
Our Fair Lady
Bibi é
intensa, magnética, um patrimônio
Mônica Manir
- Começou por volta dos anos
50, quando passei a sentir necessidade de me separar do sol.
Depois percebi que, mesmo com luz elétrica, dentro de casa, o
incômodo era o mesmo. A necessidade dos óculos virou uma
constante. À noite, faço tudo no escuro. Passo fio dental no
escuro. E sofro muito em cena. Às vezes não consigo, logo de
entrada, abrir os olhos de vez. A bateria de frente é uma coisa
terrível, brutal.
Estamos no apartamento 1503 de um hotel nas redondezas da
Avenida Paulista. Um janelão inunda a sala com a luz chapada de
São Paulo. Bibi Ferreira vira o rosto. Tem fotofobia grau
máximo. Pavor de claridade. Ojeriza à luz. Sob imensos óculos
escuros, instalou no hotel mais um feudo temporário, que já dura
quatro meses. Chegou do Rio em fevereiro para ensaiar Às Favas
com os Escrúpulos, de Juca de Oliveira, amigo de longuíssima
data, mas com quem contracena pela primeira vez. A peça estreou
há
30
dias e ela já insinua outra, "Isadora e Oswald", com exibição
prevista para julho e direção sua.
- É um suposto encontro entre João do Rio, o primeiro grande
jornalista brasileiro, o poeta Oswald de Andrade e a bailarina
Isadora Duncan, uma mulher livre, revolucionária, que quebrou
todas as regras da dança clássica. O Aguinaldo Silva propôs a
idéia, que é estupenda, porque são três porras-loucas.
No 1503 também estão Neyde Gallassi, sua escudeira há 25 anos,
que ela apresenta como governanta, a jornalista, atriz e
produtora teatral Jalusa Barcellos, além de Anselmo Vasconcellos
e Letícia Spiller, dois do elenco de Isadora e Oswald, que
entabulam ali os primeiros passos do espetáculo. Passos
apertados. Letícia, que faz Isadora, arrisca girar o braço entre
um móvel e outro. Anselmo lê as falas de João do Rio sentado na
poltrona. Acomodada num assento ortopédico Doutor Coluna, Bibi
se incomoda.
- O difícil de ensaiar no hotel é que o ator tem uma impostação
própria, um ritmo. Quando está sentado, é um. Quando está em pé,
é outro. A peça vai ser inteira em pé!
Toca o telefone. Ela tem entrevista com a rádio. Canta La Vie en
Rose e um trecho de My Fair Lady no cômodo ao lado. À meia voz,
Anselmo revela que nunca viu ninguém como Bibi no teatro. Quando
encenava O Último Carro no Shopping de Copacabana, em 1976, ela
atordoava o público com Gota d’Água, de Chico Buarque e Paulo
Pontes, em outra sala do mesmo shopping. O Último Carro absorvia
o excesso de público do Gota. “Sua interpretação como Medéia era
a tragédia na vibração mais contundente, todos saíamos com
vontade de dar um beijo na boca dela.” Letícia se diz apaixonada
por Bibi: “Ela é efervescente”.
Bibi, registrada Abigail Izquierdo Ferreira, volta à cena. O
nome oficial vem de uma homenagem do pai à vedete e cantora
Abigail Maia, para cuja companhia Procópio Ferreira trabalhava
na época do nascimento da filha. Aliás, foi no colo da madrinha
que ela estreou aos 24 dias de idade fazendo papel de boneca. O
brinquedo tinha sumido do camarim.
Andando devagar - ela sempre faz tudo devagar, ainda mais sobre
10 centímetros de salto - Bibi dispara críticas ao telefone. O
aparelho em si.
- O telefone é para coisas pequenas. Vai? Não, fico. Até logo.
Pronto. É cafona conversar ao telefone, a não ser quando por
amor. Aí fala-se bobagem, uma em cima da outra, sem cansar. Você
acha, meu amor? Acho sim, acho sim. Um beijo pra você. Onde?
Onde você quiser. Escolhe. Tô com saudade. Eu também. Você é
linda. Você é lindo. Desliga você. Desliga você. A vida sem amor
não vale nada. Anota aí. A vida sem amor não vale nada.
Letícia faz alongamento no chão. Reclama de uma rouquidão no
peito, que teria raiz alérgica. Bibi faz a pergunta que não lhe
pode calar:
- Fuma?
A pequena Abigail é notória pela disciplina monástica. Não fuma,
não bebe, não toma gelado, não gosta de festas, odeia badalação.
Passa pito em todos os que corrompem os princípios do bom atleta
de palco. Cita Caruso, que comia muito bem, dormia muito bem,
amava muito bem, casou muito bem, cantava muito bem. E os
exercícios?
- Até já fiz aquela ginástica da Força Aérea Canadense, 12
minutos, tatatá, mas não faço mais. Hoje eu exercito o olhar. A
esteira está ali e eu fico olhando. Ioga e seus derivados não
funcionam comigo porque sou bem tranqüila. Não sou allegro
vivace. Sou allegro. Mas penso muito. Não é o cochilar do velho.
É o doze, que está virando palavra internacional. Fico pensando
na vida, fico dozing, quieta. Meu lazer é o nada.
Mostra um anúncio em que ela aparece como modêlo, assim, com
acento, 10 quilos a menos apenas. Eram os 60, Bibi encenava My
Fair Lady. Está de tailler amarelo, criação especial da Casa
Vogue. Atrás, um Renault Dauphine branco. Fez a propaganda para
arrumar um carro mais barato para a mãe, dona Aída, a bailarina
Aída, que adorava velocidade - tanto que tirou brevê e voava
rasante de teco-teco sobre a Rua Paissandu, no Rio, vergando as
palmeiras que se descortinam no Palácio Guanabara. Bibi não se
parece com dona Aída.
- Nunca dirijo e nunca tive vontade de dirigir. Viajava de um
lado para o outro, três meses aqui, três meses ali. Como ia ter
carro? Se bem que encontrei Paulo Autran uma vez, em
Florianópolis, a caminho de São Paulo, dirigindo sozinho... Tem
de tudo! Nunca pensei em carro pra mim, ainda mais carro com
chofer. Para quê eu quero chofer? Para, na hora em que eu o
chamar, ele estiver tomando café no boteco? Existem 220 mil
táxis no Rio de Janeiro, todos passando perto da minha casa. É
só fazer assim que param 10. Minha vida é muito simples.
O patrimônio de Bibi se fez a partir da tevê, onde comandou
programas como Brasil 60, Brasil 61, Bibi Sempre aos Domingos e
o Curso de Alfabetização para Adultos, pelo qual recebeu o
prêmio de melhor comunicadora. Comprou primeiro uma casa no
bairro paulistano do Jabaquara, na saída de Congonhas. Péssimo
negócio. Se o avião não levantasse vôo, entrava pela sala de
jantar. Vendeu a casa e adquiriu um apartamento no Flamengo, mas
não tinha dinheiro para mobiliá-lo. Calhou de um francês querer
se desvencilhar de um lote de coisas, algumas preciosidades, e
ela arrematou o caminhão inteiro por uma bagatela. Quando fez um
pouco de dinheiro com o Bibi in Concert número 1, comprou o
segundo apartamento. Parou aí.
Quer dizer, tem a voz, a tessitura de voz, uma condição vocal
excepcional, patrimônio inalienável. Na peça em cartaz, Bibi
fala 70 das 76 páginas. Abre o espetáculo, situação inédita na
carreira. Em Gota d'Água, por exemplo, entrava no 35º minuto.
Agora coloca o tom acima logo no início.
- Tenho a sorte de Deus ter me dado o pulmão que me deu, um
pulmão de homem e atleta, as cordas vocais que me deu, toda a
ossatura facial, as maçãs salientes, a arcada suficientemente
alta e larga, os dentes todos iguais. Herdei isso do meu pai,
sou uma tenor.
Nem por isso pratica teatro com o pé nas costas. No dia da peça,
evita falar durante a tarde (vai dormir
às 4 da manhã, acorda depois do meio-dia). Repassa o texto todo
novamente, de forma metódica. No camarim, começa a se concentrar
enquanto faz a própria maquiagem com base Elizabeth Arden, cajal
preto, rímel, rouge, farto batom japonês na cor carmim. Limpa as
vias aéreas com soro fisiológico, depois borrifa muito Carolina
Herrera. Sua coxia é tranqüila, porém séria, sem deslumbramentos
nem chiliques. Ostenta uma elegância de criatura despojada.
Faz aniversário em três tempos. A mãe dizia que foi no dia 1º de
junho, passou malíssimo, o irmão gêmeo morreu no parto. Procópio
garantia que a data era 4, mas os documentos só saíram no 10. Em
85 anos, fez uma filha, dois netos, dois bisnetos e cinco
casamentos, mas não fecundou sonhos. Pela vida atarantada,
viagens pela costa do Brasil, caminhão atolado, ator gripado,
cenário pequeno demais, cenário grande demais, não teve ocasião
de divagar.

- Não faço planos para o futuro, mesmo porque meu futuro está
meio reduzido. Não acho muita graça na velhice, não. A velhice é
a maior prova de que o inferno existe. Não é nada agradável,
embora eu tenha saúde. Mas falta a vontade da juventude. A
juventude é a coisa mais bonita que se tem. Mesmo assim, eu tive
a minha, bem aproveitada ou não.
Pega o ramalhete de rosas colombianas. Vai entrar em cena. Toma
um copo d'água, espera a deixa visual e assume Lucila, a mulher
do senador Bernardo. Gesticula, senta na mesa, dança com Juca,
fica trôpega de bêbada, acelera tudo o que tem de lento no
dia-a-dia. O pai parece baixar sobre ela em vários momentos,
Bibi diz isso a Ary Toledo e Etty Fraser no camarim. Os colegas
se divertem somando quantas vezes ela é aplaudida no meio da
peça. Jô Soares, o diretor, conta 18.
Às favas com os escrúpulos. Bibi é a maior.
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Fotos de Antonio
Milena - AE
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Glavam
Estado
de S. Paulo - 10 de junho de 2007
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