Vida e Obra de uma Diva

 

Juliana Wosgraus

 

Diário Catarinense - 31 de maio de 2009

 

Simpática e bem humorada, a atriz Bibi Ferreira concedeu entrevista à coluna, por telefone, esta semana. Ela chega a Floripa na próxima terça-feira e estará em cartaz no Teatro Governador Pedro Ivo de sexta a domingo com a peça Às Favas com os Escrúpulos, de Juca de Oliveira e direção de Jô Soares. Retornando à comédia depois de anos dedicados aos musicais, ela falou do trabalho que a mantém ativa aos 86 anos e também da vida pessoal. Conversa rara.

Filha do lendário Procópio Ferreira, Bibi estreou nos palcos com 24 dias de vida, substituindo uma boneca que sumiu na hora do espetáculo, ou seja, tem a mesma idade que o tempo de carreira. E irá passar seu aniversário na Ilha. Mas nem a data do nascimento é simples na vida desta diva.

Cantar, atuar, dirigir, compor, qual a delícia maior em viver entre estas tantas artes que a senhora domina?

- A questão não é qual delas mais gosto, mas a que me é mais difícil, pois sou movida a desafios. E, sem dúvida, cantar é a mais difícil destas artes. Estar afinada não é fácil.

A senhora está prestes a completar aniversário. A data é o próximo dia 10 de junho, como está na sua certidão de nascimento, ou dia 1º?

- Na época em que nasci, as coisas eram mais difíceis, sem muita informação. Minha mãe, muito jovem, teve um parto complicado de gêmeos, mas meu irmão não sobreviveu. Ela disse que nasci no dia 1º de junho. Papai dizia que nasci no dia 4, mas na certidão registraram dia 10. Eu comemoro na data de mamãe, dia 1. E, por sinal, estarei aí, em Florianópolis, neste dia.

Qual a melhor maneira de comemorar seus 87 anos?

- A melhor maneira é trabalhando, trabalhando, trabalhando. Esta é a melhor coisa do mundo, sinal de que estou bem, disposta. Ainda mais fazendo o que gosto e rodeada de pessoas que me querem bem. É o que me faz funcionar. Em Florianópolis, que é uma cidade lindíssima, com uma topografia que lembra muito o Rio de Janeiro, quero comer um peixe feito na pedra, não me lembro qual o restaurante, mas uma vez comi e adorei. Quero repetir a dose. A primeira vez que estive aí foi com meu pai, na minha primeira temporada. Devia ter uns 23, 24 anos. Sempre adorei esta cidade.

Como se sente sendo, talvez, a única pessoa do mundo que tem o mesmo tempo de carreira que a própria idade, já que estreou no palco menos de um mês após ter nascido?

- (risos) Eu acho que deveria estar no Guinness Book, o livro dos recordes. Aliás, não é má ideia, quem sabe ainda não me inscrevo?

Sendo também diretora consagrada, qual a melhor parte em ser dirigida por Jô Soares nesta peça? Se é que alguém dirige Bibi Ferreira...

- A Bibi é uma pessoa não tão importante assim de ser dirigida. Mas trabalhar com o Jô é uma maravilha. O Jô é um cavalheiro, com muita cultura, muita prática, muito talento e bastante severo. No entanto, é muito educado e sabe lidar com as pessoas. Sendo ele um comediante, facilita muito a direção da comédia. O teatro tem uma ordem: ser ouvido, ser entendido e ser sentido. O Jô sabe amarrar tudo isso como poucos.

Foge da televisão?

- Adoro televisão, mas para assistir, principalmente, as novelas. Quando sei que vou perder um capítulo, peço para gravarem ou assisto no computador. Assisto como técnica, mas no fundo me divirto muito. Gosto muito de ver os amigos e os jovens atores. Temos uma plêiade de atores novos muito boa. Rodrigo Lombardi, Márcio Garcia, Juliana Paes, entre outros tantos, estão provando que não são apenas caras bonitas, mas sustentam papéis de protagonistas.

Como vê o público de teatro no Brasil? O que pode ser feito para ampliar este público?

- O público é sempre espontâneo. E como riso é a sensação mais espontânea do ser humano, é maravilhoso fazer comédia, dominar a plateia com o riso. Às Favas com os Escrúpulos tem muito do nosso humor cotidiano. Tenho certeza que daqui a alguns anos poderemos entender o Brasil de hoje, através deste texto do Juca de Oliveira.

E para viabilizar as produções, o que ainda faz mais falta, além de dinheiro?

- Além do dinheiro e os patrocínios? A agenda dos teatros e a montagem do elenco que se quer disponível. Mas o mais complicado ainda é o dinheiro, que está cada vez mais difícil. Antigamente, era mais fácil para o patrocinador, pois agora está muito burocratizado e complicado para as empresas. As leis complicaram para o patrocinador.

Esta peça marca sua volta ao teatro, à comédia. O que mais está curtindo neste retorno?

- Trabalhar com este elenco, ser dirigida pelo Jô Soares e interpretar um texto do Juca de Oliveira. Mas nada disso seria tão gratificante se não sentisse o calor, o carinho do público. Fazer rir é uma maravilha!


 


 

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