|
Depois de ter divertido e emocionado plateias
em mais de 150 peças e musicais entre os anos 60 e 80, em My
Fair Lady, Gota d’Água ou Piaf,
Bibi Ferreira escolheu Amália Rodrigues para comemorar 60 anos
de carreira. O espectáculo Bibi Vive Amália
estreou no princípio do mês e inaugurou a nova casa de espetáculos
do Rio de Janeiro, a luxuosa Ribalta, ampla como os sonhos de
riqueza dos moradores da emergente Barra da Tijuca.
Um crítico achou que tanto espaço
era inadequado ao intimismo do fado. Enganou-se. Uma frase muito
repetida por Amália foi a senha para Bibi iniciar o espetáculo:
«Mais uma vez aconteceu o milagre de vocês terem
vindo» disse ela, antes de cantar os fados que tornaram Amália
famosa no Brasil desde os anos 50.
O público delirou. A crítica
também: «Bibi está de babar. Se há 20 anos
incorporou Piaf, servir de cavalo para Amália é moleza, se é
que as três não são a mesma pessoa», escreveu o
colunista Joaquim Ferreira dos Santos do «Jornal do Brasil»,
que não costuma poupar ninguém.
A verdade é que Bibi conseguiu
tornar-se Amália sem deixar de ser Bibi. Valeu a pena tantas
provas de roupas, de perucas, até encontrar a que melhor
imitasse o penteado de Amália; a procura por longos brincos de
cigana, pelo broche prateado, o esmero na maquilhagem. Num
determinado momento a semelhança é tão acentuada que confunde
uma espectadora. Quando Bibi se refere ao passado como se fosse
Amália, uma mulher, numa das primeiras mesas da plateia,
interrompe-a: «Você ou ela?». Na véspera, Dercy
Gonçalves, outra grande dama do teatro brasileiro, que conheceu
Amália nos anos 50, também interrompera o espetáculo com um
grito: «Bibi, você é um fenómeno!».
A palavra que está na moda entre
o jovem público carioca para brindar as mulheres artistas é
apenas uma, muitas vezes repetida nesta noite, aos berros: «Maravilhosa!».
De tão repetida, confunde-se com acordes dos muitos fados
cantados com a ajuda da assombrosa guitarra de Carlos Gonçalves,
que acompanhou Amália por mais de 30 anos.
Bibi começou no teatro em 1941,
pelas mãos do pai, Procópio Ferreira, que a dirigiu em La
Locandiera, de Goldoni. Mas 60 anos de carreira é número
controverso para quem entrou num palco pela primeira vez quando
tinha 24 dias de vida, nos braços da sua madrinha, a actriz
Abigail Maia, para substituir uma boneca de cena que ninguém
encontrava. Viver nos bastidores e entrar de vez em quando em
cena era destino de quem nasceu da união do maior actor cómico
do país e de uma das mais belas estrelas do teatro de revista
daqueles anos, Aida Queirolo.
Aos três anos Bibi fazia sucesso
no exterior: em 1925, o crítico do «La Nacion», de Buenos
Aires, dedicou algumas linhas entusiasmadas à menina que
roubava a cena na companhia Eulégio Velasco ao dançar com
Maria Caballé. Aos sete era um dos soldadinhos na ópera Carmen,
no Teatro Municipal do Rio, cidade onde estudou ballet. Estudou
também piano, violino e canto. Com esta primorosa educação
artística, o pai preparava-a para o futuro. Aos 24 anos
formou-se em Interpretação e Direção na Real Academia de
Artes, em Londres.
Mas a estréia oficial foi
em 1941, pelas
mãos do pai, que adorava.
|

Apanhou
de Amália os trejeitos e até a voz. Tudo para manter
vivos os dois mitos: o de Bibi e o da maior das
fadistas. |
Desde então foram muitos os
sucessos. Ela soube administrar bem a carreira. Os anos 40 e 50
são dedicados ao teatro, fez poucos filmes, um deles em 1946,
com os ingleses, The End of River. Nos anos 60 faz
sucesso com musicais americanos (My Fair Lady, Alô
Dolly, O Homem da Mancha) e na televisão, com
um programa líder de audiência. Nos anos 70 surge a Bibi
directora, a preferida de Maria Betânia e Paulo Gracindo.
Dirige peças, espectáculos de variedades e musicais.
Um presente do segundo marido, o
escritor Paulo Pontes, e de Chico Buarque de Hollanda,
transforma-se no ponto máximo de sua carreira, em 1975: o
musical Gota d’água. Bibi comove o país e
conquista novas gerações com a sua fabulosa Medéia.
Recentemente na febre de musicais que toma conta do Rio e São
Paulo , alguém pensou em reencenar esta obra.
A ideia emperrou
diante de uma pergunta: quem substituiria Bibi cantando com a
mesma dramaticidade«Deixe em paz meu coração/ que
ele é um poço até aqui de mágoa»?
Nos anos 80 tenta superar a dor
pela morte de Paulo Pontes com um espectáculo onde interpreta
outra mulher sofrida: Edith Piaf. Com ele viaja por 60 cidades
brasileiras. Quando o apresenta em Lisboa, Amália vai muitas
vezes ver o espetáculo e confidencia a amigos que Bibi seria a
intérprete ideal para levar sua vida ao palco. Um deles era
Tiago Torres da Silva, que procurou Bibi para conversar sobre o
assunto, quando esteve no Rio para produzir um disco de Né
Ladeiras e Chico César. Em Maio de 1999 os dois começam a
detalhar o projeto, mas Amália morre em Outubro e Bibi já não
quer falar no assunto. Só em Dezembro de 2000 se chega a um
acordo. Bibi põe-se a estudar as músicas, a pronúncia,
discute o texto com Tiago, tudo decalcado do que disse Amália
em centenas de entrevistas. Quando o guitarrista Carlos Gonçalves
chega para participar no espectáculo, o projecto está pronto.
«Como é possível ter
uma voz assim aos 79 anos?» pergunta Tiago no estúdio onde
ela ensaia, dias antes da estréia: «As pessoas não vão
acreditar quando virem a Bibi a cantar tão loucamente o fado»,
diz ele. Outro jovem, o produtor Nilson Raman, preocupa-se em
que Bibi não fale muito na entrevista, em que poupe sua voz: «Você
não pode imaginar o que ela fez hoje! Já provou roupas,
perucas, ensaiou. Onde arranja tanta energia?».
Provavelmente da disciplina de
artista que aprendeu com os pais e da alimentação regrada.
Sempre teve saúde de ferro, mas sofreu um duro baque em 1992,
aos 70 anos, quando foi operada a um cancro no seio e se
submeteu a 28 sessões de radioterapia. Resistiu, venceu. Tem
apenas uma fotofobia que a obriga a usar óculos escuros durante
o dia.
O que a mantém viva é a família
toda ela, filha, netos, bisnetos a viver em seu redor no grande
apartamento da Avenida Rui Barbosa, frente ao aterro do
Flamengo. E a arte, o seu alimento desde os 24 dias de nascida.
Está sempre a alimentar-se dela: quando não está no palco,
está nos bastidores a dirigir os que nele estão. São cinco os
espetáculos em cartaz neste momento, no Rio e em São Paulo,
com sua assinatura.
Agora está de volta ao palco
como Amália e está feliz: «Minha intenção é fazer
uma grande homenagem a esta mulher fabulosa. Mostrar em vinte
canções e alguns textos, que realmente são dela, quem foi Amália
para os que não a conheceram e reavivar a lembrança naqueles
que a amaram desde os anos 50, quando ela viveu aqui». Na
penumbra da grande sala todo mundo percebe isto. E ela agradece,
como Amália: «Obrigada, obrigada».
O milagre, dela e de Amália,
aconteceu mais uma vez.
Expresso
Online Portugal - 16/6/2001
|