Lenda viva do teatro brasileiro (Foto: Sophie Preveyraud)

 

 

Deolinda Vilhena
De São Paulo (SP)

 

 

Ela já cantou Piaf na França, Amália Rodrigues em Portugal, Gardel na Argentina e nunca fez novela, é a única entre as grandes atrizes brasileiras a não ter sucumbido à tentação. Entretanto, hoje, quando Bibi Ferreira subir no palco do Teatro Bradesco dando início às comemorações dos seus 70 anos de carreira - ela estreou em 28 de fevereiro de 1941 ao lado do pai, Procópio Ferreira - para uma única apresentação do show Bibi Ferreira em De Pixinguinha a Noel passando por Gardel, uma voz em off bem poderia anunciar que o fato de estar fora da mídia televisiva não impediu que ela se transformasse numa lenda viva do teatro brasileiro, sua primeira atriz moderna, nas palavras de Paulo Francis e mais do que isso, que se tornasse a campeã absoluta em inaugurações de teatro por esses Brasis - anda tão na moda esse plural - e estrela absoluta do primeiro espetáculo a ultrapassar a marca de um milhão de espectadores - Piaf, a vida de uma estrela da canção - no tempo em que público era o que importava. Mais de seis anos em cartaz e só no Brasil 55 cidades visitadas. Ninguém me contou essa história, fiz parte dela, a convite da própria Bibi que me trouxe para ser membro da equipe de produção e secretária de frente na tournée norte/nordeste organizada pela Sincrocine Produções Cinematográficas, leia-se Pedro Carlos Rovai.

 

Maior atriz de um país injusto

 

 

Anos 40 e anos 60 (Fotos: Acervo pessoal)

 

Em 1991 Bibi completava 50 anos de carreira. Era a primeira vez que uma estrela da sua grandeza comemorava no palco e em cena 50 anos de profissão. Para realizar a festa do seu Jublieu de Ouro ela havia sonhado uma missa musical. Um concerto. Bibi in concert. Mais de 60 empresas negaram patrocínio. E Bibi só comemorou seus 50 anos de teatro, em parte porque bancou ela mesma o risco, mas também porque contou com o apoio da TV Globo. Jamais esquecerei a chegada de Bibi à TV Globo, nos velhos tempos de Lopes Quintas, onde José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Daniel Filho e Augusto César Vanucci esperavam por ela na porta da emissora, nesse encontro sairia a decisão de transformar em especial o concerto e com isso viabilizar sua realização. Anos depois, em 1998, ao comemorar o centenário de nascimento de Procópio, Bibi sonhava com um selo dos Correios para a ocasião. Os responsáveis ignoraram. Tenho certeza que, de onde está, Procópio se lixa. Ao escrever numa dedicatória para a filha "através de você eu viverei duas vezes", ele sabia que já estava no lucro.

Enquanto isso, a França oferece um site http://www.centenairejeanlouisbarrault.fr/, no qual anuncia uma programação, que se estenderá por vários meses, com numerosos eventos em homenagem ao centenário de nascimento de Jean-Louis Barrault, grande nome do teatro mundial, que teria completado 100 anos no último dia 8 de setembro. Leituras e projeções, concertos e exposições, em muitos dos lugares que marcaram sua obra e sua vida de homem de teatro. Um homem que frequentava Artaud e Prévert, Beckett e Camus, Ionesco e Boulez e que dividiu sua vida com Madeleine Renaud. Do teatro de Vésinet ao teatro de l'Atelier, do teatro de Marigny ao teatro de l'Odéon, do museu d'Orsay -que foi um teatro antes de ser um museu -à Ópera de Paris, Barrault será digno de todas as homenagens, graças a uma associação presidida por Pierre Bergé. O ponto forte da programação está marcado para o dia 19 de novembro, no teatro de l'Odéon, quando Pierre Boulez -diretor musical da companhia Renaud-Barrault durante dez anos - regerá l'Ensemble intercontemporain tendo como recitantes Michel Fau e Olivier Py, atual diretor do teatro. Detalhe: estazinha que vos escreve estará na platéia. Perdi a ocupação do Odéon em 1968 mas não a homenagem a Barrault em 2010.

Espero que os 70 anos de Bibi sejam comemorados comme il faut...tudo bem que Glauber mereça uma bela cerimônia de anistia post mortem mas que tal pautar na agenda Sr. Ministro uma homenagem à Bibi em vida, que está a dois de noventa, como ela mesma diz...ela é quase baiana sabia?

 

De Pixinguinha a Noel passando por Gardel

 

 

Em casa, como ela gosta (Foto: Deolinda Vilhena)

 

 

Foi após lançar o CD Tango em 2006 - ainda me lembro de receber as primeiras versões em Cds caseiros em Paris, onde morava na época - que surgiu a ideia de cantar em Buenos Aires. O local escolhido foi o Teatro Margarita Xirgu, situado em San Telmo. Assim nasceu Bibi Ferreira de Pixinguinha a Noel passando por Gardel. Um espetáculo que tem a marca da ousadia, afinal só Bibi poderia pensar em unir as mais belas canções brasileiras dos seus últimos espetáculos, cujo repertório inclui Antonio Carlos Jobim, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Orestes Barbosa, Maysa, Dolores Duran; os fados, lembrando sua homenagem à Amália Rodrigues; as canções de Piaf; referência a um dos seus maiores sucessos, uma homenagem ao centenário de Noel Rosa e os tangos argentinos.

Não por acaso, Bibi dividiu o espetáculo em dois, deixando a surpresa maior para a segunda parte, aberta por um solo do grande pianista Diego Schissi, arranjador do CD TANGO. Na sequência Bibi canta acompanhada por ele "Milonga Triste" e "Yo Soy El Tango". Só então entra em cena a orquestra El Arranque, considerada uma das mais importantes orquestras de tango da Argentina, para acompanhá-la em "Debajo", "Cuesta Abajo" e "Esta Noche me Emborracho". E garanto a vocês que ela arrasa, para quem não sabe Bibi é filha de uma argentina - Aída Izquierdo Ferreira e parte da família é uruguaia, o que fez do espanhol a sua língua materna e ela mata a pau cantando tango...cresceu ouvindo tangos!

Workaholic embora se diga uma preguiçosa - me engana que eu gosto -Bibi não para. Paralelo aos ensaios do show ainda encontrou tempo para gravar com Francis Hime, mais uma bela produção da Biscoito Fino, Bibi Ferreira Brasileira - Uma Suíte de Amor, disco composto por canções nacionais e com um detalhe requintado, o disco não é um encadeamento de faixas, mas apenas uma faixa única que começa com um piano que, sem parar, leva todas as canções até o final. Antes mesmo de ouvir o copião, já tinha tido o privilégio de ouvir cada uma das canções por telefone, via Embratel. Desculpem. E preparem-se, é lindo...Para minha felicidade Bibi incluiu Vambora da Adrix, ou Adriana Calcanhotto, no repertório do disco e do show. E eu não queria contar, mas ela anda ensaiando Michael Jackson, não se assustem se no próximo espetáculo ela de repente atacar de "Billie Jean" e ainda ensaiar uns passos do moonwalk do alto do seu de salto plataforma 15...a dois de noventa ela está podendo...

 

 

O que disseram os argentinos?

 

Cantando Piaf em Paris - maio de 2000 (Foto: Sophie Préveyraud)

 

 

Sobre Bibi Ferreira de Pixinguinha a Noel passando por Gardel, Fernando López, crítico do jornal argentino La Nácion, disse o seguinte quando da passagem da nova diva por Buenos Aires em abril de 2010: "lenda viva da cena brasileira, onde brilha há setenta anos, filha de uma glória teatro Procópio-se e artista ela mesma de muitos talentos e vitalidade inesgotável, Bibi Ferreira voltou finalmente a Buenos Aires. (...) Apenas uma estrela do seu calibre pode mergulhar para visitar territórios musicais tão diversas como tem cultivado em sua longa carreira, sem o risco de pastiche ou de prejudicar a coerência do programa. O que foi proposto foi um esboço de auto-retrato, uma viagem linda, inteligente, planejada e fortemente emocional, parando em cada um dos portos que marcaram suas viagens. (...) Podemos considerar esta visita como um retorno atrasado aos nossos palcos, é importante notar que, em 1925, um repórter do La Nación disse que a graça e a segurança da artista precoce - Bibi tinha apenas 3 anos - ao vê-la cantar e dançar entre os cantores da companhia empresa Eulogio Velasco, da qual fazia parte sua mãe. (...) Décadas se passaram, é verdade, mas a segurança e a graça são as mesmas de sempre. Como a voz, musical, poderosa, completa que se faz flexível, quando exigida pelo frescor do samba, intensa nos registros de graves intensos solicitados pelo fado, dramática nos temas de Piaf, sempre usada como um veículo para a emoção. (...) E o capítulo final, puro tango, merece um parágrafo à parte. Porque pela primeira vez um visitante estrangeiro ao ousar tocar em um dos ícones da cultura nacional popular não o fez por lisonja para ganhar aplausos. Pelo contrário: a dama de frescura invejável (o que ela mostra tanto em sua voz, como em seu humor e seu espírito de renovação), entrou no assunto pelo lado mais difícil: resolvendo com autoridade as solicitações de "Eu sou o tango", de Domingo Federico e Homero Expósito, tendo ao piano Schissi Diego. E então, com a entrada em cena da grande banda El Arranque, iniciou-se o melhor. Bibi começou se desculpando por se atrever a cantar tango e terminou quase que catedrática. Seu fraseado admirável descarta todos os vícios do gênero, exageros teatrais, estereótipos, postura enfática. É pura expressão, conseguiu transmitir a emoção em versos e melodias de "Milonga Triste", "Cuesta Abajo", "Lama" ou "Esta noche me emborracho", entre outras versões inesquecíveis. Foi um luxo tê-la aqui".

Como é um luxo tê-la hoje à noite no Teatro Bradesco. Corram, é hoje só, só, só/ vai acabar já já...ah os cariocas terão dois dias no Canecão, 15 e 16 de outubro...

 

 

Quarta, 13 de outubro de 2010, 08h13

 

Deolinda Vilhena é jornalista, produtora, Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne e professora conferencista do Departamento de Artes Cênicas da ECA/USP.

 

 

 

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