Entrevista com uma diva

 

 
Uma entrevista pode ser algo muito simples de resolver — mas não quando o entrevistado tem de economizar a voz, preparando-se para soltá-la em uma série de shows aos 84 anos. Foi com essa dificuldade que o repórter EDUARDO FRADKIN teve de se defrontar para conversar com um mito do teatro: Bibi Ferreira. Dificuldade que ele superou com a ajuda da própria Bibi,que mostrou que sua usual reserva tem também um tanto de mito.
— Liguei para a casa dela no sábado. Ainda bem que fiz isso, porque ela me disse que jamais poderia falar comigo no dia do ensaio, já que precisaria descansar as cordas vocais.Transferimos a conversa, então, para segunda-feira na casa dela — conta Eduardo, repórter que também costuma cobrir música clássica no Segundo Caderno.
A conversa começou na casa da atriz, cantora e diretora, prolongou-se em um estúdio de Copacabana, para onde ela foi gravar uma música, e voltou para a casa de Bibi, durando, ao todo, quatro horas.Ela relembrou a carreira e contou histórias
divertidas sobre os bastidores da profissão. Um momento de suspense foi quando ANDRÉ COELHO foi fotografá-la — o que ela detesta. Mas, depois de hesitar um pouco, posou sem reclamar.
Bibi me recebeu de vestido azul simples, sem qualquer jóia ou bijuteria. Pode não ser vaidosa, como afirmou, mas toma alguns cuidados, como usarmaquiagem. Embora tenha fama de retraída, foi muito simpática e conversadeira.
O bate-papo teve direito a um momento que poderiater sido constrangedor— mas acabou divertido, quando ela resolveu entrevistar o entrevistador: — Ela quis saber se eu já a tinha visto cantar. Não quis mentir, mas a verdade é que não
sou fã de musicais. Mas respondi que sim. Ela quis saber onde. Aí não houve saída e confessei: “ Pela televisão, em reportagens.” “Você não ouviu nada ainda”, respondeu. Concordei.
Mas prometo sanar o problema nesta temporada dela no Teatro Rival. Certamente me divertirei mais do que ela na sessão de fotos.

Jornal OGlobo

 23.11.2006


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ENTREVISTA:

 

BIBI VIVE (Amália, Piaf etc)

EDUARDO FRADKIN

Aos 84 anos, a artista esbanja disposição, fazendo maratona de shows

 



Para que esta reportagem fosse publicada, Bibi Ferreira quebrou sua primeira regra: evitar entrevistas em período de preparação para um musical. Ela aprendeu, há muitos anos, com o barítono Paulo Fortes, que, para conservar a voz, deve falar o mínimo possível nesses dias. Quando volta de um ensaio, seu neto Fernando, sua governanta, Neide, e sua cozinheira, Ana - com quem convive num amplo apartamento no Flamengo -, já sabem que é melhor não puxar papo. Se tal reserva é importante antes da estréia de um musical, que dirá de dois. Pois é o que ela fará até domingo, no Teatro Rival. Hoje e amanhã, o público (re)verá "Bibi vive Amália". Sábado e domingo, "Bibi canta e conta Piaf".

- Quis começar com Amália por ser mais difícil. Em Piaf, estou interpretando um repertório, e não uma personagem. Não preciso cantar com sotaque francês perfeito. Mas, em Amália, eu sou a personagem, então preciso cantar e falar como ela, com sotaque de Portugal. A propósito, lá dizem que somos muito parecidas. Uma vez, quando entrei num táxi, o motorista arregalou os olhos e me disse que eu era a cara dela. Mais incrível foi a reação do guitarrista Carlos Gonçalves, que tocou por 20 anos com Amália Rodrigues. Quando me viu caracterizada como ela, Carlos se emocionou e beijou meu vestido - disse Amália, quer dizer, Bibi, diante de uma mesa com um mapa que fizera do palco do Rival, para dirigir os dois shows, e de um roteiro de "Às favas com os escrúpulos", comédia de Juca de Oliveira que encenará em 2007.

                             Ensaios começam na própria casa

Durante a entrevista, Bibi caminhou pela casa - bastante ensolarada para quem sofre de fotofobia aguda, tratada à base de vários colírios -, mostrou seu quarto, onde acorda por volta das 10h, e a "sala da bagunça", onde ficam TV (na qual sempre vê um filme antes de dormir), aparelho de som e esteira, onde anda por meia hora todas as manhãs, depois de tomar um "abecedário de vitaminas" recomendadas pelos médicos (ela tem 11 doutores de diferentes especialidades, que considera seus grandes amigos).

A saúde vai bem, garante a artista, aos 84 anos. Diz até que a voz melhorou com a idade. A vaidade, essa vai mal. Bibi lamenta ser menos preocupada do que deveria com as aparências. Fez recentemente uma cirurgia no abdômen, mas porque o excesso de gordurinhas estava prejudicando sua coluna. Para quem teve seis grandes amores (cinco casamentos e um romance do qual nasceu a filha, Tina), Bibi é de uma autocrítica cruel:

- Meu pai (o ator Procópio Ferreira) sempre teve fama de feio. E desde o colégio me disseram que sou a cara do meu pai. Acho que guardei isso. Tenho horror de me ver na tela, por isso nunca fiz novela ou cinema. Recusei convites de Glória Perez, de Eduardo Coutinho. O que tenho de melhor são as pernas, mas não posso sair mostrando-as por aí.

Melhor que as pernas é a voz. Para conservá-la, Bibi não sai de casa sem echarpe, como nessa chuvosa segunda-feira, quando foi gravar a música "As suas mãos" para um CD em homenagem a Maysa. Seu processo de ensaios começa em casa, numa ante-sala com suave eco. Ali, ela canta por cima de gravações - cujo som vem de outro cômodo, o "da bagunça" - e anota as falhas que devem ser corrigidas.

A experiência acumulada desde 1950 - quando começou a cantar em cena, em "Escândalos 1950" (cuja temporada foi interrompida por um incêndio no Teatro Carlos Gomes) - faz de Bibi uma diretora requisitada por cantores famosos, além de ótima contadora de causos.

- Bethânia é uma amiga querida e consegue ler letras de música no escuro. Elizeth Cardoso comia uma cebola crua logo antes de entrar no palco. Fiz três shows com ela. Um deles foi na época da ditadura e tinha uma cena com bailarinos amordaçados. Tivemos de cortá-la por ordem dos censores, que temiam até que as toalhas de mesa vermelhas do Canecão pudessem virar bandeiras. Clara Nunes tomava muito uísque com gelo, mas isso não a alterava. Quando a dirigi em "Brasileiro, profissão: esperança", ela estava noiva, mas se apaixonou por Paulo César Pinheiro, que ia vê-la no Canecão. Eu bancava a cafetina, distraindo o noivo para ela ficar com o Paulo - fofocou Bibi.

           Falante, ela lembrou também o início de sua carreira

- Estreei no teatro em 1941. Papai precisava de um sucesso, pois gastava dinheiro demais. Então me convidou, por carta. Mamãe consentiu em meu nome e depois me avisou que eu iria trabalhar com meu pai. A primeira peça deu certo, mas foi uma experiência estranha. O teatro foi, para mim, um casamento arranjado a que tive de me acostumar. A peça seguinte foi um fracasso. Eu fazia o papel de amante do meu pai. A platéia ficou escandalizada.

Ironicamente, a obra de que Bibi mais se orgulha não é uma peça nem um musical, mas um programa de TV que não lhe deu um centavo:

- A coisa mais bonita que fiz foi o curso de alfabetização de adultos, na TV Tupi. Em três meses, alfabetizamos 60 mil pessoas.

Legenda da foto: BIBI, À VONTADE em casa, onde ensaia cantando por cima de gravações, faz exercício e vive com um neto

Legenda da foto: BIBI NA TV Excelsior; com o visual da peça de estréia, em 1941; e ao piano, aos 17 anos, com o pai, Procópio.



                               Com a palavra, os amigos



"Minha história com Bibi se confunde com a história de minha carreira. Em 1954, estrelei 'Senhora dos afogados' com a Companhia Dramática Nacional, dirigida por ela. Tinha acabado de chegar de volta ao Brasil, depois de um período de estudo em Paris. Além da amizade, cultivamos um apreço mútuo e o prazer de trabalhar juntas. Esses últimos concertos dela são extraordinários. Ela sempre se supera e consegue me emocionar, me comover". NATHALIA TIMBERG  - Atriz

"Quando eu estava começando minha carreira, Bibi já era uma referência máxima. Apesar de ela ser um mito, consegui me tornar seu amigo. Tínhamos histórias de vida parecidas, ambos filhos de atores famosos. Trabalhamos juntos quatro vezes. Bibi é muito rígida no trabalho, exige muita disciplina. Acho que a maioria dos jovens atores deveria passar pela mão dela para aprender que nossa profissão não é só glamour. É trabalho duro". GRACINDO JR. - Ator

"As pessoas a consideram um produto do Procópio, mas Bibi descende, por parte de mãe, de uma dinastia teatral argentina, a Podestá. Foi por estímulo de sua mãe, Aída, que Bibi aprendeu balé, línguas, dicção e teatro. Bibi é uma das raras atrizes brasileiras que podem ser chamadas de completas. Ela é técnica até demais e faz de tudo: canta, dança, atua. Isso foi decisivo para que a escolhesse para o papel de Elisa em 'Minha querida lady' (1962)". VICTOR BERBARA - Produtor

 


Jornal O_Globo

 23.11.2006

Crédito: Eduardo Fradkin

 Editoria: Segundo Caderno

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