhada de orgulho ou mágoa pelas dificuldades que
seus pais passaram ao aventurar-se pelo mundo das artes
cênicas e acabaram impondo-a esse estilo de vida?
Bibi Ferreira – Não ligo a mínima para isso. Não faço referências
dramáticas a esse respeito. É verdade que acabei
entrando para o teatro por imposição dos meus pais,
mas não carrego mágoas. O que ocorreu foi que por um
problema de penhora meu pai não podia ter a bilheteria
do teatro em seu nome. Para fazê-la funcionar, ele me pôs
como empresária e pediu à minha mãe (nessa época
meus pais já estavam separados) que permitisse que eu
estreasse no teatro numa peça que ele escolhesse para
mim. Como ela o amava muito, viu nisso uma oportunidade
de ficar mais perto dele, já que, como naquela época
as moças não andavam sozinhas, todos os dias ela teria
que me levar ao teatro. Tive que abandonar meus estudos.
Ensaiava de segunda a domingo, de 8h às 24h. Com esse
horário não havia possibilidade de dedicar quatro
horas do meu dia para estudar piano. Acabei perdendo
também todos os idiomas que havia aprendido.
CINFORM -
Acha que se não tivesse sido tão precocemente inserida
o mundo artístico sua vida teria tomado outro rumo?
Bibi Ferreira – Nos anos 40, as moças não tinham vontade própria.
Minha mãe era o meu pensamento. Aprendi a gostar do
teatro aos poucos. Porém, se não o tivesse conhecido,
com certeza seguiria a carreira musical.
CINFORM -
Como recebeu a homenagem da Viradouro nesse carnaval?
Bibi Ferreira – Não tem adjetivo que possa descrever. Na avenida
me senti pequenininha, percebi que não era nada.
Naquela empolgação nem conseguia ouvir as palmas e os
gritos com o meu nome. Fiquei num estado em que não me
sentia mais um ser humano. Era como se pertencesse ao
espaço sideral. Parecia estar em uma outra camada.
Senti como se Deus me levantasse e os anjos me
acariciassem. É algo tão soberbo, que me falta
capacidade literária para expressar em palavras o que
senti.
CINFORM -
Gota D’Água, encenado em 1975, continua sendo a obra
mais importante do teatro brasileiro?
Bibi Ferreira – Sem dúvida. Mas agora tem uma peça, que talvez
entre em cartaz no fim do ano, chamada Bandeira de
Retalhos, de Sérgio Ricardo, que segue os mesmo padrões
de Gota D’água. Desde 1975, Bandeira de Retalhos foi
a única peça que eu vi com valor dramatúrgico, literário
e musical à altura de Gota D’água.
CINFORM -
Como vê a produção televisiva dos dias atuais?
Bibi Ferreira – Assisto sempre que posso às novelas. Gosto de
ver os atores novos dominando cada vez melhor a
dramarturgia, a beleza das atrizes e os colegas do meu
tempo sempre maravilhosos. É muito comovente e
divertido.
CINFORM -
Por que nunca fez novelas?
Bibi Ferreira – Os outros também não fazem as coisas que eu faço.
Como eu gosto de teatro, quase sempre estou fazendo
teatro. Na verdade estou a várias décadas vivendo do
teatro.
CINFORM –
A senhora considera o Brasil carente de bons autores de
teatro contemporâneos?
Bibi Ferreira – Ao contrário. Conheço várias peças de jovens
autores que me admiram muito.
Cinform o melhor
jornal On Line de Aracaju
Sexta-Feira, 21 de
Março de 2003