Arte by Angela Glavam - Foto Antonio Milena - AE

 

Our Fair Lady

Bibi é intensa, magnética, um patrimônio

Mônica Manir  

 

- Começou por volta dos anos 50, quando passei a sentir necessidade de me separar do sol. Depois percebi que, mesmo com luz elétrica, dentro de casa, o incômodo era o mesmo. A necessidade dos óculos virou uma constante. À noite, faço tudo no escuro. Passo fio dental no escuro. E sofro muito em cena. Às vezes não consigo, logo de entrada, abrir os olhos de vez. A bateria de frente é uma coisa terrível, brutal.

Estamos no apartamento 1503 de um hotel nas redondezas da Avenida Paulista. Um janelão inunda a sala com a luz chapada de São Paulo. Bibi Ferreira vira o rosto. Tem fotofobia grau máximo. Pavor de claridade. Ojeriza à luz. Sob imensos óculos escuros, instalou no hotel mais um feudo temporário, que já dura quatro meses. Chegou do Rio em fevereiro para ensaiar Às Favas com os Escrúpulos, de Juca de Oliveira, amigo de longuíssima data, mas com quem contracena pela primeira vez. A peça estreou há Foto Antonio Milena - AE30 dias e ela já insinua outra, "Isadora e Oswald", com exibição prevista para julho e direção sua.   

- É um suposto encontro entre João do Rio, o primeiro grande jornalista brasileiro, o poeta Oswald de Andrade e a bailarina Isadora Duncan, uma mulher livre, revolucionária, que quebrou todas as regras da dança clássica. O Aguinaldo Silva propôs a idéia, que é estupenda, porque são três porras-loucas.

No 1503 também estão Neyde Gallassi, sua escudeira há 25 anos, que ela apresenta como governanta, a jornalista, atriz e produtora teatral Jalusa Barcellos, além de Anselmo Vasconcellos e Letícia Spiller, dois do elenco de Isadora e Oswald, que entabulam ali os primeiros passos do espetáculo. Passos apertados. Letícia, que faz Isadora, arrisca girar o braço entre um móvel e outro. Anselmo lê as falas de João do Rio sentado na poltrona. Acomodada num assento ortopédico Doutor Coluna, Bibi se incomoda.

- O difícil de ensaiar no hotel é que o ator tem uma impostação própria, um ritmo. Quando está sentado, é um. Quando está em pé, é outro. A peça vai ser inteira em pé!

Toca o telefone. Ela tem entrevista com a rádio. Canta La Vie en Rose e um trecho de My Fair Lady no cômodo ao lado. À meia voz, Anselmo revela que nunca viu ninguém como Bibi no teatro. Quando encenava O Último Carro no Shopping de Copacabana, em 1976, ela atordoava o público com Gota d’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, em outra sala do mesmo shopping. O Último Carro absorvia o excesso de público do Gota. “Sua interpretação como Medéia era a tragédia na vibração mais contundente, todos saíamos com vontade de dar um beijo na boca dela.” Letícia se diz apaixonada por Bibi: “Ela é efervescente”.

Bibi, registrada Abigail Izquierdo Ferreira, volta à cena. O nome oficial vem de uma homenagem do pai à vedete e cantora Abigail Maia, para cuja companhia Procópio Ferreira trabalhava na época do nascimento da filha. Aliás, foi no colo da madrinha que ela estreou aos 24 dias de idade fazendo papel de boneca. O brinquedo tinha sumido do camarim.

Andando devagar - ela sempre faz tudo devagar, ainda mais sobre 10 centímetros de salto - Bibi dispara críticas ao telefone. O aparelho em si.

- O telefone é para coisas pequenas. Vai? Não, fico. Até logo. Pronto. É cafona conversar ao telefone, a não ser quando por amor. Aí fala-se bobagem, uma em cima da outra, sem cansar. Você acha, meu amor? Acho sim, acho sim. Um beijo pra você. Onde? Onde você quiser. Escolhe. Tô com saudade. Eu também. Você é linda. Você é lindo. Desliga você. Desliga você. A vida sem amor não vale nada. Anota aí. A vida sem amor não vale nada.

Letícia faz alongamento no chão. Reclama de uma rouquidão no peito, que teria raiz alérgica. Bibi faz a pergunta que não lhe pode calar:

- Fuma?

A pequena Abigail é notória pela disciplina monástica. Não fuma, não bebe, não toma gelado, não gosta de festas, odeia badalação. Passa pito em todos os que corrompem os princípios do bom atleta de palco. Cita Caruso, que comia muito bem, dormia muito bem, amava muito bem, casou muito bem, cantava muito bem. E os exercícios?

- Até já fiz aquela ginástica da Força Aérea Canadense, 12 minutos, tatatá, mas não faço mais. Hoje eu exercito o olhar. A esteira está ali e eu fico olhando. Ioga e seus derivados não funcionam comigo porque sou bem tranqüila. Não sou allegro vivace. Sou allegro. Mas penso muito. Não é o cochilar do velho. É o doze, que está virando palavra internacional. Fico pensando na vida, fico dozing, quieta. Meu lazer é o nada.

Mostra um anúncio em que ela aparece como modêlo, assim, com acento, 10 quilos a menos apenas. Eram os 60, Bibi encenava My Fair Lady. Está de tailler amarelo, criação especial da Casa Vogue. Atrás, um Renault Dauphine branco. Fez a propaganda para arrumar um carro mais barato para a mãe, dona Aída, a bailarina Aída, que adorava velocidade - tanto que tirou brevê e voava rasante de teco-teco sobre a Rua Paissandu, no Rio, vergando as palmeiras que se descortinam no Palácio Guanabara. Bibi não se parece com dona Aída.

- Nunca dirijo e nunca tive vontade de dirigir. Viajava de um lado para o outro, três meses aqui, três meses ali. Como ia ter carro? Se bem que encontrei Paulo Autran uma vez, em Florianópolis, a caminho de São Paulo, dirigindo sozinho... Tem de tudo! Nunca pensei em carro pra mim, ainda mais carro com chofer. Para quê eu quero chofer? Para, na hora em que eu o chamar, ele estiver tomando café no boteco? Existem 220 mil táxis no Rio de Janeiro, todos passando perto da minha casa. É só fazer assim que param 10. Minha vida é muito simples.

O patrimônio de Bibi se fez a partir da tevê, onde comandou programas como Brasil 60, Brasil 61, Bibi Sempre aos Domingos e o Curso de Alfabetização para Adultos, pelo qual recebeu o prêmio de melhor comunicadora. Comprou primeiro uma casa no bairro paulistano do Jabaquara, na saída de Congonhas. Péssimo negócio. Se o avião não levantasse vôo, entrava pela sala de jantar. Vendeu a casa e adquiriu um apartamento no Flamengo, mas não tinha dinheiro para mobiliá-lo. Calhou de um francês querer se desvencilhar de um lote de coisas, algumas preciosidades, e ela arrematou o caminhão inteiro por uma bagatela. Quando fez um pouco de dinheiro com o Bibi in Concert número 1, comprou o segundo apartamento. Parou aí.

Quer dizer, tem a voz, a tessitura de voz, uma condição vocal excepcional, patrimônio inalienável. Na peça em cartaz, Bibi fala 70 das 76 páginas. Abre o espetáculo, situação inédita na carreira. Em Gota d'Água, por exemplo, entrava no 35º minuto. Agora coloca o tom acima logo no início.

- Tenho a sorte de Deus ter me dado o pulmão que me deu, um pulmão de homem e atleta, as cordas vocais que me deu, toda a ossatura facial, as maçãs salientes, a arcada suficientemente alta e larga, os dentes todos iguais. Herdei isso do meu pai, sou uma tenor.

Nem por isso pratica teatro com o pé nas costas. No dia da peça, evita falar durante a tarde (vai dormirFoto Antonio Milena - AE às 4 da manhã, acorda depois do meio-dia). Repassa o texto todo novamente, de forma metódica. No camarim, começa a se concentrar enquanto faz a própria maquiagem com base Elizabeth Arden, cajal preto, rímel, rouge, farto batom japonês na cor carmim. Limpa as vias aéreas com soro fisiológico, depois borrifa muito Carolina Herrera. Sua coxia é tranqüila, porém séria, sem deslumbramentos nem chiliques. Ostenta uma elegância de criatura despojada.

Faz aniversário em três tempos. A mãe dizia que foi no dia 1º de junho, passou malíssimo, o irmão gêmeo morreu no parto. Procópio garantia que a data era 4, mas os documentos só saíram no 10. Em 85 anos, fez uma filha, dois netos, dois bisnetos e cinco casamentos, mas não fecundou sonhos. Pela vida atarantada, viagens pela costa do Brasil, caminhão atolado, ator gripado, cenário pequeno demais, cenário grande demais, não teve ocasião de divagar.

Foto Agência Estado

- Não faço planos para o futuro, mesmo porque meu futuro está meio reduzido. Não acho muita graça na velhice, não. A velhice é a maior prova de que o inferno existe. Não é nada agradável, embora eu tenha saúde. Mas falta a vontade da juventude. A juventude é a coisa mais bonita que se tem. Mesmo assim, eu tive a minha, bem aproveitada ou não.

Pega o ramalhete de rosas colombianas. Vai entrar em cena. Toma um copo d'água, espera a deixa visual e assume Lucila, a mulher do senador Bernardo. Gesticula, senta na mesa, dança com Juca, fica trôpega de bêbada, acelera tudo o que tem de lento no dia-a-dia. O pai parece baixar sobre ela em vários momentos, Bibi diz isso a Ary Toledo e Etty Fraser no camarim. Os colegas se divertem somando quantas vezes ela é aplaudida no meio da peça. Jô Soares, o diretor, conta 18.

Às favas com os escrúpulos. Bibi é a maior.

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Fotos de Antonio Milena - AE

Arte by Angela Glavam

 Estado de S. Paulo - 10 de junho de 2007

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