A alma da outra Amália

 

"...Bibi conseguiu tornar-se Amália sem deixar de ser Bibi."

 

 

 

Depois de encarnar Edith Piaf, Bibi Ferreira

 decide, aos 79 anos, lembrar Amália

 Rodrigues. Há quem confunda as duas e com 

boas razões

 

Texto de Iza Salles Freaza

 

Depois de ter divertido e emocionado plateias em mais de 150 peças e musicais entre os anos 60 e 80, em My Fair Lady, Gota d’Água ou Piaf, Bibi Ferreira escolheu Amália Rodrigues para comemorar 60 anos de carreira. O espectáculo Bibi Vive Amália estreou no princípio do mês e inaugurou a nova casa de espetáculos do Rio de Janeiro, a luxuosa Ribalta, ampla como os sonhos de riqueza dos moradores da emergente Barra da Tijuca.

Um crítico achou que tanto espaço era inadequado ao intimismo do fado. Enganou-se. Uma frase muito repetida por Amália foi a senha para Bibi iniciar o espetáculo: «Mais uma vez aconteceu o milagre de vocês terem vindo» disse ela, antes de cantar os fados que tornaram Amália famosa no Brasil desde os anos 50.

O público delirou. A crítica também: «Bibi está de babar. Se há 20 anos incorporou Piaf, servir de cavalo para Amália é moleza, se é que as três não são a mesma pessoa», escreveu o colunista Joaquim Ferreira dos Santos do «Jornal do Brasil», que não costuma poupar ninguém.

A verdade é que Bibi conseguiu tornar-se Amália sem deixar de ser Bibi. Valeu a pena tantas provas de roupas, de perucas, até encontrar a que melhor imitasse o penteado de Amália; a procura por longos brincos de cigana, pelo broche prateado, o esmero na maquilhagem. Num determinado momento a semelhança é tão acentuada que confunde uma espectadora. Quando Bibi se refere ao passado como se fosse Amália, uma mulher, numa das primeiras mesas da plateia, interrompe-a: «Você ou ela?». Na véspera, Dercy Gonçalves, outra grande dama do teatro brasileiro, que conheceu Amália nos anos 50, também interrompera o espetáculo com um grito: «Bibi, você é um fenómeno!».

A palavra que está na moda entre o jovem público carioca para brindar as mulheres artistas é apenas uma, muitas vezes repetida nesta noite, aos berros: «Maravilhosa!». De tão repetida, confunde-se com acordes dos muitos fados cantados com a ajuda da assombrosa guitarra de Carlos Gonçalves, que acompanhou Amália por mais de 30 anos.

Bibi começou no teatro em 1941, pelas mãos do pai, Procópio Ferreira, que a dirigiu em La Locandiera, de Goldoni. Mas 60 anos de carreira é número controverso para quem entrou num palco pela primeira vez quando tinha 24 dias de vida, nos braços da sua madrinha, a actriz Abigail Maia, para substituir uma boneca de cena que ninguém encontrava. Viver nos bastidores e entrar de vez em quando em cena era destino de quem nasceu da união do maior actor cómico do país e de uma das mais belas estrelas do teatro de revista daqueles anos, Aida Queirolo.

Aos três anos Bibi fazia sucesso no exterior: em 1925, o crítico do «La Nacion», de Buenos Aires, dedicou algumas linhas entusiasmadas à menina que roubava a cena na companhia Eulégio Velasco ao dançar com Maria Caballé. Aos sete era um dos soldadinhos na ópera Carmen, no Teatro Municipal do Rio, cidade onde estudou ballet. Estudou também piano, violino e canto. Com esta primorosa educação artística, o pai preparava-a para o futuro. Aos 24 anos formou-se em Interpretação e Direção na Real Academia de Artes, em Londres.

Mas a estréia oficial foi em 1941, pelas mãos do pai, que adorava. 

Apanhou de Amália os trejeitos e até a voz. Tudo para manter vivos os dois mitos: o de Bibi e o da maior das fadistas.

Desde então foram muitos os sucessos. Ela soube administrar bem a carreira. Os anos 40 e 50 são dedicados ao teatro, fez poucos filmes, um deles em 1946, com os ingleses, The End of River. Nos anos 60 faz sucesso com musicais americanos (My Fair Lady, Alô Dolly, O Homem da Mancha) e na televisão, com um programa líder de audiência. Nos anos 70 surge a Bibi directora, a preferida de Maria Betânia e Paulo Gracindo. Dirige peças, espectáculos de variedades e musicais.

Um presente do segundo marido, o escritor Paulo Pontes, e de Chico Buarque de Hollanda, transforma-se no ponto máximo de sua carreira, em 1975: o musical Gota d’água. Bibi comove o país e conquista novas gerações com a sua fabulosa Medéia. Recentemente na febre de musicais que toma conta do Rio e São Paulo , alguém pensou em reencenar esta obra. 

 

A ideia emperrou diante de uma pergunta: quem substituiria Bibi cantando com a mesma dramaticidade«Deixe em paz meu coração/ que ele é um poço até aqui de mágoa»?

Nos anos 80 tenta superar a dor pela morte de Paulo Pontes com um espectáculo onde interpreta outra mulher sofrida: Edith Piaf. Com ele viaja por 60 cidades brasileiras. Quando o apresenta em Lisboa, Amália vai muitas vezes ver o espetáculo e confidencia a amigos que Bibi seria a intérprete ideal para levar sua vida ao palco. Um deles era Tiago Torres da Silva, que procurou Bibi para conversar sobre o assunto, quando esteve no Rio para produzir um disco de Né Ladeiras e Chico César. Em Maio de 1999 os dois começam a detalhar o projeto, mas Amália morre em Outubro e Bibi já não quer falar no assunto. Só em Dezembro de 2000 se chega a um acordo. Bibi põe-se a estudar as músicas, a pronúncia, discute o texto com Tiago, tudo decalcado do que disse Amália em centenas de entrevistas. Quando o guitarrista Carlos Gonçalves chega para participar no espectáculo, o projecto está pronto.

«Como é possível ter uma voz assim aos 79 anos?» pergunta Tiago no estúdio onde ela ensaia, dias antes da estréia: «As pessoas não vão acreditar quando virem a Bibi a cantar tão loucamente o fado», diz ele. Outro jovem, o produtor Nilson Raman, preocupa-se em que Bibi não fale muito na entrevista, em que poupe sua voz: «Você não pode imaginar o que ela fez hoje! Já provou roupas, perucas, ensaiou. Onde arranja tanta energia?».

Provavelmente da disciplina de artista que aprendeu com os pais e da alimentação regrada. Sempre teve saúde de ferro, mas sofreu um duro baque em 1992, aos 70 anos, quando foi operada a um cancro no seio e se submeteu a 28 sessões de radioterapia. Resistiu, venceu. Tem apenas uma fotofobia que a obriga a usar óculos escuros durante o dia.

O que a mantém viva é a família toda ela, filha, netos, bisnetos a viver em seu redor no grande apartamento da Avenida Rui Barbosa, frente ao aterro do Flamengo. E a arte, o seu alimento desde os 24 dias de nascida. Está sempre a alimentar-se dela: quando não está no palco, está nos bastidores a dirigir os que nele estão. São cinco os espetáculos em cartaz neste momento, no Rio e em São Paulo, com sua assinatura.

Agora está de volta ao palco como Amália e está feliz: «Minha intenção é fazer uma grande homenagem a esta mulher fabulosa. Mostrar em vinte canções e alguns textos, que realmente são dela, quem foi Amália para os que não a conheceram e reavivar a lembrança naqueles que a amaram desde os anos 50, quando ela viveu aqui». Na penumbra da grande sala todo mundo percebe isto. E ela agradece, como Amália: «Obrigada, obrigada».

O milagre, dela e de Amália, aconteceu mais uma vez.

 

Expresso Online Portugal - 16/6/2001

 

 

 

 

  Suas impressões 

 

 

O fado "Lisboa Antiga", arquivo midi que você ouve ao fundo, foi seqüenciado por Fernando de Brito Vintém (http://www.midiportugal.com/) e faz parte do espetáculo "Bibi vive Amália".